O Hospedeiro (Gwoemul / The Host – Joon-ho Bong, 2006)

Depois que terminei de assistir esse filme fui logo tentando conter o entusiasmo, evitei ficar imaginando o nível de empolgação que ele poderia ter despertado em mim, me contentei apenas em lembrar de cenas isoladas, sem precisar enxerga-lo como um todo, mesmo sem ter uma compreensão melhor do que tinha acabado de assistir, depois faria isso. Basicamente esfriei ele e fui fazer outra coisa, pra não cair em uma falsa empolgação e atira-lo em um patamar onde não está, como aconteceu com Filhos da Esperança, filme que eu surtei quando terminei de assistir e depois caiu vergonhosamente (mesmo ainda achando bom, só que nem perto do que imaginei no inicio). Fiz isso pq a sensação que senti ao terminar esse foi muito semelhante com a vez em que terminei o do Cuarón.

Então o processo de digestão com esse aí foi diferente pra mim, como falei ali, não me interessei no momento em me aprofundar de uma forma mais ampla no que tudo aquilo ali tinha me dito, me limitei a curtir e deliciar especialmente com todo o caráter visual da coisa, desde o momento em que o monstro aparece como uma simples mancha negra quase que imperceptivel dentro da água, ou quando fica encolhido quase que no formato de um casulo embaixo da ponte, até a batalha no meio daquele caos de fumaça amarela. Isso aqui é tão bem filmado que da vontade de ficar revendo certas cenas sem parar. Não falo apenas em movimentos de câmera, enquadramentos e etc, mas isso tudo sendo posto em pratica em um dos ambientes fisicos mais geniais que pude conferir (eu diria que é o mais). A atmosfera criada naquele local é um personagem a mais no filme, a ambientação onde ocorre tudo aquilo passa ser parte essêncial, tão importante quanto o monstro, tão importante quanto qualquer outro personagem. Pra se ter uma idéia, é a mesma coisa que pensar em Chaves fora da vila. Não da. Aquele cenário ganhou vida própria, é orgânico, ele pulsa. Se resolvessem voltar a produzir aquilo em algum outro condominio, não daria certo, ali era a casa perfeita pra eles. Esse lago, esse encanamento, essa toquinha do bichão, é a embalagem perfeita pro filme, tem tanta vida quanto o monstro, chega a brilhar a coisa. Poucas vezes eu vi um ambiente tão bem utilizado, que na metade do filme tu já estivesse familiarizado com os arredores, em uma espécie de aconchego até. Talvez coisa semelhante eu tenha visto em Dogville, Querida Wendy, Sinais, A Dama na Água, Stalker… Mais alguns até, mas nada com a intensidade desse aqui. É demais.

E una isso com a capacidade insana desse japa em criar cenas de ação visualmente lindas com uma dramaticidade empolgante. Aliás, aí ta um grande diferencial desse pra maioria dos catastrofes, o filme é muito mais drama do que qualquer outra coisa. Se tu pegar um Independence Day, Cloverfield, Guerra dos Mundos, sei lá, onde o foco é a ameaça contra o mundo, e os personagens especificos presos nesse universo fugindo também dessa ameaça.. aqui é diferente, fica tudo mais limitado. Aqui é foda-se o mundo, o que importa é a familia. Na verdade é totalmente pessoal, família x monstro, chegando a ser uma questão de honra, todas as consequências externas deixam de ser importantes pra desenvolver exclusivamente os objetivos de resgate deles. Mais ou menos como se caso isso fosse conquistado, dane-se o que aconteceria depois. Acontece que isso é muito mais arriscado, e pra conseguir se sair bem nessa, apenas criando um núcleo de personagens extremamente eficientes. E pqp, vendo isso, fica difícil saber onde esse cara acerta mais nesse filme. Todos os personagens, tanto os que partem para o resgate quanto os que esperam por ele, praticamente nascem inesqueciveís. Ele adota na criação deles uma personalidade infantil, escrachada, dando caracteristicas e habilidades semelhantes até as de personagens de anime, onde o humor e a ingenuídade prevalecem, e conseguindo inserir isso no universo do filme de uma forma que sempre faça as emoções oscilarem para os dois lados, como sentir o lado amargo que os personagens vivem, como também rir com eles, a cena do velória é perfeita pra ilustrar isso.

É praticamente uma fábula moderna, da familia que vai em resgate da garotinha na toca do peixe gigante. E no final, as consquências disso tudo, é as recompensas que cada um consegue, é dos momentos mais bonitos do cinema.

Sem medo de me enganar como com Filhos da Esperança, um dos 20 melhores filmes que assisti.

4/4

Thiago Duarte

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