{"id":978,"date":"2008-08-06T23:00:59","date_gmt":"2008-08-07T01:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=978"},"modified":"2008-08-06T23:00:59","modified_gmt":"2008-08-07T01:00:59","slug":"o-mensageiro-do-diabo-charles-laughton-1955","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/08\/06\/o-mensageiro-do-diabo-charles-laughton-1955\/","title":{"rendered":"O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton, 1955)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><a href=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2008\/08\/nightofthehunter_1955.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-979\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2008\/08\/nightofthehunter_1955.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 ineg\u00e1vel que essa arte que tanto amamos criou in\u00fameras (merecidas) celebridades ao longo dos seus mais de 100 anos. Entretanto, com a mesma velocidade que ela al\u00e7a ilustres desconhecidos em estrelas da mais alta grandeza, tamb\u00e9m p\u00f5e abaixo in\u00fameras carreiras e filmes. Muitos deles s\u00e3o reconhecidos com o passar dos anos (nada como a an\u00e1lise fria do tempo para dar cr\u00e9dito ao que merece), contudo, em muitos casos, fica sempre a sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a, com algumas carreiras terminando prematuramente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um exemplo claro disso que estou falando \u00e9 <em>The Night of the Hunter<\/em> (mal traduzido aqui como &#8220;O Mensageiro do Diabo&#8221;). Esse foi o \u00fanico filme do diretor Charles Laughton, um renomado ator dos anos 30 e 40. Isso se deveu ao grande fracasso comercial e a incompreens\u00e3o da cr\u00edtica especializada. O desastre foi t\u00e3o grande que Laughton decidiu nunca mais realizar um filme. Vendo-o, s\u00f3 posso concluir duas coisas: esse foi o t\u00edpico caso de um filme muito a frente do seu tempo e que, por causa disso, perdemos um grande diretor, quem, caso seguisse a sua carreira, poderia figurar entre os maiores do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>The Night of the Hunter<\/em> \u00e9 uma obra \u00fanica, que se utiliza, dentre outras coisas, dos &#8220;ensinamentos&#8221; do expressionismo alem\u00e3o para criar um clima totalmente soturno e, por que n\u00e3o dizer, macabro para a figura mal\u00e9fica personalizada por Harry Powell, um suposto pastor que, na verdade, \u00e9 um aproveitador e assassino de vi\u00favas indefesas,\u00a0e em sua \u00faltima empreitada, precisa enfrentar duas destemidas crian\u00e7as (as filhas da \u00faltima vi\u00fava que ele matou).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Charles Laughton se mostra um diretor excepcional, que soube aproveitar como poucos o trabalho de fotografia em p&amp;b para compor esse conto macabro pelo ponto de vista das duas crian\u00e7as. Se percebe a influ\u00eancia do noir cl\u00e1ssico, mas tamb\u00e9m h\u00e1 v\u00e1rias pinceladas de outras infl\u00eancias (especialmente no que diz respeito a v\u00e1rios elementos teatrais), criando um estilo quase que \u00fanico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mais do que isso: o filme consegue provocar uma sensa\u00e7\u00e3o quase que ininterrupta de medo no telespectador. Medo. Muito medo. Medo de um simples c\u00e2ntico religioso entoado em v\u00e1rios momentos por Powell, em cada momento em que a sua sombra aponta no horizonte, medo do que pode acontecer com aquelas crian\u00e7as, medo em rela\u00e7\u00e3o com o que ele ir\u00e1 fazer com a m\u00e3e dessas crian\u00e7as. Resumindo: Laughton consegue transpor o telespectador para \u00e1quele mundo. A partir desse momento, enxergamos o filme sob a \u00f3ptica daquelas crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Boa pare do cr\u00e9dito a esse fato se deve tamb\u00e9m\u00a0\u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o soberba de Robert Mitchum. Ele consegue construir um personagem c\u00ednico, obscuro, ir\u00f4nico e, o mais importante, assustador. Suas prega\u00e7\u00f5es, o olhar profundo e amea\u00e7ador, o modo como cerra e prensa as m\u00e3o uma contra a outra, mostrando o embate entre o amor e o \u00f3dio (evidenciado pelas as palavras &#8220;HATE&#8221; e &#8220;LOVE&#8221; tatuadas nos seus dedos)&#8230; todas essas nuances fazem com que tenhamos medo dessa figura. Mais do que isso: apesar do medo, faz com que ficamos fascinados pela sua persona contradit\u00f3ria, que se v\u00ea como um &#8220;defensor da moral e dos bons costumes&#8221; (na falta de uma defini\u00e7\u00e3o melhor) e que, por conta disso, precisa limpar \u00e0 sua maneira toda a sujeira que a lux\u00faria insiste em espalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O filme \u00e9 tamb\u00e9m uma cr\u00edtica mordaz ao fanatismo religioso, representado principalmente pelos habitantes daquele local, que se mostram bastante recept\u00edveis \u00e0quela suposta distinta figura de falas t\u00e3o encantadoras e venenosas, que, por conta disso, se aproveita da situa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, quando finalmente Powell \u00e9 desmascarado, esse fanatismo se mostra ainda mais latente, diante a rea\u00e7\u00e3o inquisitora da popula\u00e7\u00e3o, disposta a &#8220;ver derramar o sangue do infiel&#8221;. Mais do que a for\u00e7a f\u00edsica, a for\u00e7a da palavra \u00e9 mostrada com todas as suaas garras. Apesar da hist\u00f3ria da fita se passar nos anos 30, esse aspecto ainda se mostra atual\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ainda nessa an\u00e1lise sob o ponto de vista religioso, percebemos a figura da pureza e da inoc\u00eancia (as crian\u00e7as) triunfando contra os malef\u00edcios de toda uma sociedade. Elas s\u00e3o empurradas para um um mundo ca\u00f3tico, repleto de quest\u00f5es morais, lutando para encontrar um caminho por entre dificuldades espirituais, emocionais e f\u00edsicas, de forma a cumprir a promessa que fez a seu pai. No final, cansado de levar esse fardo, ele abdica da promessa, abandonando esse peso injusto ao qual foi obrigado a carregar e, com isso, recuperando a sua pureza e inoc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por essas e muitas outras coisas (que n\u00e3o ser\u00e3o citadas nessa resenha sob pena dela se transformar num extenso e chato tratado), <em>The Night of The Hunter<\/em> \u00e9 um dos filmes mais impressionantes j\u00e1 feitos. Al\u00e9m de mostrar o quanto o mundo pode ser injusto: enquanto vemos uma carreira de diretor que poderia ser promissora, mas que acabou por conta do julgamento mordaz do p\u00fablico e da cr\u00edtica, abortos da natureza como Michael Bay e Uwe Boll continuam a fazer o que eles t\u00eam a aud\u00e1cia de chamar de filmes. Pelo menos todos n\u00f3s sabemos quais ir\u00e3o permanecer inc\u00f3lumes com o tempo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\">Adney Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que essa arte que tanto amamos criou in\u00fameras (merecidas) celebridades ao longo dos seus mais de 100 anos. 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