POR GUILHERME GIROTO
No dia 11 de agosto de 1978, Wilson Pereira dos Santos é fuzilado pela polícia. Os “caras” estavam de tocaia na casa de sua companheira Geni, que também foi baleada durante o tiroteio. Nascido no Paraná, Wilsinho Galiléia foi manchete no jornal pelos seus crimes desde os 14 anos, virando uma espécie de lenda urbana pelas regiões em que atuava. Ele foi morto apenas uma semana após ter completado 18 anos no bairro São João Clímaco, região sudeste de São Paulo.
Pouco tempo após sua morte, João Batista de Andrade dirige e escreve um documentário para televisão em que investiga a figura de Wilsinho Galiléia o caracterizando como personagem urbano. Censurado pela ditadura, o filme disseca a figura do bandido a partir da mescla entre a reencenação de fatos e o relato testemunhal.
O filme começa na ação: a câmera na mão filma uma casa através de zooms. A montagem inscreve jump cuts à cena. No som, escutamos uma gritaria seguida de tiroteio. Essa cena é uma reencenação da morte de Wilsinho. Imediatamente depois, somos levados para os arredores, onde o documentarista investiga o ocorrido. Alguns vizinhos ouviram, outros não quiseram saber o que aconteceu. Outro menciona que ficou em casa como o radialista Gil Gomes tinha mandado em seu programa. “Eu estava vendo televisão quando escutei os tiros.”, diz o homem.
A partir daí, o filme inicia o jogo de alternações entre as entrevistas e as encenações. Depois dos relatos, Paulo Weudes, que interpreta Wilsinho, entra em cena como O Estranho Sem Nome (1973) de Clint Eastwood: um fantasma. A música emoldura seu silêncio. Wilsinho é um vulto na cidade. Mesmo morto, ainda existe na boca do povo – é uma assombração.
Os testemunhos ditam o fluxo das reencenações. Nessa primeira parte, o diretor foca na visão da polícia, que traça todo o histórico criminal do bandido enquanto mostra as reportagens de seus atos. A câmera dá um zoom in na foto de Wilsinho enquanto seus interlocutores narram seus assaltos e homicídios.
Seus olhos estão tapados, pois ele cometeu todos esses crimes enquanto menor de idade. Com um corte, vamos para um close do intérprete de Galiléia. Enquanto ele ri para a câmera, a voz de um homem o descreve: “Mal, frio e perverso”. A dinâmica polícia/jornal dita um pensamento, sobretudo, superficial – uma visão calcada apenas em seus atos criminosos.
O ponto de virada do documentário é quando Bisquí, um dos seus parceiros de crime, depõe, na prisão, sobre Wilson. A partir desse momento, as entrevistas não possuem mais o dinamismo da primeira parte, as falas percorrem um tempo mais extenso, criando uma espécie de mosaico de pontos de vista sobre a vida e obra de Wilsinho Galiléia. Uma das entrevistadas descreve Wilson como um cara tranquilo, diferente do que a mídia o colocou. Chiquinho, outro parceiro do rapaz, diz que seu objetivo com os assaltos era tirar uma de rico, fingir ser ‘filhinho de papai’. As perspectivas vão se multiplicando, o que complexifica o retrato do personagem feito por João Batista de Andrade. A cena seguinte revela outros personagens da reencenação, como Ramiro, irmão mais novo de Wilsinho. Os adolescentes se divertem no carrinho bate-bate ao som de Erasmo Carlos, filmados por câmera trêmula, acompanhando a intensidade do grupo de amigos. A montagem paralela inscreve relances de corpos que ele matou no quadro, tensionando a cena.
O grupo vai para outro brinquedo no parque de diversões e o jogo de paralelismo segue com a manchete: “Wilsinho Galiléia, o jovem infrator que se torna mito.” A música para completamente. Em um plano aberto e mais lento, seguimos Dona Eliete, a mãe de Wilson, que leva flores para seu túmulo. Nessa sequência o filme assume lidar com a contradição, juntando discursos que vão além do policial e midiático. Diante disso, João Batista de Andrade entende que é necessário entrar nas entranhas da história, para contá-la. Diferente do cowboy de Clint, Wilson tem nome e tem passado.
Seguimos Eliete na favela onde ela mora enquanto conta a trajetória de Wilsinho do seu ponto de vista. Ela fala das diversas passagens que seu filho teve nas delegacias, e que mesmo sendo uma criança, sofria diferentes tipos de tortura policial. Ramiro, o caçula, foge da câmera achando ser a polícia. Sem qualquer corte, vemos ele correndo. Os jornais o colocam como “sucessor de Wilsinho Galiléia”, criando uma perseguição ao menino de 13 anos. Sua mãe, então, o chama de volta e garante que ele fale à câmera. Ela faz o mesmo com os outros três filhos que são entrevistados enquanto presos, fazendo eles denunciarem os abusos que sofreram dos policiais. Disso em diante, as encenações começam a ser interrompidas pelos próprios intérpretes. No meio da cena a personagem para, olha para câmera, anuncia seu nome, qual personagem está representando e sua história.
Na sequência final, João Batista de Andrade filma a casa de Wilson, que está totalmente destruída. “Ainda hoje a ROTA estava procurando por ele. Morreu? Eu não vi.”, diz o vizinho. O personagem de Wilsinho aparece andando pelos escombros. Logo depois da cena, um letreiro aparece, dizendo que Ramiro foi assassinado pela polícia depois das filmagens. Os “outros Wilsinho Galiléia” nascem e morrem pelas instituições de poder. O bandido esquematizado pela polícia não é o mesmo bandido que assalta o bar, que não é mesmo bandido de filme de cowboy. O documentário investiga a estrutura social que leva a manchete de jornal, filmando o que não quer ser mostrado. Adentrando ruínas.
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