
O fato de eu tanto não ser fã como ter uma certa aversão por esta cultura de HQs provoca uma simpatia imediata pelos Batmans do Burton, e por conseqüência, uma abominação pelo Begins do Nolan (que é um cara muito talentoso, apesar disso) e todo o resto dessas adaptações de ultimamente. Porque a farra e o tom de fim de semana com que o diretor parecer realizar os dois filmes reproduz o universo do Batman como deve ser: caricato, fantástico, como a HQ vista e filtrada na imaginação. E o modo de encará-lo define como serão as quatro horas desta experiência.
Apesar de aquele estilão gótico já conhecido de Tim Burton estar bem mais saliente no Returns – resenhado pelo Daniel Costa – (muito pela segurança já fortalecida após o sucesso deste primeiro filme e pelo seu exercício bem-sucedido de estilo em Edward Scissorhands), o primeiro passeio por Gotham City já revela becos sombrios, prédios que parecem ter derretido ao sol, chaminés monstruosas, indústrias, uma atmosfera cheirando a borracha e óleo queimado. Não é necessário consumir tempo para situar o espectador no caos e no pesadelo que é a cidade de Gotham, basta recriar uma atmosfera que fale por si.
A escolha de Michael Keaton para o papel do Batman é a representação exata da visão de Tim Burton sobre o material de sua adaptação. Ou pelo menos da sua intenção ao transportá-lo para a tela. Poucas pessoas no mundo têm menos cara de Batman que o ator (praticamente um comediante), e a expressão de deboche de como ele parece levar Bruce Wayne é fantástica. Na verdade, Bruce/Batman é inútil no filme, é um pateta com parafernálias bacanudas e um mordomo faz-tudo. Aliás, o próprio admite. “Sem ele eu não encontraria minhas meias”. A iniciativa de representar Bruce Wayne como um pateta desajeitado e, principalmente, contrapô-lo à figura extremamente carismática do Coringa, deixando o espectador um pouco órfão de um herói contra um vilão tão sedutor, é algo pelo que Burton precisa ser referenciado até a morte.
No entanto, o que faz de Batman um apenas bom filme é uma (talvez inevitável) insegurança. Batman era o maior projeto com que Burton já havia trabalhado, a adaptação de uma lenda das HQs que já traz inerente a pressão de uma massa de fãs, um blockbuster gigante. É claro que ele nunca atacaria o personagem explicitamente (até por que, a abordagem sutil na inversão das expectativas quanto ao herói é o que há de mais elegante na visão do cara), mas a exploração deste lado no filme teria sido maior, assim como o livre fluxo daquele humor tão característico do diretor que encontra no Coringa um canal perfeito por onde se expressar, e que permaneceu apenas na superfície de duas ou três piadas realmente fodas (ele gritando “estou derretendo!” é sensacional). Além disso, o longo processo de recortes e remendos pelo qual o roteiro passou só não arruinou o projeto porque Tim Burton é o cara.
De qualquer forma, Batman é válido pelo tom escrachado, por ter irritado um bando de fãzóides que não sabe a diferença entre uma adaptação fanática e uma releitura, e por ser da única interpretação no meio dessas diversas adaptações de HQs que não se leva a sério, porque amputar os super-heróis da sua fantasia e fincá-los num mundo real é a antítese de tudo que o conceito representa.
1/4
Luis Henrique Boaventura
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