{"id":94,"date":"2008-05-12T19:39:00","date_gmt":"2008-05-12T21:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=94"},"modified":"2008-05-12T19:39:00","modified_gmt":"2008-05-12T21:39:00","slug":"o-assassino-da-furadeira-abel-ferrara-1979","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/o-assassino-da-furadeira-abel-ferrara-1979\/","title":{"rendered":"O Assassino da Furadeira (Abel Ferrara, 1979)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"vertical-align:top;\" src=\"http:\/\/i6.photobucket.com\/albums\/y220\/cine7\/cine7_poster_drillerkiller.jpg\" alt=\"\" width=\"180\" height=\"263\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Duma converg\u00eancia entre <em>Taxi Driver<\/em>, <em>Repulsion<\/em>, <em>O Inquilino<\/em>, Sex Pistols e uma po\u00e7a de v\u00f4mito ensang\u00fcentado, nasceu <em>O Assassino da Furadeira<\/em>, primeira obra[prima] de Ferrara e facilmente um dos filmes mais retardados, toscos, vagabundos e injusti\u00e7ados do mundo. \u00c9 uma coisa extremamente bizarra, doentia, ca\u00f3tica, mas t\u00e3o genial quanto incompreendida. Parte mais ou menos do mesmo ponto que o filme de Scorsese, inclusive sendo pontuado com diversas refer\u00eancias e subvers\u00f5es a elementos\/frases\/cenas populares dele, mas tem diferen\u00e7as determinantes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, praticamente tudo, j\u00e1 que, enquanto <em>Taxi Driver<\/em> apresenta uma vis\u00e3o burguesa e distante da marginalidade metropolitana, refletida sempre atrav\u00e9s dos olhos de Travis, uma pe\u00e7a descolada da engrenagem social que acaba poupando o espectador do contato direto, <em>The Driller Killer<\/em> tem como protagonista algu\u00e9m que faz parte da esc\u00f3ria \u2013 um artista pl\u00e1stico falido que participa intensamente da porra-louquice do submundo de drogas, putarias, shows de rock\/punk e tudo mais que d\u00e1 vida ao universo esquizofr\u00eanico desejado por Ferrara.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O filme aborda a entrada do homem em uma corrida transloucada em dire\u00e7\u00e3o ao inferno, um processo gradativo de estado de loucura proporcionado pelo sufoco das dificuldades encontradas na sociedade moderna \u2013 falta de grana e de autocontrole, principalmente, o que acarreta todo o resto, no fim &#8211; que culmina no surto absoluto exteriorizado atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de assassinatos cometidos com uma furadeira. Nada de justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, porque ningu\u00e9m \u00e9 her\u00f3i. O neg\u00f3cio aqui \u00e9 pira\u00e7\u00e3o completa, gosto por sangue em estado de dem\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 um filme todo errado, amador, trabalho de iniciante mesmo \u2013 mas que tem muito a dizer e provocar, e acaba somente ganhando com o charme de toda a tosquidade provocada pela falta de estrutura narrativa, de grana \u2013 foi filmado ao custo de 20 mil d\u00f3lares -, de sanidade. N\u00e3o existe coer\u00eancia, ritmo ou qualquer desejo de facilitar a flu\u00eancia da est\u00f3ria \u2013 que nem existe tamb\u00e9m, na realidade -, algo que pode ser facilmente constatado devido ao fato de quase metade do filme ser composto de clipes da banda punk \u2013 em bares, apartamento de ensaio, o que for &#8211; dos vizinhos do protagonista \u2013 que, ali\u00e1s, \u00e9 interpretado pelo pr\u00f3prio Ferrara, um doente em potencial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas nitidamente tudo n\u00e3o passa de uma brincadeira sem qualquer pretens\u00e3o a n\u00e3o ser a provoca\u00e7\u00e3o, psicol\u00f3gica e f\u00edsica, que ainda tem uns lances geniais de invers\u00e3o de expectativa \u2013 ou de simbologias mesmo -, como numa das \u00faltimas cenas, em que uma musiquinha de ninar toca e, junto de sua express\u00e3o levemente feliz, d\u00e1 a entender que o protagonista est\u00e1 sonhando algo bonito, mas na realidade imagina-se banhando no sangue de uma de suas v\u00edtimas \u2013 isso poucos momentos antes daquele final ainda mais genial, com a tela toda em vermelho e a garota deitando na cama com o namorado depois do banho, sem saber que ele est\u00e1 morto, e chamando ele carinhosamente prum amasso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E o cara, um ferrenho incinerador do catolicismo, ainda aproveita pra brincar com certos elementos da igreja atrav\u00e9s de pequenas refer\u00eancias que, em muitos momentos, d\u00e3o um tom c\u00f4mico impag\u00e1vel ao filme \u2013 a primeira cena se passa numa igreja, com um mendigo tentando pegar a m\u00e3o dele; o primeiro contato com uma furadeira acaba resultando em ele fazendo furos numa porta evocando o sinal-da-cruz, a pedido involunt\u00e1rio de sua amiga; numa das mortes ele \u2018crucifica\u2019 um mendigo numa parede furando suas m\u00e3os, clara alus\u00e3o a Cristo; etc. \u2013 mas sem a densidade que traria em seus filmes seguintes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O engra\u00e7ado, ali\u00e1s, \u00e9 que, mesmo sendo um &#8216;fracasso&#8217; at\u00e9 atualmente \u2013 o diretor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 muito bem visto normalmente pelo p\u00fablico em geral, e esse \u00e9 visto como seu filme mais podre -, O Assassino da Furadeira ainda serviu de base pra muitos slashers dos anos 80\u2019, principalmente uma das maiores merdas que j\u00e1 filmaram, que se eu n\u00e3o me engano se chama <em>Massacre<\/em>, seco assim \u2013 \u00e9 um filme que tem como protagonista um man\u00edaco que foge do hosp\u00edcio e mata mulheres com&#8230; uma furadeira, mas a coisa \u00e9 t\u00e3o ruim que chega a dar pena de quem fez.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E ainda tem o lance do coelho morto, vindo de <em>Repulsa ao Sexo<\/em>, que o Ferrara retalha e depois fica mandando beijo pro olho dele, e das mortes geniais, principalmente dos mendigos, perfurados e estra\u00e7alhados sem d\u00f3 \u2013 e depois de meter a broca na cabe\u00e7a de um, inclusive, o maluco ainda d\u00e1 beijo na testa tamb\u00e9m, haha -, e das delirantes varia\u00e7\u00f5es visuais, como o uso das lentes vermelhas, o letreiro \u2018this film should be played LOUD\u2019 abrindo o filme, os enquadramentos esquizos e a montagem ca\u00f3tica, a utiliza\u00e7\u00e3o da cenografia decadente \u2013 mais uma refer\u00eancia a Polanski \u2013 quase como personagem, cheia de ambientes sujos, podres, velhos, cheirando a merda &#8211; d\u00e1 at\u00e9 pra sentir do lado de c\u00e1 -, com tudo isso aliado aos efeitos sonoros deturpados e alucinat\u00f3rios e deixando o filme sempre com um tom de freneticidade absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim. Sensacional. Um catalisador visceral perfeito das sensa\u00e7\u00f5es que o movimento punk despertou e da influ\u00eancia disso na sociedade e dela no individuo, praticamente mutante, num filme completamente fora de qualquer padr\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duma converg\u00eancia entre Taxi Driver, Repulsion, O Inquilino, Sex Pistols e uma po\u00e7a de v\u00f4mito ensang\u00fcentado, nasceu O Assassino da Furadeira, primeira obra[prima] de Ferrara e facilmente um dos filmes mais retardados, toscos, vagabundos e injusti\u00e7ados do mundo. \u00c9 uma &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/o-assassino-da-furadeira-abel-ferrara-1979\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[121,1610,1902,2095,2269],"class_list":["post-94","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-abel-ferrara","tag-o-assassino-da-furadeira","tag-punk","tag-serial-killer","tag-the-driller-killer"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}