
por Amílcar Figueiredo
No último filme do diretor Ron Howard, Frost/Nixon (adaptado da peça de teatro homônima, escrita pelo dramaturgo inglês Peter Morgan, o mesmo de A Rainha e O Último Rei da Escócia), indicado para 5 Oscars, Michael Sheen interpreta o apresentador de talk shows britânico David Frost, que de uma hora pra outra obtém algo que poderia ser tido por um bilhete premiado: uma entrevista exclusiva com o ex-presidente norte-americano Richard Nixon (Frank Langella, que surpreende ao apresentar um trabalho calibrado e eficiente), que havia renunciado ao cargo em razão do Escândalo Watergate. Inicialmente, o filme se estrutura nas dificuldades de Frost para executar seus planos conforme o esperado e, posteriormente, nos duelos verbais havidos entre entrevistador e entrevistado.
Mais uma vez, Ron Howard tem um material razoável em suas mãos e, ainda assim, é incapaz de realizar um filme algo mais que medíocre. Pretensamente inteligentes e profundos, a verdade é que os embates entre Frost e Nixon têm muito menos relevância histórica do que seu escritor e seu diretor gostariam, razão pela qual Howard incide no mesmo pecado capital que aflige sua filmografia inteira: simplifica e manipula a estória para torná-la de digestão mais fácil, zombando das capacidades de percepção e de construção lógica do espectador. O formato de documentário, por seu turno, se revela quase como um verdadeiro estelionato cinematográfico, já que o argumento do filme é totalmente romanceado.
Frost/Nixon seria muito pior não fosse o esforço de seus atores principais, já favorecidos pelo fato de terem atuado na peça original. Tanto Langella quanto Sheen relutam em aceitar a bidimensionalidade de seus papéis, adicionando algum tempero a um prato que, de outro modo, poderia beirar o insuportável. Ainda assim, o resultado nunca chega a ser verdadeiramente satisfatório. Antes o diretor gastasse algum tempo no delicado equilíbrio entre a mídia e os fatores de poder ou na maneira pela qual a primeira parasita o segundo. Isso, infelizmente, nunca acontece. Afinal de contas, se trata de um filme “do mesmo diretor de Apolo 13 e de Uma Mente Brilhante”.
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5 Responses to Frost/Nixon (Ron Howard, 2008)