A Máscara Mortal (Roger Corman, 1964)

Já falei algumas vezes de como, nesses mais de 100 anos da sétima arte, muitos profissionais não recebem o merecido destaque, sendo renegados a vagas e pontuais lembranças. Isso ocorre principalmente dentre aqueles que abraçaram o terror como “gênero”. Só para constar: quantos filmes do gênero ganharam o Oscar? Alguém sabe qual foi o último a ganhar essa honraria? Pois é… Talvez o mais injustiçado (ou pelo menos um dos mais) seja Roger Corman.

Se William Castle foi um legítimo showman, um legítimo performer que não poupava esforços em permitir uma interação filme/espectador, mesmo se utilizando de efeitos baratos (mas que funcionavam) e propraganda extremamente agressiva, Roger Corman, além de ter apradinhado profissionais do calibre de Coppola, James Cameron, Nicholas Roeg (foi o seu diretor de fotografia em vários filmes), Jack Nicholson, Monte Hellman, etc., foi um dos maiores diretores do seu tempo, dono de uma estética impecável, de um domínio da atmosfera de terror que nenhum outro jamais sonhou em ter, mesmo com orçamentos apertadíssimos.

Uma prova irrefutável do seu talento é “The Masque of Red Death”. Parte da série de nove filmes em que ele, junto com o grande Vincent Price, fizeram a partir de contos de Edgar Allan Poe, o filme é um dos usos mais fodas de direção de arte que já vi aliada ao uso fotografia soturna de Nicholas Roeg, como pode ser comprovado nas longas passagens pelas salas, onde cada uma está pintada de uma cor; ou ainda quando a ameaça escarlate aparece nas cenas. E Corman rege tudo isso com um controle de cena inspiradíssimo, tendo o seu auge nos 15 minutos finais, onde a Morte convida os presentes para uma dança final, resultando numa cena que Bergman aplaudiria de pé.

Claro que tudo isso não adiantaria se o maior astro não desse uma atuação à altura. Mas isso não é um problema quando se tem a lenda, Vincent Price, em ação. Poucas vezes o seu ar aristocrático, seu cinismo elegante, seu charme maquiavélico, capaz de, ao mesmo tempo, assustar e encantar, esteve tão presente e atuante como nesse filme.

Com tudo isso, temos um filme a altura dos contos de Edgar Allan Poe. Mas do que isso, temos mais uma prova de que efeitos especiais, sangue e vísceras aos borbotões nunca superarão uma ambientação perfeita, uma direção de arte e fotografia soturna, um monstro da atuação e um gênio do seu ofício coordenando tudo isso. E isso, meu caro, definitivamente, não é para qualquer um.

4/4

Adney Silva

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