Cloverfield (Matt Reeves, 2008)

O único conhecimento sobre o que se segue ao desfecho de Cloverfield (que no Brasil recebeu um subtítulo que será desprezado aqui) é exibido nos primeiros segundos do filme: o governo dos EUA ainda existe; o Central Park não (melhor seria o contrário); e as imagens que serão vistas constam de uma fita encontrada aonde antes ficava o Central Park. O fato de que tais informações são oferecidas desde o princípio é essencial para determinar o real valor dessa obra singular.

O garotão Rob está de partida para o Japão, onde será vice-presidente de uma empresa. Na noite da despedida, o irmão dele, Jason, a namorada deste, Lily, e o melhor amigo de Rob, Hud, organizam uma festa surpresa. Hud fica encarregado de documentar o evento. Toda a estória é mostrada a partir da câmera que Hud carrega. Mas há um problema. “Monstro”, você grita!! – “Monstro!?”, você grita. – Não, ainda não. O problema é que Rob esteve desde sempre apaixonado por Beth, e poucos dias antes eles finalmente ficaram juntos. A partida dele põe um fim a essa breve e tão sonhada estória de amor. Porque Cloverfield é, na verdade, sobre isso. Um cara, uma garota. E no meio aparece um monstro.

Todo o primeiro ato é lento, até mesmo chato. Se poderia – Pode-se até – dizer que o filme falha, mas isso estaria incorreto, pois o ritmo e o conteúdo das gravações que antecedem ao aparecimento da criatura servem exatamente para realçar o passo frenético que virá a seguir. Incidentalmente, esse ato serve também para introduzir os personagens ao espectador, e nisso sim o filme peca. Os únicos que atingem alguma profundidade, ainda que mínima, são Rob e Beth. Ele serve de pivô para todos os eventos. Ela, por outro lado, quase não participa dos acontecimentos da noite do ataque, mas se beneficia da introdução de flashbacks, uma das idéias mais inteligentes de Cloverfield. Os sentimentos que Rob e Beth nutrem um pelo outro vão definir a noite, e a vida, deles próprios e dos que os cercam. No que diz respeito aos outros personagens, não se encontra mais do que uma representação genérica de irmão, de melhor amigo, etc…

Quando finalmente o ataque começa, a obra vai a outro nível. A ação é rápida e inesperada, e cabe ao espectador tão somente acompanhar os personagens, tão desprevenido, vulnerável e ignorante de sua própria situação quanto eles. O ponto alto de Cloverfield é esse, rapidamente a platéia se coloca em estado de alerta, pois percebe que não há segurança, tudo pode acabar em tragédia a qualquer momento – pelo menos para alguns deles, pois se sabe que o fim mesmo só virá no Central Park. A tensão, em alguns momentos, torna-se quase palpável, e a seqüência que se passa dentro do túnel do metrô merece figurar entre as melhores do cinema recente.

Chega então o momento de fechar o círculo. E encontra-se aqui a relevância das informações oferecidas no início da projeção. Quando o filme entra em seu trecho final, o espectador é levado a imaginar o que acontecerá a seguir. Pense na maneira mais óbvia de encerrar uma estória como a proposta por Cloverfield. E, infelizmente, é isso mesmo o que acontece. Ocorre ainda a tentativa de mascarar esse final, repetindo um expediente utilizado anteriormente na própria obra, mas este, tanto por não oferecer o que o filme pedia quanto por ser mal executado, não atenua o pecado final.

Cloverfield possui, afinal, duas metades combinadas: uma estória de amor em situações extremas e uma estonteante seqüência de ação e suspense. Mas à medida que o filme se aproxima do fim, a primeira metade é sacrificada em benefício da segunda. Qualquer pessoa que já tenha amado sabe que amar ou imaginar estar amando são equivalentes, e que quando isso acontece, nada carece de boas razões. Mas a obra falha em transmitir essa sensação, e esse erro se aprofunda ao longo da projeção. Tivesse conseguido manter as duas metades conectadas até o fim, refletindo a relação do casal sobre o evento apocalíptico que assola Nova York, Cloverfield poderia ser uma obra-prima. Esteve a um passo disso, mas acabou tropeçando em sua própria armadilha: perdeu-se de tanto correr na escuridão.

3/4

Marcelo Dillenburg

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