LAVAR, PASSAR, MATAR

Por Waleska Antunes

Em 1975, Martha Rosler faz Semiotics of the Kitchen, um filme que consiste em um abecedário sobre utensílios de cozinha listados cuidadosamente: a de avental, b de bacia, c de cortador de legumes. Antes fosse apenas um singelo inventário; Rosler pega nas mãos todos esses objetos e os transforma em armas, batendo, jogando, amassando, apertando. Rosler faz uma espécie de abecedário macabro e jogral funesto entre o objeto e o que se intenciona com ele.

Essa maneira de inventariar a violência por meio de objetos não é de toda desconhecida, se considerarmos o cinema de Júlio Bressane, por exemplo. Aqui, obviamente, me refiro aos filmes- irmãos Cuidado Madame (1970) e Memórias de Um Estrangulador de Loiras (1971) que possuem a mesma premissa: para matar, basta usar as mãos.

No entanto, se em Estrangulador de Loiras há uma espécie de filme estruturalista de variações sobre o mesmo tema[1], sendo um moto-contínuo moroso das mortes em uma rigidez beirando à vigilância, Cuidado Madame é o seu gêmeo espevitado, que anda pelas ruas, se movimenta entre os espaços e acima de tudo: Não tem medo de ser pego e muito menos de usar as mãos.

A malemolência dos corpos em cena e as idas e vindas das duas partners in crime junto dos olhares curiosos dos transeuntes e do escrutínio da câmera elástica, mas simpática às duas, faz com que todos sejam cúmplices dos mesmos crimes e que, no fim das contas, são todos justificados e justificáveis. Patrões horríveis, casas hostis. Nas palavras de Maria Gladys: se há salvação para tudo isso, peça para que Deus dê um pulo aqui embaixo, pois a barra aqui está violenta.

Mas para além da situação em que se encontram de extrema opressão sendo empregadas de clientes ricos e geniosos, Helena Ignez e Maria Gladys constroem o mundo de verdade apesar de tudo isso. Fora daquelas quatro paredes, nas conversas entrecortadas pelas ruas, inaudíveis, caóticas, ambas conversam sobre as coisas que as cercam com um interesse desinteressados, como um papo de lavadeiras: Um namoro falido, uma mãe doente, um corpo em desalinho, uma amiga que resolve se casar com um homem que trabalha em um seringal em Cuiabá (“Borracha? Que gelada, hein!”, diz Maria Gladys). Talvez, os momentos de maior vida se encontram ali, nas pausas para o cigarro, no som do rádio na sala, na cantoria de um cômodo ao outro. Helena Ignez e Maria Gladys exploram a geografia de Copacabana entre os turnos de trabalho: entre lavar a louça e degolar a patroa, há sempre tempo para ir à praia ao meio-dia ou, quem sabe, tomar um cafezinho.

Sobre os patrões? Nada que cabe a eles importa, de fato. Tornam-se apenas matérias desfiguradas, escandalosas, vis, meros adereços aos apartamentos emperiquitados. Os rostos assassinados não possuem qualquer expressão ou sequer identidade, e quando muito se tornam alusões, como no início do filme em que a voz de um homem diz: A empregada matou a minha mulher a facadas. E agora? Eu sou um viúvo fracassado. O Brasil é mesmo uma terra abençoada. Quem é que está dizendo isso? Não importa. É só mais um.

E tal como no abecedário de Rosler, a existência dessas pessoas se torna apenas um inventário de coisas vagas e desimportantes: um despertador, um aparelho de gilette, um sapato vermelho, um vestido. Coisas essas que podem ser achadas em uma casa ou outra. Tanto faz quem as possuía. O que importa é o que é feito com tudo aquilo.

Logo, a toda essa sequência de crimes e patrões mortos, o que os une é a falta de qualquer lastro de identidade; todos são exatamente iguais em morte e semelhança. Isso também parece uma característica inerente ao ofício da limpeza: quem já limpou uma casa, já limpou todas as outras.

E entre o ato de limpar e o de matar em Cuidado Madame deixa-se claro que um corpo estirado no piso limpo cheirando a cloro, ensanguentado e nu, só é parte de mais um dia em uma jornada de trabalho bem sucedida. Agora, basta ir para a próxima casa.

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1. A autora desse texto acredita que há uma relação direta entre o filme Zorns Lemma (1970), de Hollis Frampton e Memórias de Um Estrangulador de Loiras (1971), de Júlio Bressane. Mas, correndo o risco de parecer deslocada para o caro leitor, preferiu deixar essa discussão para outro momento.

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