Paranoid Park (Gus Van Sant, 2007)

Jamais suportei o modo como a adolescência é tratada no cinema. Quase sempre chega-se com um pé na porta, uma câmera na mão, encontra-se um fundo falso multicolorido e pronto, o espectador dá de cara na parede, interrompido, permanecendo apenas na ante-sala desta fase tão complexa e tão mal traduzida em imagens. Resta no filme uma luz forte, pálida e saturada de preconceitos. Exatamente por isso, Paranoid Park é todo redenção. Mais minha para com o tema do que do próprio personagem.

O que o torna transcendental, ao menos neste aspecto, é um senso muito básico que na verdade acaba mapeando o êxito do filme todo, como uma decisão acertada numa bifurcação logo no início. O respeito com que Van Sant trata Alex coloca seu filme num ponto de equilíbrio que acaba transportando toda a película para dentro do personagem, projetando o filme através das lentes dos seus olhos. A partir daí, Gus Van Sant desaparece, como se nunca tivesse existido, e ficamos sozinhos no filme. O que ocorre é o espectador preso na caixa craniana de Alex, vendo a movimentação em microgravidade dos skates e ouvindo o mundo do lado de fora através de ouvidos mutantes, de um corpo mutante, de um humanóide no terreno a vácuo entre a infância e a maturidade, um lugar através do espelho onde as coisas mudam de forma tomando valores que não podem ser compreendidos do lado de fora deste novo mundo.

Acima de tudo, Paranoid Park é sobre a solidão, o isolamento aparentemente inquebrantável no qual Alex está jogado. Vagando linearmente num corredor vazio como se vagasse por um purgatório, fechado em si, incapaz de uma comunicação que não se reflita nas folhas de um caderno e volte contra ele mesmo.

Há três cenas, pra mim, absurdas no filme. Aparentemente simples, quase tediosas se vistas de trás de um balde de pipocas, mas escondendo sob si a força de um megaton, cem vezes mais chocantes que aquela outra, a bem explícita (que também é ótima mas não consegue comparação). Primeiramente, a tal cena do chuveiro, ridícula se descrita visualmente, mas ilustrando o momento preciso em que Alex sente o mundo inteiro caindo sobre o seu corpo. Segundo, a que revela seu pai, alguém que com cinco segundos na tela demonstra ter passado e sobrevivido pelo dito monstro da adolescência, mas ainda frágil e confuso, ainda mais cheio de problemas. Por último, a cena de sexo, momento-mor do isolamento de Alex diante do seu meio, passando de costas por aquele que em tese seria um dos maiores acontecimentos da adolescência.

E há uma simplicidade tocante em como tudo acontece. É quando uma provável gigantesca pretensão (e sem elas não se realiza nada) acaba totalmente eclipsada por sua própria eficiência. A única coisa que me incomodou (além desta minha aversão preconceituosa incrustada em relação ao tema da adolescência, que de todo modo, começa a ser diluída para talvez inexistir numa revisitada) foi mesmo a escolha de manter os pais de Alex distantes do foco, um recurso óbvio demais que além de destoar das demais opções de Van Sant, já aparece sobrando diante do refinamento com que a mesma sensação de distância que o separa do mundo (e não apenas de sua família) é transmitida. 

De qualquer forma, Paranoid Park merece tudo o que vem se dizendo dele. Não sei se é um dos filmes da década, se é antológico, mas preenche um espaço que, pra mim, carecia de um tratamento à altura. E atenção ao Van Sant, porque o cara tá ficando grande.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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