{"id":99,"date":"2008-05-12T20:52:28","date_gmt":"2008-05-12T22:52:28","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=99"},"modified":"2008-05-12T20:52:28","modified_gmt":"2008-05-12T22:52:28","slug":"imperio-do-crime-joseph-h-lewis-1955","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/imperio-do-crime-joseph-h-lewis-1955\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio do Crime (Joseph H. Lewis, 1955)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"vertical-align:top;\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/en\/thumb\/2\/25\/BigComboTrailer.jpg\/300px-BigComboTrailer.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"184\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O menos rom\u00e2ntico dos noirs. <em>Imp\u00e9rio do Crime<\/em> pode ser encaixado tranq\u00fcilamente na intermin\u00e1vel lista de obras-primas do maior g\u00eanero do cinema, mas talvez seja o filme que mais divirja do classicismo t\u00edpico do submundo de corrup\u00e7\u00e3o moral que substancia o universo do filme de crime norte-americano. Ritmo lento, dire\u00e7\u00e3o carregad\u00edssima, narrativa c\u00edclica e sem quaisquer momentos de cl\u00edmax \u2013 com exce\u00e7\u00e3o do final, que nem mesmo se esfor\u00e7a para ganhar notoriedade em meio ao conjunto de a\u00e7\u00f5es que estruturam a trama. Todos elementos desprezados pela cartilha de caracter\u00edsticas b\u00e1sicas do noir, e que d\u00e3o o tom surpreendentemente at\u00edpico deste filme de Joseph H. Lewis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, se <em>The Big Combo<\/em>, teoricamente, pode ser considerado um anti-noir, na pr\u00e1tica se revela um dos momentos mais brilhantes de todo o movimento. \u00c9 um filme genial. Intrincado, sem qualquer esfor\u00e7o de fluidez entre as seq\u00fc\u00eancias, recheado de personagens fechados em seus pr\u00f3prios interesses e estruturado sobre uma subversiva e inteligent\u00edssima troca de identidades: se o protagonista, a principio, \u00e9 o policial obcecado por desmascarar o atual homem mais poderoso do imp\u00e9rio criminoso de uma metr\u00f3pole, no fim o verdadeiro cerne de toda a est\u00f3ria acaba transportado justamente para o vil\u00e3o, interpretado com uma frieza impressionante por Richard Conte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O filme pode ter sua tem\u00e1tica rasgada em duas metades: \u00e9 um grande estudo sobre o poder, personificado no personagem de Conte [\u2018first is first, second is nobody\u2019, \u00e9 o seu bord\u00e3o], mas tamb\u00e9m uma intersec\u00e7\u00e3o entre a inveja e o amor como formas de justificar a dedica\u00e7\u00e3o obsessiva do policial ao seu trabalho \u2013 num caso que custou \u00e0 corpora\u00e7\u00e3o mais de 18 mil d\u00f3lares e n\u00e3o trouxe sequer um ind\u00edcio de poss\u00edveis resultados, somente a aproxima\u00e7\u00e3o dele de seu objeto de desejo. E \u00e9 no balan\u00e7o entre as duas faces da moeda, policial e g\u00e2ngster, que gira todo o universo de <em>The Big Combo<\/em>. Uma disputa de personalidades conduzida com um distanciamento intrigante, e que gera alguns dos mais preciosos momentos do cinema noir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, \u00e9 impressionante como o filme consegue se manter na defensiva durante o tempo todo e, mesmo assim, ser palco de pelo menos umas dez seq\u00fc\u00eancias marcantes, daquelas para serem lembradas sempre, enquanto o cinema ainda estiver em atividade. Desde a tortura aplicada pelo big boss ao policial, em uma das primeiras seq\u00fc\u00eancias de confronto f\u00edsico entre ambos, at\u00e9 o momento em que o canalha apronta-se para assassinar seu ex-colega \u2013 e atual algoz \u2013 e decide dar a ele a chance de \u201cn\u00e3o ouvir os disparos\u201d, <em>Imp\u00e9rio do Crime<\/em> \u00e9 arquitetado com genialidade plano sobre plano &#8211; mesmo que Lewis continue mantendo a unidade impec\u00e1vel que o transforma em um dos grandes exemplos de cad\u00eancia r\u00edtmica do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E o mais curioso, ainda por cima, \u00e9 que o diretor tem a aud\u00e1cia de transformar seu filme em um produto de anti-divers\u00e3o, bem diferente dos noirs do mesmo per\u00edodo, que normalmente apresentavam tramas policiais pensadas com o \u00fanico prop\u00f3sito de mexer com as emo\u00e7\u00f5es \u2013 e os nervos \u2013 de quem tanto curtia o g\u00eanero. \u00c9 um trabalho mal resolvido, sem grandes surpresas, lento, exaustivo, pesado e t\u00e3o obscuro quanto os cen\u00e1rios embebidos por uma negritude indescrit\u00edvel pelos quais passeiam os personagens, mas que ainda assim \u2013 ou justamente por isso \u2013 funciona melhor do que quase todos os filmes do estilo. \u00c9 uma experi\u00eancia at\u00edpica, desgastante, por\u00e9m muito intrigante.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Intrigante, por sinal, \u00e9 tamb\u00e9m o fato de eu nem ter comentado o que provavelmente seja o maior triunfo de <em>Imp\u00e9rio do Crime<\/em>. \u00c9 covardia comparar qualquer outro trabalho de fotografia j\u00e1 realizado no cinema com essa overdose de escurid\u00e3o capturada pelas lentes vampirescas de John Alton. Mais um pouco, e o filme seria apenas uma imagem escura projetada na tela tendo sua estaticidade rompida por di\u00e1logos fantasmag\u00f3ricos surgidos hora ou outra. N\u00e3o se pode dizer nem mesmo que existe o t\u00e3o famoso contraste acentuado dos noirs, \u00e9 preto-no-preto e os atores atirados no meio da penumbra em pelo menos 70% das cenas. Nos outros 30%, por sua vez, parece mais que a celul\u00f3ide tragou uns dois ma\u00e7os de cigarro do mais vagabundo e baforou em dire\u00e7\u00e3o aos seus olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contando ainda com um desfecho cenograficamente inspirado na cl\u00e1ssica seq\u00fc\u00eancia final de <em>Casablanca<\/em>, esta pequena e at\u00edpica aventura sobre o sindicato do crime norte-americano merece lugar de destaque entre as grandes obras do cinema de Hollywood. \u00c9 bem diferente de tudo o que foi feito at\u00e9 ent\u00e3o, apesar de levemente inspirado no cl\u00e1ssico <em>Os Corruptos<\/em>, de Fritz Lang &#8211; principalmente na busca pelo maior realismo na abordagem da corpora\u00e7\u00e3o policial, inventividade do alem\u00e3o. Mas The Big Combo \u00e9 muito mais audacioso e esquisito do que qualquer outro filme noir, tratando de um g\u00eanero plenamente comercial da forma mais anticomercial poss\u00edvel. E talvez por isso mesmo seja t\u00e3o genial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O menos rom\u00e2ntico dos noirs. 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