{"id":88,"date":"2008-05-12T11:55:42","date_gmt":"2008-05-12T13:55:42","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=88"},"modified":"2008-05-12T11:55:42","modified_gmt":"2008-05-12T13:55:42","slug":"tenebre-dario-argento-1982","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/tenebre-dario-argento-1982\/","title":{"rendered":"Tenebre (Dario Argento, 1982)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dvdtimes.co.uk\/images\/MichaelMackenzie\/tenebre10.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"209\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mais metaling\u00fc\u00edstico cinema. E n\u00e3o s\u00e3o poucos os fatores que transformam esta obra-prima de Dario Argento, provavelmente o grande filme da carreira do italiano, num filme completamente debru\u00e7ado sobre esta t\u00e9cnica que, de modo ainda t\u00edmido e insuficiente, aparecia em alguns de seus filmes anteriores, como <em>Prel\u00fadio Para Matar<\/em>. A primeira cena, ali\u00e1s, j\u00e1 diz muito a respeito do tom, com o assassino de luva preta lendo trechos do livro que posteriormente ser\u00e1 inspira\u00e7\u00e3o para as mortes que sucedem a chegada do escritor do livro Tenebrae \u00e0 capital da It\u00e1lia, onde participar\u00e1 de uma s\u00e9rie de entrevistas para divulgar seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A antecipa\u00e7\u00e3o da trama j\u00e1 demonstra uma clara refer\u00eancia metaling\u00fc\u00edstica, de fato, mas os exemplos jorram de forma t\u00e3o intensa quanto o sangue que percorre cada fotograma demon\u00edaco deste retorno de Argento aos giallos, g\u00eanero que transformou o novato cineasta, nos anos 70, em um mito do cinema de suspense\/horror italiano. A c\u00e2mera subjetiva, em especial, ensaiada em alguns planos de <em>Prel\u00fadio Para Matar,<\/em>\u00a0 mas sem realmente fazer parte de um contexto, mais servindo como propulsora de tens\u00e3o em algumas seq\u00fc\u00eancias, ganha significados imprescind\u00edveis dentro da trama.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de dois assassinatos e uma meia-hora de filme, o recurso, mesmo sem ser utilizado com abund\u00e2ncia, torna-se t\u00e3o indissol\u00favel da decupagem que passa a confundir a cada plano a percep\u00e7\u00e3o do espectador, criando uma d\u00favida insolucion\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem da imagem [assassino?, plano de vis\u00e3o extra-dieg\u00e9tica?, protagonista?, c\u00e3o chupando manga no canto do cen\u00e1rio?, quem, pelamordedeus?]. E sempre que visivelmente parte do \u00e2ngulo de vis\u00e3o do respons\u00e1vel pelas mortes, que tem sua identidade oculta \u2013 e confundida \u2013 o tempo todo, a utiliza\u00e7\u00e3o do recurso \u00e9 excepcional \u2013 nivelada com De Palma, pra se ter uma no\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas a metalinguagem n\u00e3o p\u00e1ra por a\u00ed. Quando as coisas come\u00e7am a apertar para os her\u00f3is-argentianos, assim como em Hitchcock, De Palma, etc, normalmente \u00e9 o pr\u00f3prio que inicia uma investiga\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria pra tentar tirar o seu da reta. Mas o escritor de Tenebre, enquanto [SPOILER] ainda faz parte do grupo de expectadores dos assassinatos [FIM DO SPOILER-N\u00c3O-SPOILER], permanece o tempo todo de fora, ao lado de quem v\u00ea e, inteligentemente, devido a um jogo de no\u00e7\u00e3o de trama absoluto de Argento, investiga, antes mesmo de os personagens come\u00e7arem a fazer o mesmo \u2013 as pistas sempre chegam antes a n\u00f3s do que ao moleque que pira em ser investigador e do pr\u00f3prio investigador, ningu\u00e9m mais que Giuliano Gemma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo assim, [SPOILER GIGANTESCO] a grande e genial sacada metaling\u00fc\u00edstica de Argento \u00e9 transformar o pr\u00f3prio protagonista em roteirista da trama no terceiro ato [o que, curiosamente, n\u00e3o deixa de ser uma obsess\u00e3o bem expressiva de algu\u00e9m que escreve est\u00f3rias policiais para a literatura], passando-o de espectador a protagonista, a assassino, quando d\u00e1 in\u00edcio a uma s\u00e9rie inexplic\u00e1vel de renova\u00e7\u00f5es de enredo e brincando como um autista [Brian De Palma mode totalmente ligado, \u00e0 \u00faltima pot\u00eancia] com seu pr\u00f3prio filme \u2013 a resolu\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio \u00e9 conclu\u00edda meia-hora antes de tudo efetivamente terminar, e n\u00e3o h\u00e1 possibilidades de se adiantar a loucura que \u00e9 acompanhar os vai-e-vens que sucedem antes de os cr\u00e9ditos finais come\u00e7arem a baixar na tela, aos sons rasgantes dos gritos de uma das personagens embalados pela trilha descaralhal de Goblin.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ali\u00e1s, \u00e9 at\u00e9 f\u00e1cil compreender o porqu\u00ea de o Argento ter retornado, depois de seis anos, ao g\u00eanero que havia lhe transformado em \u00edcone, depois de iniciar sua empreitada pelo suspense sobrenatural com <em>Susp\u00edria<\/em>. <em>Prel\u00fadio Para Matar<\/em> era o mais pr\u00f3ximo que havia chegado de construir uma obra definitiva para o estilo, mas a discrep\u00e2ncia qualitativa \u2013 algumas seq\u00fc\u00eancias s\u00e3o das coisas mais fant\u00e1sticas j\u00e1 filmadas, outras um tremendo nh\u00e9nh\u00e9nh\u00e9 \u2013 e a resolu\u00e7\u00e3o a la <em>Sexta-Feira 13<\/em> deixavam o resultado final, embora fant\u00e1stico, insuficiente. Tenebre viria pra lacrar os erros em uma caixa de metal blindado e atir\u00e1-los no mais profundo dos mares.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E, mesmo que a trilha-sonora, embora genial, n\u00e3o seja t\u00e3o impactante\/importante quanto aquela coisa estupradora de <em>Prel\u00fadio Para Matar<\/em>, as cenas de morte em <em>Tenebre<\/em> alcan\u00e7am um grau de grafismo e impacto muito maior \u2013 talvez por manterem um crescendo muito bem costurado e estourarem de vez ao n\u00edvel da doenticidade na meia-hora final, quando todos os personagens aparecem em determinado local ao mesmo tempo somente para serem v\u00edtimas de uma brincadeira de resta-um das mais alucinadas. Ali\u00e1s, n\u00e3o tem pra ningu\u00e9m: a morte da americana que perde o bra\u00e7o com uma machadada \u00e9 a maior do cinema, por aquele lance genial de ela levantar com uma coreografia incr\u00edvel e manchar a parede de maneira \u00fanica com um jorro incontrol\u00e1vel de sangue.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E nem tem o que dizer daquele plano-seq\u00fc\u00eancia irrealiz\u00e1vel que o Argento utiliza como prel\u00fadio da morte das l\u00e9sbicas, saindo com a c\u00e2mera de uma janela, dando a volta no sentido vertical em toda a casa, atravessando o telhado, descendo pelo outro lado e parando em outra janela, que come\u00e7aria a ser rebentada pelo assassino. E ainda tem a brincadeira leon\u00edstica genial do lance das mem\u00f3rias atiradas de forma desconexa dentro da trama, mas deixando o espectador ter ci\u00eancia de que s\u00e3o mem\u00f3rias mesmo, para explicar certo fato do final. E o \u00faltimo assassinato, um encerramento de filme perfeito, sangrento e totalmente pessimista, deixando viva a \u00fanica personagem que n\u00e3o fez porra nenhuma durante todo o filme e que, por isso, merecia ter morrido antes de todo mundo. Aqueles gritos ecoam na sala por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mais metaling\u00fc\u00edstico cinema. 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