
Will Smith vem aí! Com uma carreira relativamente curta como ator (seu primeiro trabalho foi em 1990, num especial de TV), Smith apareceu, verdadeiramente, com o seriado The Fresh Prince of Bel Air (intitulado Um Maluco no Pedaço, aqui no Brasil e em freqüente exibição pelo SBT) e seguiu carreira com atuações que sempre pendiam para as gracinhas que se acostumara a fazer no já citado seriado e para o rap, “vocação” incômoda que Smith tentou emplacar a todo custo mas que, por azar dele e sorte nossa, nunca, de fato, deu certo.
No cinema, Smith colaborou duas vezes com Michael Bay nos infames Bad Boys I e II, porém, atingiu maior sucesso em Independence Day, de Roland Emmerich e, mostrando que tinha gostado da idéia dos alienígenas, participou das duas versões de MIB – Homens de Preto, ao lado de Tommy Lee Jones. Além desses projetos, ainda vale citar Ali, de Michael Mann e Eu, Robô de Alex Proyas. Foi mais ou menos a partir daí que tanto a crítica quanto o público deram-se conta de uma coisa: Smith, como comediante e ator de filmes de ação era engraçadinho, mas, como ator dramático, era competente! Não é de se estranhar, portanto, que os últimos três trabalhos de Smith (Hitch – Conselheiro Amoroso, À Procura da Felicidade e este Eu Sou A Lenda) sejam tão calcados no aspecto dramático do protagonista.
Pois bem, chegamos à Eu Sou A Lenda. Francis Lawrence (diretor de videoclips e do apenas bom Constantine) é coeso em sua direção e consegue proporcionar alguns bons momentos. Porém, o que derruba mesmo esse projeto (aliás, que conste já: Eu Sou A Lenda não passa de um filme mediano) são seus aspectos técnicos e a pressa com que é conduzido. Mas falemos um pouco sobre a trama antes de açoitarmos o filme por suas falhas: Will Smith é Robert Neville , um tenente (ou tenente-coronel, não sei… as legendas do filme não conseguiam se decidir entre um ou outro) do exército americano, além de ser um cientista. Após o planeta ser assolado por um vírus mortal e indestrutível, Neville é, aparentemente, o último sobrevivente da raça humana, devido sua imunidade ao vírus. Sua única companhia é a cadela Sam, com quem Neville conversa, discute e repreende duramente por suas ações “impensadas”. Entretanto, o personagem de Smith sabe que não está exatamente sozinho no planeta: em recantos escuros de prédios abandonados vive aquilo que sobrou da humanidade: aqueles que não foram mortos pelo vírus acabaram se transformando em criaturas irracionais e vorazes por carne.
Nesse contexto, Neville sobrevive às custas daquilo que encontra de útil na cidade de Nova York (não posso deixar de comentar que a coisa mais útil que ele encontra é um Shelby GT500 que usa para perseguir cervos pelas ruas desertas de NY) e, insistentemente, envia um sinal de rádio, na esperança de encontrar outros sobreviventes como ele. À noite, porém, Neville inicia o ritual mais importante: trancar-se em casa. Como as tais criaturas possuem hábitos noturnos (sendo, assim, sensíveis aos raios UV), abandonam seu refúgio para caçar à noite. Transformando sua casa em uma verdadeira fortaleza, Neville passa as noites assistindo à filmes que ele “aluga” na cidade e tentando descobrir uma vacina para o terrível vírus.
Os primeiros atos do filme são seus pontos fortes: a apresentação de Neville e seu modo de viver numa cidade deserta é bastante eficaz e encontra seu ponto alto em duas cenas: a da caçada aos cervos e a que nos mostra, pela primeira vez, uma visita de Neville à video-locadora que ele freqüenta. Percebe-se, portanto, que o soldado-cientista está se esforçando bravamente para não se deixar tomar pelo desespero de estar sozinho e a não sucumbir à loucura que pode surgir dessa situação. Percebendo a dimensão que seu personagem possui, Smith compõe Neville como um homem que se mantém forte diante de uma realidade que o castiga duramente, seja pelo fato dele ser obrigado a viver sozinho, seja pela perda trágica de sua família (que nos é mostrada através de flashbacks, bem como as linhas gerais de tudo o que se passou nos dias anteriores à quase-extinção da humanidade).
Entretanto, a partir do momento em que conhecemos as criaturas que Neville tanto teme, o filme descamba (o que é uma pena, uma vez que conhecemos as criaturas em uma ótima e tensa cena), só ganhando um pouco de fôlego em uma cena em que Neville tem sua perna ferida e precisa rastejar. As criaturas, por sua vez, são desastrosas, não conseguindo causar, em momento algum, a mínina sensação de ameaça. Feitas digitalmente, elas são plásticas demais e muito “limpas”. Não dá pra deixar de imaginar o que seria esse filme, nesse quesito, se estivesse nas mãos de George A. Romero ou Lucio Fulci (caso este último ainda estivesse vivo).
Outro aspecto fraco do filme é a personagem de Alice Braga que, apesar de mostrar uma atuação satisfatória, acaba sendo prejudicada pelo fato de sua personagem ser simplesmente alguém para Neville conversar e dar desfecho ao filme. Pendurada numa vaga esperança de existir um acampamento de sobreviventes (Extermínio, alguém?), Anna é somente o estereótipo de mãe-que-quer-salvar-seu-filho-da-terrível-situação-que-os-cerca (ah, perdão! Ela é, também, a primeira garota paulistana da História que nunca ouviu falar em Bob Marley).
Perdendo completamente a linha em seus últimos atos, Eu Sou A Lenda torna-se enfadonho e esquemático (e até mesmo vergonhoso, se lembrarmos das cenas em que a criatura macho-alfa aparece), não conseguindo manter a tensão que a cena da primeira aparição das criaturas prometera. Porém, torna-se válido graças às cenas em que Smith está sozinho e mostrando sua competência para o drama. Uma pena que o roteiro acredite que o carisma de seu protagonista seja o bastante para segurar um filme inteiro nas costas.
2/4
Murilo Lopes de Oliveira
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