{"id":902,"date":"2008-07-30T14:07:46","date_gmt":"2008-07-30T16:07:46","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=902"},"modified":"2008-07-30T14:07:46","modified_gmt":"2008-07-30T16:07:46","slug":"10%c2%ba-festival-internacional-de-curtas-de-bh-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/30\/10%c2%ba-festival-internacional-de-curtas-de-bh-2\/","title":{"rendered":"10\u00ba Festival Internacional de Curtas de BH"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><strong>SEGUNDO DIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>TARABATARA (<em>J\u00falia Zakia<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i72.photobucket.com\/albums\/i177\/daiblog\/filmes\/tarabatara.jpg\" border=\"0\" alt=\"[image] \" \/><br \/>\n<strong>2\/4<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sempre tenho a impress\u00e3o de que a op\u00e7\u00e3o por se realizar um document\u00e1rio seja fruto de uma proximidade com o assunto tratado na obra pelo realizador, uma inquietude que te faz querer lan\u00e7ar um olhar sobre o &#8220;documento&#8221; e assinar um tipo de manifesto a respeito do assunto que lhe \u00e9 caro. A funcionalidade deste registro pode ser variada demais, mas o objeto a ser documentado merece ser o foco cont\u00ednuo da realiza\u00e7\u00e3o. <em>Tarabatara<\/em>, de J\u00falia Zakia, \u00e9 um registro sobre a vida de ciganos alojados no interior de Alagoas, mas que parece ser t\u00e3o sem base firme quanto seus documentados. Se a vida daquelas pessoas \u00e9 percorrer o mundo, a obra cinematogr\u00e1fica de J\u00falia \u00e9 indefinida em sua proposta. A observa\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 parece n\u00e3o bastar como raz\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o do filme, a den\u00fancia \u00e9 inexistente, os costumes s\u00e3o pouco observados; como disse o produtor do filme, em um dos debates do festival, muitas vezes parecia que n\u00e3o havia o que se filmar. Portanto, seria este um document\u00e1rio sobre filmar para se filmar? A preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica existe na produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 evidente, mas as op\u00e7\u00f5es pelo uso eventual do super 8, por exemplo, nada mais parecem ser que exerc\u00edcios de experimenta\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, sem grandes possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o que se espera quando a est\u00e9tica de um filme \u00e9 modificada em casos assim. Fica, no fundo, a sensa\u00e7\u00e3o de que a c\u00e2mera de J\u00falia v\u00ea aquelas pessoas com certa curiosidade, mas que est\u00e1 mais preocupada em montar um belo plano desta observa\u00e7\u00e3o que observar mais de perto.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>\u00cdCARUS (<em>Victor-Hugo Borges<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.curtacinema.com.br\/novo\/imagem\/filme\/compnac9-icarus-1.jpg\" border=\"0\" alt=\"[image] \" \/><br \/>\n<strong>3\/4<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O cinema animado por Victor-Hugo Borges \u00e9 um cinema para adultos, como ele mesmo diz, ainda que disfar\u00e7ado pelo ar do universo infantil. <em>\u00cdcarus<\/em> \u00e9 um filme sobre um ser habitante deste universo, que se compreende como crian\u00e7a, mas que acaba desenvolvendo um n\u00edvel de observa\u00e7\u00e3o do mundo ao seu redor muito mais agu\u00e7ado que o dos pr\u00f3prios adultos. A falta de tempo para a fam\u00edlia, a n\u00e3o-presen\u00e7a de um pai e como isso pode afetar a personalidade de uma crian\u00e7a, todas essas coisas s\u00e3o trabalhadas por Victor-Hugo no filme, de visual que remete a Tim Burton mas com alma de expressionismo alem\u00e3o, no absurdo dos cen\u00e1rios, nas express\u00f5es dos personagens e na dureza da realidade hiper-saturada. Ao menos resta no final uma sensa\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a no que \u00e9 l\u00fadico dentro de um sonho, ainda que finito.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>D\u00c9CIMO SEGUNDO (<em>Leonardo Lacca<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/fernandodeholanda.com\/wp-content\/uploads\/2007\/12\/d_c3_a9cimo-segundo-foto-filme-02.jpg\" border=\"0\" alt=\"[image] \" \/><br \/>\n<strong>4\/4<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na posi\u00e7\u00e3o de espectadores de cinema nos \u00e9 proposto normalmente algum tipo de imers\u00e3o dentro de uma est\u00f3ria narrada pelo diretor, acessorado pelo fot\u00f3grafo, o diretor de arte, seus atores e assim por diante. Essa imers\u00e3o eventualmente nos exige um n\u00edvel de comprometimento com a trama maior que o de costume, \u00e1s vezes uma exig\u00eancia grande demais e nossa primeira vontade acaba sendo a de cessar a liga\u00e7\u00e3o com aquela narrativa. Em <em>D\u00e9cimo Segundo<\/em> \u00e9 exatamente o que acontece, quando nos vemos na posi\u00e7\u00e3o de observadores pr\u00f3ximos demais de uma situa\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa ao extremo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um homem chama pelo interfone uma mulher e faz uma cita\u00e7\u00e3o a <em>Estrada Perdida<\/em>, de David Lynch, filme que possivelmente era querido por eles dois em algum tempo passado, mas que ele tenta trazer de volta ao presente. Na incompreens\u00e3o dela com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 frase citada \u00e9 notado o primeiro sinal de desconforto, a id\u00e9ia de que o tal passado realmente ficou perdido naquele tempo e que as modifica\u00e7\u00f5es empregadas pela passagem deste s\u00e3o, possivelmente, imut\u00e1veis. Em apenas 10 segundos de filme j\u00e1 temos a completa dimens\u00e3o do que viria, mas os pr\u00f3ximos 20 minutos, captados em praticamente tempo real (o filme tem apenas 4 planos, sendo que o \u00faltimo dura mais de 15 minutos), servir\u00e3o para constatar a terr\u00edvel condi\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem entra no pr\u00e9dio e coloca as malas no elevador, aperta v\u00e1rios bot\u00f5es de andares aleat\u00f3rios e vai correndo pela escada, numa competi\u00e7\u00e3o in\u00fatil, uma luta perdida contra a passagem do tempo. A brincadeira \u00e9 correspondida pela mulher que pega a bagagem dele e o aguarda no tal d\u00e9cimo segundo andar. Ela parece ter lembran\u00e7as daquele ato, esconde as malas dentro de casa enquanto o espera e quando ele finalmente chega, finge n\u00e3o saber de nada. Na demora do homem em perceber que ela estava brincando, mais uma evid\u00eancia da quebra que existiu entre aqueles dois. E a\u00ed reside a maior das qualidades do filme de Leonardo Lacca, a n\u00e3o constata\u00e7\u00e3o das coisas, o jogo com a plat\u00e9ia. N\u00e3o sabemos ao certo o que aconteceu entre eles, se foram casados ou se viveram juntos por muito tempo, h\u00e1 quanto tempo est\u00e3o separados, o que aconteceu. Mas temos a evid\u00eancia do novo homem na vida daquela mulher, nos chinelos repousados na \u00e1rea de servi\u00e7o do apartamento, a observa\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a no outro, pelos olhares constrangidos e pelas falas hesitantes e desse modo vamos construindo, n\u00f3s mesmos, as bases fundamentais daquela rela\u00e7\u00e3o e seus poss\u00edveis motivos de ruptura. \u00c9 um tipo de cinema org\u00e2nico, que eleva o espectador a condi\u00e7\u00e3o de participante do desenvolvimento narrativo, mas ainda mais por exigir um comprometimento emocional grande demais. Estamos diante destas duas pessoas e queremos n\u00e3o passar por este constrangimento, \u00e9 sufocante demais. O tempo e o som reiteram as sensa\u00e7\u00f5es de impossibilidade diante do que est\u00e1 fechado e tudo acaba sendo ainda mais conturbado quando finalmente se est\u00e1 s\u00f3. A esperan\u00e7a vai por terra, ou por \u00e1gua, como simbolicamente \u00e9 mostrado no filme, e qualquer chance de resposta \u00e9 negada pelo corte seco ao final. Melhor assim, al\u00edvio nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>UM RAMO (<em>Marco Dutra e Juliana Rojas<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.riofan.com.br\/imagens\/f_umramo.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<strong>3\/4<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><\/strong><br \/>\nNo debate que seguiu a exibi\u00e7\u00e3o de <em>Um Ramo<\/em> no festival perguntaram a Juliana Rojas se ela acreditava que o filme mais recente de M. Night Shyamalan, <em>Fim dos Tempos,<\/em> tinha algum tipo de inspira\u00e7\u00e3o em seu curta, ganhador do pr\u00eamio especial de melhor curta-metragem na Semana Internacional da Cr\u00edtica do Festival de Cannes de 2007. A pergunta foi como uma piada e nem mesmo Rojas havia assistido ao filme de Shyamalan, mas \u00e9 ineg\u00e1vel a semelhan\u00e7a entre as obras. Em <em>Um Ramo<\/em>, Clarisse come\u00e7a a perceber que est\u00e3o nascendo nela pequenos ramos de uma planta, sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o. O teor fant\u00e1stico da narrativa firme de Dutra e Rojas reside no fato do acontecimento extraordin\u00e1rio n\u00e3o vir acompanhado de algum tipo de explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, assim como no filme de Shyamalan. Mas as inten\u00e7\u00f5es da dupla de diretores \u00e9 compreender a l\u00f3gica dessa personagem diante do tal &#8220;acontecimento&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Clarisse \u00e9 uma mulher comum, professora, casada, m\u00e3e de um filho, que segue uma vida rotineira habitual at\u00e9 descobrir, um dia ap\u00f3s o banho, esse pequeno ramo no bra\u00e7o direito. Ela arranca a folha, assim como far\u00e1 com todos os outros focos de nascimento que ir\u00e3o se alastrar pelo seu corpo. Clarisse procura um m\u00e9dico mas \u00e9 incapaz de dizer para qualquer pessoa o que est\u00e1 acontecendo, nem mesmo para o marido, com quem parece ter um casamento est\u00e1vel. Levando em conta que a folha foi notada depois de j\u00e1 ter crescido um pouco, o processo de brotar dela tal ramo parece natural e indolor e as feridas que vir\u00e3o da atitude de Clarisse em arrancar os ramos &#8211; ou cort\u00e1-los com a navalha do marido &#8211; s\u00e3o a parte brutal da situa\u00e7\u00e3o, como se fosse ela querer agir contra o que \u00e9 natural. Mas obviamente n\u00e3o \u00e9 natural para ela a situa\u00e7\u00e3o de, aos poucos, parecer virar uma planta, ent\u00e3o essa nega\u00e7\u00e3o da natureza, ao mesmo tempo que Clarisse se aproxima dela, tentando substituir o peixinho do filho que havia morrido para que ele n\u00e3o percebesse quando voltasse de f\u00e9rias, a sensibiliza\u00e7\u00e3o com a not\u00edcia da baleia encalhada na costa, o ato de tirar um p\u00e1ssaro preso dentro de seu apartamento. Clarisse parece querer que as coisas voltem ao normal e age como se tudo estivesse em sua plena ordem, mas com um distanciamento que nega tal regime. Quando o filho retorna, ela parece distante e fria. Esse processo de distanciamento da personagem de sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9 o que caracteriza a observa\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera de Dutra e Rojas, nunca julgando suas atitudes, mas tentando entend\u00ea-las. E como \u00e9 de praxe no trato com a individualidade dos seres humanos, quem seria capaz de dar essas respostas?<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEGUNDO DIA TARABATARA (J\u00falia Zakia) 2\/4 Sempre tenho a impress\u00e3o de que a op\u00e7\u00e3o por se realizar um document\u00e1rio seja fruto de uma proximidade com o assunto tratado na obra pelo realizador, uma inquietude que te faz querer lan\u00e7ar um &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/30\/10%c2%ba-festival-internacional-de-curtas-de-bh-2\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[13,231,311,323,591,644,277,2219,2406],"class_list":["post-902","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comentarios","tag-10-festival-de-curtas-de-bh","tag-areia","tag-belo-horizonte","tag-bh","tag-curtas","tag-decimo-segundo","tag-icarus","tag-tarabatara","tag-um-ramo"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=902"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/902\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}