No Rastro da Bala (Wayne Kramer, 2006)

Lembra daqueles lindos contos que você lia quando criança, embutidos em belíssimos livros de capas coloridas e repleto de fotos agradáveis? De um mundo encantado composto por bruxas malvadas, bichos papões, animaizinhos maléficos, duendes com faces horripilantes que nunca conseguiam vencer os cavaleiros com armaduras cintilantes ou as crianças arrependidas por não terem obedecido a seus pais? Hoje você acha essas intenções de caráter moral utópicas? Ou mais ainda, que essas historinhas “inocentes” muitas vezes moldam um mundo totalmente distinto da realidade que o cerca, xenófoba, e na qual não existem heróis, o mal por muitas vezes triunfa, o senso de justiça é obstruído e questionável e o machismo extremo predomina como ponto de vista ideal na sociedade? Ou por vezes começa a perceber que, vez ou outra, elas na realidade até se aproveitavam para estimular o consumo de doces e outras guloseimas através de seduções visuais (ou você acha que apesar de defenderem uma postura oposta e moralista não temos vontade de devorar um delicioso chocolate após lermos algumas delas?).

Agora imagine que você tenha um aparato cinematográfico e o poder de sua criatividade para desconstruir esse mundo, usando desde a elaboração dos personagens até as montagens e iluminação do cenário para ilustrar isso. Uma de suas opções é exagerar algumas características dessas estorinhas mantendo o moralismo para justamente mostrar o quanto são utópicas e absurdas (nesse caso, no filme as várias situações absurdas de risco de morte e o final do personagem de Paul Walker são ridículos justamente por isso, de acordo com esse ponto de vista) e uma outra é você utilizar meios mais explícitos para criticar a sociedade predatória cujos mecanismos de controle e sustentação são mais sofisticados e praticamente irreversíveis (por exemplo, substituindo os personagens das estórias infantis por outros mais representativos da sociedade e colocando-os em situações onde a moral é um pouco mais complexa e tortuosa que a normalmente discutida).

No meu ponto de vista, esses são alguns elementos explorados em No Rastro da Bala (Running Scared), cuja atmosfera mórbida e pesada transmuta o universo de fantasia infantil em algo pertencente a um universo do ideal masculino adulto e machista. É esse o universo na qual a atmosfera crítica reside, contemplando seus mais variados absurdos, que bradam construindo seus pilares nas reflexões de situações tão irreais que fazem o espectador pensar forçosamente em suas intenções.

De início analisemos os personagens… há vários pontos interessantes a se observar.. vemos que a mulher é sexualizada, objetizada ou adota postura masculinizada agressiva a fim de sobreviver a situações de risco (a esposa de Gazelle) ou frágil e submissa (a mãe de Oleg) ou instrumento principal de “destruição” através de seu caráter mais sereno e sentimental. Note, por exemplo, a postura de Adelle perante as crianças, até mesmo seus cabelos amarrados e suas roupas inocentes..embora o casal seja pedófilo, é sempre ela quem está presente nas abordagens e controle porque a figura feminina inspira um caráter que a masculina não possui. Quando vemos uma mulher próxima a uma criança certamente não pensamos os horrores que passam por nossas cabeças quando vemos um homem desconhecido na mesma situação.

Os outros personagens são indivíduos pertencentes a nosso meio social, assustadoramente cada vez mais comuns – são gângsteres, assassinos, sequestradores, xenófobos, policiais corruptos, pedófilos, prostitutas, gigolôs, pais que batem em suas crianças e esposas, mães que vivem sob a égide do medo, filhos revoltados e assustados. ESSE é o mundo em que vivemos. Se não for o seu, certamente você conhece algum desses indivíduos simbolizados aí, ou alguém bem próximo que conhece.

No mundo de Kramer prostitutas se tornam protetoras (fadas, como expressas nos créditos finais), pedófilos se tornam sombras sobrenaturais na parede (ou algo parecido com ogres, que só na escuridão das sombras revelam seu verdadeiro caráter), gigantes malvados que aprisionam nossos heróis em gaiolas se tornam gângsteres e policiais corruptos..e por fim, nossos heróis tem características assustadoras (Oleg porta uma arma potente e a manipula, Gazelle parece não se importar com isso pois tem interesses egoístas mais importantes e talvez esteja anestesiado com o mundo que tem contato; Gazelle mata, sangra, abate, tortura e tem uma postura machista e xenófoba; seu filho mente, tem contato com um universo criminoso e muitas vezes nem é notado pelo pai em ambientes perigosos; mesmo a “inocente” Teresa mata duas pessoas). Estudar os personagens é tarefa muito interessante e que exige reflexão, material que podemos discutir bastante por aqui.

Uma estória tão simples esconde também muitos outros elementos interessantes. A montagem e a fotografia de Kramer são simplesmente extraordinárias. Por vezes até revelam um interessante paradoxo entre uma estrutura que parece um livro de estórias aberto (daqueles que as figuras são montadas na vertical quando abrimos a página, dando maior realismo ao livro) mas ao mesmo tempo refletem um universo distorcido e frenético despertado por algum tipo de entorpecente ou situação de tensão extrema do personagem a qual corresponde a visão que quer retratar. A ambientação é um outro ponto alto. As locações são filmadas de forma escura, às vezes com predomínio de algumas cores sobre as outras (mas normalmente escuras e tristes, o azul escuro, o vermelho, o amarelo, etc), sempre de forma a parecer sombrias, inquietantes, de forma a nos causar arrepios involuntários e nos sugar para a atmosfera do filme. Destaque para a cena em que Oleg e Joey conversam no carro. A iluminação dos diversos elementos das ruas provocam uma alternância entre o escuro e o claro no rosto de Oleg, captado de forma eficiente pelo diretor, de modo que seu caráter ambíguo (embora obviamente seja predominantemente positivo) se torna evidente simplesmente por sua expressão facial.

As atuações são muito boas, especialmente o papel difícil de Oleg (Cameron Bright), que reflete em sua face sentimentos de insegurança, revolta, coragem, horror, medo, tristeza e muitas outras de forma excepcional, com o odiado por muitos Paul Walker desempenhando o papel de forma muito correta e interessante (Walker lembra bastante um indivíduo marginalizado com seu modo de agir e falar) e os excelentes Palminteri e Johnny Messer. Nas mulheres, destaque para a excelente interpretação da pedófila Edelle por Elizabeth Mitchell.

Preste atenção: Uma das poucas referências explícitas da estória: Na cena em que Oleg está no banheiro da casa de Dex e Edelle, sombras sinistras de caráter e forma sobrenaturais podem ser visualizadas na parede durante toda a conversa no telefone com a Mrs. Gazelle, como se estivessem à espreita.

Porque não perder: Um filme muito interessante na qual não importa muito se você quer ver algo extremamente complexo ou simplesmente divertido, cheio de ação ou repleto de metáforas e simbologias, cheio de críticas sociais ou curtir uma pipoca enquanto assiste. É possível compreender o filme em várias instâncias e chegamos a conclusão de que todos esses gostos são atendidos de forma muito satisfatória e inteligente. Assista sem medo, você não vai se arrepender.

4/4

Sílvio Tavares

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