{"id":89,"date":"2008-05-12T12:21:08","date_gmt":"2008-05-12T14:21:08","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=89"},"modified":"2008-05-12T12:21:08","modified_gmt":"2008-05-12T14:21:08","slug":"a-tortura-do-medo-michael-powell-1960","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/a-tortura-do-medo-michael-powell-1960\/","title":{"rendered":"A Tortura do Medo (Michael Powell, 1960)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/modculture.typepad.com\/photos\/uncategorized\/peepingtom.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"259\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Seis anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento da obra-prima absoluta de Alfred Hitchcock, <em>Janela Indiscreta<\/em>, outro cineasta ingl\u00eas, desta feita em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, ousou explorar a interrela\u00e7\u00e3o entre cinema e voyeurismo e sua influ\u00eancia na vida de um \u201ccidad\u00e3o comum\u201d. O filme em quest\u00e3o \u00e9 <em>A Tortura do Medo<\/em>, feito por Michael Powell, que nada herda do requinte, da sutilidade e da plasticidade t\u00edpicas do gordinho mais famoso do cinema. Muito pelo contr\u00e1rio. Peeping Tom \u00e9 brutal, cruel, impiedoso. \u00c9 cinema filho-da-puta do in\u00edcio ao fim, do primeiro ao \u00faltimo momento, que explora, ou melhor, abusa com perspic\u00e1cia de nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o como espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A trama envolve Mark, um homem simples, retra\u00eddo, que divide seu tempo entre dois empregos: de dia, ajusta o foco das c\u00e2meras em um est\u00fadio de cinema. \u00c0 noite, fotografa modelos para revistas de nudez baratas. Uma terceira e \u00faltima atividade, por\u00e9m, lhe ocupa grande parte do trabalho mental, al\u00e9m da concentra\u00e7\u00e3o completa de seus esfor\u00e7os: para poder se deliciar \u00e0 noite, em sua pequena sala de proje\u00e7\u00e3o particular, ele gosta de filmar as express\u00f5es de pavor de algumas mulheres quando estas est\u00e3o prestes a serem assassinadas \u2013 por ele pr\u00f3prio. Um show de sadismo com requinte de crueldade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 quando conhece uma mulher, que mora debaixo de seu quarto na ex-casa da fam\u00edlia, por\u00e9m, que Mark come\u00e7a a ser descascado feito uma cebola em frente \u00e0 c\u00e2mera inquieta e abusiva de Powell. Uma cebola, ali\u00e1s, recheada de camadas infinitas, que permitem uma explora\u00e7\u00e3o rica e promovem uma condi\u00e7\u00e3o atordoante no que concerne \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre o personagem e quem est\u00e1 acompanhando a obra. N\u00e3o simplesmente pelo fato de o anti-her\u00f3i ser a todo o momento colocado ao nosso lado, para que tor\u00e7amos por seu drama e soframos com suas ang\u00fastias. \u00c9 uma identifica\u00e7\u00e3o absolutamente natural, imposs\u00edvel de ser manipulada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque a vida de Mark, desde seu nascimento, fora nada mais nada menos que um filme \u2013 roteirizado, dirigido e protagonizado por ele mesmo, sem condi\u00e7\u00f5es de fuga. A partir de seus primeiros meses, a c\u00e2mera jamais deixou de acompanh\u00e1-lo. Seu pai, um cientista doentio, alucinado, tinha por objetivo aproveitar o crescimento de seu filho para estudar a rela\u00e7\u00e3o entre o desenvolvimento humano e a constru\u00e7\u00e3o de fobias, submetendo-o a pequenos testes, sempre capturados pela c\u00e2mera. Quando se casara com sua segunda esposa, no dia em que partira para a lua-de-mel, o homem deu ao filho uma c\u00e2mera, que este nunca mais largara, em momento algum.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com o passar do tempo, Mark assumiu a posi\u00e7\u00e3o de diretor, capturando cenas para um futuro document\u00e1rio. Atrav\u00e9s da mente enrolada por celul\u00f3ide, depois de tantos anos, ele j\u00e1 n\u00e3o via mais pessoas \u2013 se \u00e9 que vira um dia -: via personagens. N\u00e3o se locomovia: encontrava um melhor \u00e2ngulo. N\u00e3o freq\u00fcentava lugares: adentrava loca\u00e7\u00f5es. N\u00e3o dormia: fazia recesso. N\u00e3o comia: refor\u00e7ava a bateria para mais uma sess\u00e3o de sele\u00e7\u00e3o de imagens. Na concep\u00e7\u00e3o do roteiro, a id\u00e9ia fermentou de forma impec\u00e1vel: queria registrar express\u00f5es de mulheres \u00e0 beira da morte, fotografar os policiais descobrindo o local do crime, garantir maior emo\u00e7\u00e3o ao espectador &#8211; afinal, a constante submiss\u00e3o ao medo lhe transformara em um tarado por esta sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A descoberta de alguns outros sentimentos, como o afeto e o amor, atrav\u00e9s de sua vizinha, por quem se apaixona, rompe o rolo de celul\u00f3ide e traga Mark para o mundo real, provocando nele, assim, um imenso transtorno psicol\u00f3gico. Ele n\u00e3o mais fazia parte do filme. Era, agora, um espectador. Mas continuava matando e captando, obsessivo, vouyer\u00edstico. Porque os cin\u00e9filos s\u00e3o assim. Gostam de analisar, de ver, mesmo depois de sentirem em sua pr\u00f3pria pele as sensa\u00e7\u00f5es. Atribuem um poder imensur\u00e1vel \u00e0 imagem. E qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre algu\u00e9m que observa indisciplinadamente e algu\u00e9m que assiste a um filme? Praticamente nula, porque, afinal, um cin\u00e9filo \u00e9 um doido, um voyeur at\u00e9 o osso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao longo de seus 100 minutos de dura\u00e7\u00e3o, <em>A Tortura do Medo<\/em> \u00e9 um estudo de personagem dos mais brilhantes, sufocantes e marcantes de todo o cinema. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas isso que faz parte do processo, porque Powell foi muito, muito mais al\u00e9m. Ousou escancarar a obscuridade da aprecia\u00e7\u00e3o, refletir de forma cruel, obsessiva, multifacet\u00e1ria, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a imagem e o receptor. <em>Peeping tom<\/em>, antes de um thriller, de um suspense ou at\u00e9 mesmo de um filme, \u00e9 as v\u00edsceras da arte sendo expostas sem nenhum receio diante dos olhos de quem a aprecia. O mal estar proporcionado s\u00f3 reflete a profundidade desmedida desta obra-prima inigual\u00e1vel do cinema ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para os f\u00e3s de filmes como <em>Blow Up<\/em> e <em>Um Tiro na Noite <\/em>(que, ali\u00e1s, \u00e9 uma homenagem imperd\u00edvel a este filme \u2013 inclusive, s\u00e3o tr\u00eas dos meus preferidos de todos os tempos), A Tortura do Medo pode ser uma das experi\u00eancias mais impressionantes que se pode ter com o cinema. E n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, \u00e0 \u00e9poca do lan\u00e7amento, foi tachado de repulsivo, doentio, entre outros adjetivos pejorativos do mais baixo n\u00edvel. \u00c9 uma puta duma catarrada na cara de quem v\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seis anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento da obra-prima absoluta de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta, outro cineasta ingl\u00eas, desta feita em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, ousou explorar a interrela\u00e7\u00e3o entre cinema e voyeurismo e sua influ\u00eancia na vida de um \u201ccidad\u00e3o comum\u201d. 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