Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)

Todo domingo é domingo de praticar um pouco de ultraviolência e do bom e velho in-out-in-out, por que não… A belíssima ode à violência de Stanley Kubrick não apenas se conserva intocada como protagoniza um verdadeiro fenômeno nestes últimos tempos. A recente descoberta do filme pela nova geração é um abrir de portas tanto para o restante da filmografia de Kubrick como para o próprio cinema, e o nosso pútrido ancião Cassius Abreu não esconde fazer parte deste grupo cada vez maior que embarca na sétima arte através do incomparável Laranja Mecânica:

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)

Éramos eu, ou seja, o vosso fiel comentarista, e sua alienação ignorante, ou seja, um bloqueio à construção de uma opinião perante as farsas humanas e mundanas. Era novembro de 2005 e eu me encontrava com Laranja Mecânica nas mãos, pela simples e risível razão de entender o porquê de a seleção holandesa, recém-classificada para a Copa do Mundo de Futebol, ser chamada de “a nova Laranja Mecânica”. O que viria a seguir: duas horas da mais eletrizante, perfeita e completa obra-prima da história cinematográfica; transformando outrora visões hipócritas de uma sociedade aberrante nos erros em uma transcendência de cenas inesquecíveis e pensamentos duradouros por toda a sua vida. Provavelmente, Deus – em seu recanto no céu – procurava alguma forma de mostrar à humanidade seus pecados mortais e os julgamentos inescrupulosos que ela faz. Assim, ele apontou para a Terra e deu um dom divino a Stanley Kubrick. Passados alguns anos da carreira de Kubrick, Ele fez com que o diretor encontrasse o livro de Anthony Burgess, capaz de lhe gerar uma vontade incrível em adaptá-lo para as telas Para tanto, precisaria de uma atuação perfeita e, para isso, o Criador colocou em Malcolm McDowell uma aura tão sublime e que se fez presente em todo o processo de filmagens. Tudo nos trinques, faltava um detalhe: para “ajudar” a roteirização de Kubrick, eis que a edição do livro, figurada nos Estados Unidos do começo da década de 70, tinha o seu final cortado. A partir disso, ficou tudo nas mãos de Stanley e seu time, nada menos que a perfeição.

O livro de Burgess caracteriza o termo “Laranja Mecânica” como vindo de uma expressão inglesa: as queer as a clockwork orange (tão esquisito quanto uma laranja mecânica). Partindo do título e suas dissecações, a genialide inspiradora kubrickiana começa com quebra de todas os paradigmas convencionais, quando propões ao espectador perguntar de o filme ter tal título. Seria apenas uma referência às esquisitices deixadas por seu roteiro magnífico? Cabe a cada um analisar e deixarei minha avaliação mais para diante. Eis que os pilares motivacionais aqui erguidos duelam sobre a sociedade e seus malefícios: Alex DeLarge é um jovem, que se diverte às custas da perda dos outros, isto quer dizer estrupar, chutar, rir ironicamente, até capaz de matar. Para deixar o espectador adentrado no seu mundo, Kubrick não se priva de seqüências antológicas para a Sétima Arte e mostrando que não está ali para provocar uma descontração em que for alugar o filme. Para tanto, o que ocorre é uma junção perfeita de o mundo contemporâneo humano com o, aparentemente, ficcional da obra em xeque. Como se fosse colocado diante de nós o que está à volta, circundando-nos. E somos incapazes, pelas conspirações alienadoras em que estamos afundados, de perceber. Rousseau já dizia que nossa mente é uma tábula rasa e todas as nossas impressões são frutos das convivências terrenas. Sabiamente, as elites – captando a essência do recado de Rousseau – fizeram e fazem a questão de deixarem pobres cidadãos com sua mente ainda rasa. Kubrick foi além de Rousseau e previu a catástrofe que viveríamos e vivemos, permeada de enfadonhos “líderes” apontando o dedo para outros, enquanto a grande massa vive deixada de lado.

O que ocorre se há tantas desigualdades e ausência de um bem-estar íntimo, estratificadas em bens de consumo? Há aqueles descontraídos que arranjam um novo jeito; e deste grupo faz Alex, um “produto subversivo” de erros daqueles que se vêem lá em cima por longos e longos tempos. O filme seria apenas um tiroteio, sem graça, porém se não tivesse a força dos dotes e dons visionários de seu autor, dignos de estarem como clichê básico em cada comentário. A partir da narração em primeira pessoa, nada é previsível; mas nada é irreal, vindo de um delírio. Kubrick convida o espectador a um passeio com Alex DeLarge e seu modo de vida; neste passeio, encontrando em cada partícula da sociedade, uma fonte de crítica (e por que não ridicularização?). Entra aqui a função primordial de Malcolm McDowell, na atuação mais polêmica, cínica, bizarra e digna de destrinchar cada frame, cada aspecto de sua personagem e a estrutura externa que a compõe. MacDowell permite que nós entremos com ele, e assim, ficamos em uma situação esquisita – para quem estiver passando pela sala, enquanto você vê o filme – rindo do ataque a “piroscadas” ou de um velho irlandês sendo chutado. Entra aqui um cerne muito particular e digno de levantar pessoas “tradicionais” ao absurdo: o exagero, a caricatura da violência. Provavelmente, quem deixar de assistir à obra até seu final ficará com uma visão errada de que o filme incita a violência: na realidade, Kubrick quis deixá-la de uma maneira mais realista e convidativa possível para o seu final. Neste ponto, o narrador em off de primeira pessoa, dá um banho, porque seu estilo provocativo leva-nos à torcida e à indagação dos valores sociais; culminando no ápice da tristeza, com o retorno de Alex para a casa – e a reclusa de seus pais a ele. Além de conter uma narrativa encaixável apenas à sua obra (hipnotizadora e claríssima para o entendimento da obra), a leitura do filme é complementada com a língua nadsat – um misto de russo, inglês e gírias inventadas por Burgess – que apesar de ser exagerada e dificultar o andamento do livro, ressoa singular e linda no filme.

Passado o deleite de termos Alex em sua fase gloriosa, ele é preso e, por determinação, arrojo e coragem, acaba por participar de um ousado tratamento financiado pelo governo: o tratamento Ludovico. Nele, o paciente é condicionado a uma série de exibições de pequenos filmes com cenas de violência e sexo. O intuito: tirar o sadismo e a sede por aqueles pecados do criminoso, por meio de uma reação anulatória. Depois disso, é que começa o show de porquês e comos, capaz de propiciar uma sensação ecstasiante, jamais vista numa sessão de cinema. Alex (e, subentenda-se, os jovens marginais como ele) é apontado como o culpado, o errado, o vilão por todas as perfídias existentes em um país de tendências políticas. Mas até onde vai o erro de Alex? Ou melhor, onde começa o erro dele? Quando acaba o dos elitistas poderosos e soberanos – se é que eles acabam? Por que os dedos virados para um cidadão que pegou aquela poeira toda em que vivia e fez dela apenas o que achava possível? Voltando ao tratamento, quem disse que ele curava? A partir do momento em que deixamos de poder reagir, podemos ser considerados “bons” ou apenas figurinhas marcadas? Cabe a cada um julgar ardentemente as propostas que o filme apresenta-nos e agir perante o que se foi evidenciado. Aplicar no presente, o que o passado já dizia sobre o futuro. Procurar a “cura” – que tal, encontrá-la numa tragédia? Aqui a direção de Kubrick é tão fundamental, por não tomar partido ou tornar influente seu ponto de vista, que qualquer áurea, qualquer prêmio que lhe fosse dado seria incapaz de coroar a divindade que se assinalou durante este seu trabalho – e, de um modo geral, sobre sua carreira.

O que eu mais valorizo em Laranja Mecânica, contudo, não são suas discussões primordiais; mas sim, detalhes que cortam e cutucam levemente cada pedaço da insignificância de perfis humanos traçados como normais e integrados a um jeito de vida comum, que – quando afrontados diante do “perigo” DeLarge – mostram-se almofadinhas. A começar pelos próprios pais de Alex: como teriam eles relevância para o garoto, se não se importam com ele; não o educam da maneira que podem e, ao invés de tentar ajudar o filho no seu momento de sofrimento, preferem esquecê-lo e voltar às vidinhas toscas, com trocas de perucas e cafés da manhã… Procuram-no apenas quando a ferida interior fala mais alto que seus desejos mesquinhos de ter um quarto alugado para um novo filho. Ora, não diz a Bíblia que devemos celebrar a volta do filho pródigo? “É uma forma de mostrar o meu agradecimento ao Senhor”, deve ter pensado Stanley ao desenvolver a cena com os espíritos celestes circundando-o. E, se você pensa que Alex era um incompetente também e que nada podia reclamar, aguarde a cena mais triste da obra, no retorno à casa e o rejeito de seus pais perante um desconsolo de alguém que sofreu, sofreu, sofreu para… sofrer. Novamente, vale ressaltar a importância do diretor em colocar numa única cena todo o resumo doloroso de sua obra, sem ultrajes ou imposturas.

A única coisa substancial para avaliar Alex feita por seus pais é contratar um assistente terapêutico – Deltoid –, por falta de um termo melhor, interpretado magistralmente por Aubrey Morris: uma figura ridícula, egocêntrica e nojenta (“Faça por mim, menino Alex”) que, ao olhar para seu paciente, nosso herói, enxerga-o como um “carimbo preto” (a mais ou a menos) e tem seus atos construídos na base do bel-prazer e da satisfação pessoal. Seu risinho provido de muito ódio e seu cuspe na cara de Alex comprovam a força de Morris e a reinterpretação de pessoas como Deltoid. Na delegacia, por sinal, encontramos a figura de uma polícia autoritária por debaixo dos panos, que age mais sanguinariamente que os encarcerados. O aparato da prisão também não funciona, porque nele os criminosos aprendem novas técnicas e práticas malévolas. Outro destaque fica para Michael Bates, o guarda com palavras e ações conduzidas – pelo imaginário – a um oficial fascista, inclusive a maquiagem dele é semelhante ao estilo germânico nazista. É nesta prisão que aparecerá o Ministro do Interior (Anthony Sharp, falarei mais adiante), com uma nova tática para com a erradicação de falhas no sistema social em que se baseia sua política: a inserção do Tratamento Ludovico. Aqui, é obrigatório abrir um parêntese a fim de lembrar o jeito rendável com que Kubrick trabalha a política.

Laranja Mecânica foi além dos paradigmas espaço-temporais e também na sua cultura politico-econômica. Vigorava, naqueles tempos, a já comentada Guerra Fria. Assim sendo, seria totalmente errada uma atitude de inserir aquela sociedade num regime específico e explicito. Kubrick mostra que o erros está em tudo e todos, desde aos próprios ideais da Guera Fria (voltada para a corrida armamentista e espacial: “Men In The Moon”, diz o irlandês espancado, enquanto “Aqui, na Terra, os jovens batem nos velhos sem qualquer dó”) quanto às formas de regime: o autoritarismo – ao qual fica claro pela atuação da polícia nos bastidores e ao rumo final do Partido do Ministro do Interior – referente aos soviéticos e o capitalismo – refletido pela concorrência, jornais livres e desigualdades sociais. Mas há elípticos fatores que elevam, ainda mais, o conceito sobre a obra: quando, no seu final, a estrutura política é determinada por uma via absolutista (dita pelo Mr. Alexander, o escritor) capitalista (inovações tecnológicas, como o próprio Tratamento Ludovico e a, cada vez maior, diferenciação de camadas – o grupo de velhinhos tem um número considerável agora), que de certa forma foi uma aposta certa – implantado, inclusive em nosso Brasil. Se parecemos livres de um regime fechado, basta (re)assistir Laranja Mecânica e olhar para o próprio umbigo que veremos: não faz tanto tempo assim, nem estamos tão distantes…

Antes de comentar sobre a parte mais caudalosa e deliciosa destes detalhes triunfais, que são os referentes às contradições, ações e reações da “cura” promovida pelo Dr. Brodsky e sua turma; pequeninas curiosidades e aspectos relevantes que fazem de Laranja Mecânica a obra completa, como mencionei lá no começo, mais completa da história humana. Quando passeia pela loja de discos, Alex encontra um disco de vinil de 2001 – apenas uma coincidência? Talvez; mas acredito que Kubrick tivesse colocado uma amostra da influência que suas obras exerceram e exercem, tanto entre si, como para o futuro/presente. A direção de arte também é perfeita por tornar aliados os elementos futurísticos (tem certeza de que não viu? Perceba os objetos e o enquadramento novamente), nada exagerados, com locais rudimentares e decadentes de Londres, novamente sem exagerar com locais óbvios que poderiam desprover o filme do fator identificação. A maquiagem tem seu valor subestimado demais: minha prima, que deu uma olhada no prólogo do filme, não acreditou quando eu disse que aquele rapaz sorridente era o mesmo que começara de forma sinistra tomando leite-com. Por fim, há aqueles detalhes providenciais que mexem com qualquer obra: ao saber que McDowell temia cobras, Kubrick fez questão de colocá-la como amiga; McDowell entregou-se tanto e Kubrick estimulou-o tanto que o ator arranhou a córnea (ficando temporariamente cego), quebrou as costelas e quase morre afogado, por causa de um problema no aparelho de respiração sub-aquático. Um aprova da dedicação inenarrável e entregue a Deus. E chegamos ao encontro dos dois maiores gênios em suas respectivas áreas: Ludwig Van Beethoven e Stanley Kubrick. Apenas esta junção, inimaginável, vale rever, e rever, e rever, e rever, e rever Laranja Mecânica. Comente-se que foi uma idéia própria do diretor, uma vez que no livro Alex era fã de músicas clássicas em geral, porém, apenas um Beethoven tem um valor equivalente a um Kubrick, certo?

Chegamos ao ponto sumo do filme. Chegamos a um ponto em que qualquer opinião será subjetiva. Apesar disso, não poderia deixar passar esta chance para colocar as inter-ligações que mexem e radicalizam a forma de se encerrar uma obra-prima. Voltando três parágrafos, parara no Ministro do Interior – Frederick – e Anthony Sharp, que nos brinda com a atuação mais “verdadeira” de toda a obra. Seu Ministro é uma pessoa boazinha de aparência, mas manipuladora na essência, rege todos como bonecos e marionetes (inclusive, a seqüência clássica da exibição de um “novo Alex” introduzida pelo próprio Fred conta com uma teatralização, ideal para os seus valores, na direção e edição). Costurando com o Dr. Brodsky, o médico criador da experiência, uma chance de deixar ainda mais escondidas as falhas de sua sociedade, de seu governo – que se diz revolucionário, e que volta a encobertar da população a realidade (só que, desta vez, evidenciando algo). E este algo é o tramamento mais contraditório, que deixará ainda mais abertas as veias entupidas e paradas, imóveis daquele país – ou melhor, do nosso Planeta. Começando pela própria teoria – no papel – do Tratamento Ludovico: seus defensores diziam que o Estado fazia errado em prender, tratando a violência com a violência. Estavam certos até aí. Ocorre que eles próprios rendem-se à violência psicológica; ainda mais severa que a violência dos druguis nas ruas. Naquele mesmo show, o que tem atitudes maniqueístas para com Alex é aplaudido, numa inversão alucinógena de aspectos. O erro fica mais claro, porém, quando Alex sai da cadeia e recebe a violência, sofrendo ainda mais: os órgãos estatais são burocráticos e empregam os ex-comparsas de Alex, em troca de uma suposta garantia em desestimular as atrocidades. Mas, como bem sabemos no Brasil, a polícia consegue superar os bandidos no quesito “falta de carinho”. Não apenas por bater, como já batia desde o começo da obra, mas também ser incompetente na escolha de seus funcionários e no pagamento. O que era infeliz vira trágico.

A outra polêmica envolvida em Laranja Mecânica é o sexo, a nudez, novamente relida de maneira chocante por Kubrick. Reaparecem os que dizem que o filme incita a tal prática; e com eles, as novas questões crucias de Kubrick. A sociedade culpava Alex por maltratar as mulheres e jovens, além de adorar o velho in-out-in-out. Só que faltava voltar-se para si, e a situação de como ele – sexo – estava enraizado fica exibida pela teórica “vítima sofrida”, a mulher dos gatos, que conta com objetos e quadros obscenos e indulgentes por toda a sua casa. O próprio guarda da prisão, de estilo fascista, era contrariado às exibições do tratamento Ludovico até a aparição de uma mulher nua – recaindo-se em aplausos loucos e incessantes. O desfecho triunfal na análise de Laranja Mecânica vem com o autor de livros, Patrick Magee como o Mr. Alexander, na mais estonteante interpretação do cinema (inenarrável a loucura física a que ele se mostra quando ouve Alex cantando Singin’ in the Rain – outra idéia kubrickiana). A personagem é tão rica que constrói em torno de si outra perspectiva completa: primeiro, ele é a vítima, depois torna-se amigável e mostra afeição a Alex (por não reconhecê-lo) e pretende corroborar sua tese de farsa e escândalo por trás dos sorrisinhos amarelos de Frederick e sua turma. Até ele se ver diametralmente oposto, ou seja, o grande e odiado vilão da história. Uma construção paralelamente inversa à de Alex, que começa como um enérgico safado para se redimir e virar mártir daquilo tudo. Alexander tenta apenas se vingar, esquece suas manifestações, para procurar na morte alheia o reconforto de uma vida transtornada por ruas errôneas. Manifestando os louváveis valores divino e dando a Deus um prazer maior, o único contestador – além do Alex – foi o padre da Igreja. É verdade que a Igreja tem seus erros e Kubrick também prova isto, não se isola ou teme em pecar. Porém, deixa como questionador o padre – e qual seria a forma de corrigir nossos erros (?), ele pergunta. Que cada um procure a sua melhor maneira.

Concluindo, temos a Laranja Mecânica. Esta obra-máxima não é para qualquer um; apesar de ser sobre todos. Pode-se, agora, tentar interpretar o título: seria a forma como o tratamento Ludovico e os critérios morais eram aplicados, tornando os homens (laranjas) em robôs (mecânicas)? Ou isto se aplica a todos nós que assistimos ao filme? Além: no livro de Burgess, toma-se conhecimento que o livro escrito por Alexander era Laranja Mecânica. Ora, Alexander criticava o tratamento, havendo assim uma reação profunda entre tudo o que rege Laranja Mecânica. Kubrick promoveu um espetáculo de cores, música e muita repugnância, muito desconforto; aproximando, entretanto, isto ao vazio do espectador e preenchendo o seu espaço vazio, atingindo-o, provocando-o e desafiando-o. Além disso, deixou de maneira mais aberta e calorosa seu filme ao cortar o final do livro, um trunfo originário, unicamente, de um milagre ou de um gênio. Melhor: foi a junção das duas coisas. Uma vez topado mergulhar no filme, prepare-se para ficar submerso por dias, semanas e flutuando por todo o resto de sua vida. Uma prova concreta dos encontros e desencontros do filme foi a relação de Kubrick com a Inglaterra: nela, o diretor encontrou refúgio e paz; porém foi aquele mesmo país a ser colocado como ponto de partida para os desafios de Laranja Mecânica. As reações, com muito chilique, da crítica inglesa fizeram com que o diretor e roteirista retirasse o filme do país até a sua morte. Foi repudiado, mas hoje atingiu o auge; e deve estar sorrindo com Beethoven e Deus. Quando o filme terminou, de meus olhos caíam lágrimas pela beleza estética e emocional da obra; nos ouvidos, ecos da melhor trilha sonora adaptada em todo o caminho cinematográfico traçado até o presente dia; no estômago, uma sensação de dor e vazio; e uma mente que deixava de ser rasa para, finalmente, construir algo. Eu estava realmente curado.

4/4

Cassius Abreu

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