O Esporte Favorito dos Homens (Man’s Favorite Sport? – Howard Hawks, 1964)

Após Hatari, uma espécie de prestação de contas em que todas as preocupações do diretor estavam direcionadas a lacrar seu universo particular e as relações entre homem e mundo que nele se estabeleciam – prestando ao mesmo tempo uma homenagem a tudo que foi de seu interesse durante os mais de 40 anos de carreira -, Hawks chutou de vez o pau da barraca. De 1964 a 1970, quando encerrou sua filmografia com Rio Lobo, outra variação de Onde Começa o Inferno – já havia feito três anos antes o monumento ao western El Dorado -, seus filmes deixaram de lado grande parte dos valores aos quais eram especificamente caros para definir como ponto de partida a reprodução de uma nova maneira de fazer Cinema.

Se de forma bastante intensa isso já era sentido em Hatari, é com O Esporte Favorito dos Homens que a deformação do estilo classicista, do qual Hawks foi um dos fundamentadores, ganha corpo e espaço definitivo. De certa forma pode-se considerar esta transloucada história de amor como uma subversão do modelo estabelecido pelo próprio diretor em Levada da Breca – alguns afirmam ainda ser este uma refilmagem do filme de 1938 –  construída a partir de uma visão inversa à fórmula hawkskiana que desde Paraíso Infernal havia sido definida como base de seu Cinema – basicamente a ação decorrer a partir da invasão de uma mulher a um universo masculino que foge de sua compreensão.

A começar pelo ponto de partida e sua relação com a masculinidade que nos momentos mais românticos do diretor – Rio Bravo sendo o expoente máximo disso – sempre era objeto de exaltação. Rock Hudson interpreta um homem tido como especialista no referido “esporte favorito dos homens”, no caso, a pesca – ou seria o amor? Em qualquer dos casos ele era muito ruim – que fez sua fama com bem sucedidos livros de táticas e macetes sem ter a menor ideia de como tudo funciona na prática. Hudson é auxiliado por uma mulher para tentar aprender a pescar alguns dias antes de uma competição na qual foi inscrito contra sua vontade. O homem é um desastre dentro do próprio universo masculino enquanto a mulher tem completo domínio deste ambiente.

É um Hawks às avessas, como pode-se perceber. A estrutura é basicamente a mesma de outras   comédias anárquico-românticas suas – Jejum de Amor, A Noiva Era Ele – com um casal principal soltando faíscas a cada encontro e invadindo um à vida do outro para garantir uma boa dezena de confusões, mas a funcionalidade de cada peça é devidamente alterada a ponto de transformar situações corriqueiras em filmes do gênero em ações de motivação inversa – técnica que seria potencializada em El Dorado, um dos grandes exemplos do significado literal de direção cinematográfica em que a simples troca de um elemento de cena transforma completamente os rumos da história (que na superfície é semelhante à de Rio Bravo). Se em Levada da Breca, por exemplo, Katherine Hepburn invade sorrateiramente o cotidiano de Cary Grant, agora é Rock Hudson – numa evocação exemplar do estilo imortalizado por Grant em suas parcerias com Hawks – quem entra em contato com um universo do qual não fazia parte, embora devesse.

Por mais que pareça existir uma cerebralidade latente nesta nova maneira de Hawks construir seu Cinema o resultado final é exatamente o oposto. Tanto O Esporte Favorito dos Homens quanto Rio Lobo ou El Dorado são filmes pelo menos tão leves quanto os momentos mais descompromissados do diretor. No caso específico deste seu último romance tudo é construído com uma naturalidade impressionante. São, como costumo dizer quando me refiro ao ritmo narrativo hawkskiano, duas horas de filme que não avançam, simplesmente. Elas flutuam, derretem na tela. Há um carinho muito grande do diretor – que por alguns já foi considerado mero condutor de carroça o que sinceramente me faz crer que estes não entendem nada de carroças – com a duração dos planos e das cenas e isto faz com que Cinema algum seja tão deliciosamente preciso quanto o seu.

Para deixar tudo ainda mais interessante temos o domínio cômico imortal do mestre em sua melhor forma. Hawks deixa os atores livres para exercitar caras e bocas e até mesmo quem não deveria ter a menor aptidão a este tipo de trabalho – Hudson nem de longe chega a ser um cômico – o faz de maneira tão empolgante e empolgada que a menor das piadas passa a ser infalível. Paula Prentiss em especial, uma típica mulher hawkskiana, demonstra domínio completo da personagem e, graças à química irrepreensível com seu parceiro de cena, faz de alguns momentos exemplos do melhor que pode se oferecer em termos de comédia no Cinema. Como os bons clássicos cômicos de Hawks, O Esporte Favorito dos Homens é todo construído sobre uma série de momentos específicos e a qualidade destes momentos é que torna este um filme tão irresistível.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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