Autor: Chico Torres

  • CULTUAR A DEUS COM RITOS DO DIABO

    CULTUAR A DEUS COM RITOS DO DIABO

    POR CHICO TORRES Eu junto meus cangaceiros E grito à rapaziada Defunto é minha lavoura Este rifle é minha enxada A chuva é a munição Eu sou filho do sertão Não perco uma só botada (Antônio Silvino, cangaceiro pernambucano) Explorado desde a década de 1920, o filme de cangaço tem…

  • MOSTRAR O CORPO PRA FALAR DO ESPÍRITO

    MOSTRAR O CORPO PRA FALAR DO ESPÍRITO

    Por Chico Torres  Disse Paulo Emílio que o pior filme brasileiro ainda nos é melhor do que o mais genial dos filmes estrangeiros. Disse Walter Benjamin que era preciso construir uma arte bárbara, uma barbárie positiva no seio da modernidade, uma arte capaz de começar do zero, de fundar a…

  • SILÊNCIO – É PRECISO QUE OS MORTOS FALEM

    SILÊNCIO – É PRECISO QUE OS MORTOS FALEM

    Por Chico Torres  Aqueles que foram silenciados precisam falar. Aqueles soterrados pelos vencedores de um tempo linear e uniforme, precisam, ainda que mortos, falar. A morte, aqui, em sentido literal e simbólico, com o poder de representar tudo aquilo que produz o emudecimento, que demarca o lugar do vencedor e…

  • A Liberdade das Imagens Mortas

    A Liberdade das Imagens Mortas

    Por Chico Torres  O invento da fotografia e do cinema desenvolveu na arte aquilo que há de mais fantasmagórico em seu universo, um desejo presente desde as primeiras manifestações humanas através do rito: a conservação da vida pela representação. Toda a arte, se quisermos pensá-la sob uma possível perspectiva ontológica,…

  • A Poesia Sonora de Blue

    A Poesia Sonora de Blue

    Por Chico Torres Blue (1993), de Derek Jarman, é uma obra composta de fragmentos sonoros-textuais que se conflitam e se complementam, em uma interpenetrabilidade constante. A força dessa contradição produz a unidade estilística do filme e o preenche de humanidade. Todos os riscos de Blue, suas mudanças bruscas, seus saltos…

  • A doutrina dos afetos

    A doutrina dos afetos

    Por Chico Torres  O artista está sempre em conflito com a sociedade e, portanto, em conflito consigo mesmo. Um conflito que, no âmbito pessoal, não se resume a “sonho versus realidade”, mas diz respeito a algo mais substancial em relação à constituição do próprio sujeito. Em certo sentido, o artista…

  • Mostra de Tiradentes: Ostinato (Paula Gaitán, 2021)

    Mostra de Tiradentes: Ostinato (Paula Gaitán, 2021)

    Por Chico Torres Em Ostinato, Paula Gaitán persegue o compositor Arrigo Barnabé. Não uma perseguição no sentido de almejar uma investigação total, como acontece em alguns documentários que se debruçam, com uma nostalgia sedutora e vendável, sobre a biografia de artistas, surgindo como heróis da tropicália, da bossa, do samba…

  • O fim das utopias em “Matou a Família e Foi ao Cinema”

    O fim das utopias em “Matou a Família e Foi ao Cinema”

    Por Chico Torres     Retocai o céu de anil Bandeirolas no cordão Grande festa em toda a nação Despertai com orações O avanço industrial Vem trazer nossa redenção (Tom Zé, Parque Industrial) Perguntaram a Dom Élder sobre a situação brasileira. Resposta: eu sei, tu sabes, eles sabem, nós sabemos,…

  • Contra o silêncio do amor, a poesia e a revolta: Um olhar sobre Tongues Untied de Marlon Riggs

    Contra o silêncio do amor, a poesia e a revolta: Um olhar sobre Tongues Untied de Marlon Riggs

      Por Chico Torres Quero agradecer a contribuição de Janderson Felipe e Lucas Litrento. Ambos me abriram os olhos para o cinema e para a literatura negras. Dedico este texto a eles.   “Sou uma máquina de escrever excitada. Egoísta, sábia, um soneto, um beatbox (…) Molhe-me com a língua…

  • Um outro destino para o tempo em O sacrifício, de Tarkovski

    Um outro destino para o tempo em O sacrifício, de Tarkovski

    Por Chico Torres “Através da imagem mantém-se uma consciência do infinito: o eterno dentro do finito, o espiritual no interior da matéria, a inexaurível forma dada” (Tarkovski, Esculpir o tempo) Questões sobre destruição, ruína e catástrofe são constantes na obra de Tarkovski. Como bem apontou Adalberto Müller, em artigo para…

  • “A Negra de…” e a escravidão silenciosa

    “A Negra de…” e a escravidão silenciosa

    Por Chico Torres Um filme político, para fazer valer o seu esforço, precisa ser, acima de tudo, didático. Afastando-se de qualquer estado contemplativo ou de apelo emocional, deve indicar sistematicamente suas ideias e críticas, não poupando esforços para transmitir com precisão tudo o que almeja. Por outro lado, para progredir…

  • Tetsuo e o Niilismo Revolucionário

    Tetsuo e o Niilismo Revolucionário

    Por Chico Torres Desde a segunda metade do século XIX e, sobretudo, início do século XX, a tecnicização da vida nas grandes cidades passou por um processo de aceleração nunca antes imaginado. Desenvolvimento do capitalismo, crescimento populacional, distribuição de mercadorias em massa, tráfego urbano, meios de transporte e comunicação, tudo…

  • Valerie e sua semana de deslumbramentos: para se perder em uma fábula

    Valerie e sua semana de deslumbramentos: para se perder em uma fábula

    Por Chico Torres   Livre de qualquer responsabilidade, a fantasia pura se entrega a esses jogos cromáticos. (Walter Benjamin em Livros infantis antigos e esquecidos). As Fábulas de La Fontaine representam uma das lembranças mais significativas de minha infância: mais do que “a moral da história” contida nas adaptações feitas pelo autor francês, o…

  • O Corpo Como Sentido

    O Corpo Como Sentido

    Por Chico Torres “Apesar da noite” (Malgré la nuit), de Philippe Grandrieux, pode ser comparado à quadrilha de Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili, / que não amava ninguém.” Se, por um lado, é essa estrutura narrativa simples que…