{"id":87,"date":"2008-05-12T11:42:58","date_gmt":"2008-05-12T13:42:58","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=87"},"modified":"2008-05-12T11:42:58","modified_gmt":"2008-05-12T13:42:58","slug":"tragica-obsessao-brian-de-palma-1976","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/tragica-obsessao-brian-de-palma-1976\/","title":{"rendered":"Tr\u00e1gica Obsess\u00e3o (Brian De Palma, 1976)"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align:center;\"><span style=\"font-size:small;font-family:Times New Roman;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/k-punk.abstractdynamics.org\/archives\/obsession-thumb.jpeg\" alt=\"\" width=\"419\" height=\"224\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Brian De Palma \u00e9 um cineasta de excessos. Quem considera o cinema uma arte de entrelinhas, de sugestividade sobreposta ao escancaro, certamente se transformar\u00e1 de imediato em um detrator de seu estilo, coisa que, por sinal, realmente ocorre \u2013 e com grande freq\u00fc\u00eancia. E \u00e9 at\u00e9 compreens\u00edvel que filmes como Tr\u00e1gica Obsess\u00e3o, uma das grandes obras-primas da carreira do maior mestre do cinema contempor\u00e2neo, permane\u00e7am at\u00e9 hoje na penumbra da mem\u00f3ria cinematogr\u00e1fica. Ali\u00e1s, o curioso de tudo isso \u00e9 que De Palma, assumidamente, promove com o seu cinema uma esp\u00e9cie de \u2018releitura\u2019 do pr\u00f3prio cinema, em especial daquele que \u00e9 tido como o grande influenciador do diretor e reconhecido como o \u2018mestre do suspense\u2019, Alfred Hitchcock, cujo discurso cinematogr\u00e1fico apontava justamente para o caminho contr\u00e1rio ao que trilha: a sugest\u00e3o. Para Hitchcock, o clima de mist\u00e9rio \u00e9 o que vale. Para De Palma, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tr\u00e1gica Obsess\u00e3o, substancialmente, pode ser considerado uma releitura daquela que muitos apontam como a grande obra-prima do cinema de Hitchcock, uma est\u00f3ria de amor constru\u00edda em dois atos distintos e mergulhada em um tom inenarr\u00e1vel de remorso e obsess\u00e3o \u2013 no filme do \u2018gordinho\u2019, o personagem de Stewart se recupera do choque que \u00e9 ver a mulher que ama se suicidar, quando encontra outra que se parece com ela e tenta reviver o romance. O filme em quest\u00e3o \u00e9 Um Corpo Que Cai, cl\u00e1ssico do suspense e que praticamente resume a plotline de Obsession, que com algumas varia\u00e7\u00f5es retorna ao tema rom\u00e2ntico-obsessivo ao apresentar o retorno de um empres\u00e1rio, que, depois de mais de 20 anos, ainda se culpa pela morte da mulher, ao local onde se conheceram, e descobre que por l\u00e1 encontra-se uma mulher de apar\u00eancia f\u00edsica incrivelmente semelhante com a de sua falecida esposa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A diferen\u00e7a entre o cinema de Hitchcock e o cinema de De Palma, portanto, fazem com que Tr\u00e1gica Obsess\u00e3o eleve o esp\u00edrito e a pretens\u00e3o de Hitchcock \u00e0 en\u00e9sima pot\u00eancia, num surpreendente surto narrativo que explora com um preciosismo \u00fanico as varia\u00e7\u00f5es dramat\u00fargicas do roteiro original, explorando de forma ainda mais perturbadora as condi\u00e7\u00f5es emocionais e psicol\u00f3gicas das pe\u00e7as que montam o quebra-cabe\u00e7a denso e instigante desta dram\u00e1tica trama de obsess\u00e3o. E \u00e9 engra\u00e7ado como, mesmo sendo uma \u2018releitura\u2019, Tr\u00e1gica Obsess\u00e3o termina por ser um filme completamente diferente de Vertigo. De Palma enrola e desenrola cada elemento do filme, inverte as posi\u00e7\u00f5es dentro da estrutura do roteiro, mexe aqui, ali, entorta l\u00e1, e o resultado \u00e9 simplesmente org\u00e1stico, surtante. Os primeiros vinte minutos, sem quaisquer cerim\u00f4nias, v\u00eam como um baque, um choque em quem aguarda o cl\u00edmax inicial para l\u00e1 pelos cinq\u00fcenta minutos de filme rodado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir da\u00ed, De Palma revela um novo filme. Muito distante do come\u00e7o eletrizante, tenso. Muito menos tenso, mas ainda mais sufocante, transformando seu suspense em um filme sobre a culpa, o remorso, sobre a torturante sobrevida que o protagonista, preso a um erro do passado, desenvolve a partir do momento em que precisa conviver diariamente com o fato de ter tido a vida das pessoas que mais ama em suas m\u00e3os \u2013 e jogado-as fora. \u00c9 um filme sobre a segunda chance; a chance que temos de reverter nossos erros, converter nossos pecados. E poucos trabalhos depalmianos foram t\u00e3o particulares sob o ponto de vista emocional, dram\u00e1tico \u2013 talvez apenas O Pagamento Final se assemelhe em dor e subst\u00e2ncia a Tr\u00e1gica Obsess\u00e3o, que, ali\u00e1s, tem em seu final alguns elementos bem not\u00e1veis daquilo que viria a ser desenvolvido mais tarde por De Palma nesta obra-prima do drama policial. \u00c9 um trabalho bastante profundo, muito distante da artificialidade que normalmente atribuem ao cinema do diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E nada contribuiria mais para esta constru\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica do que aquela trilha-sonora arrepiante, inquietante e estupradora de Bernard Herrmann \u2013 colaborador de confian\u00e7a de Hitchcock, ali\u00e1s. Talvez s\u00f3 a fotografia em tons fantasmag\u00f3ricos de Vilmos Zsigmond, constantemente em conflito com luzes de velas, feixes de luz em janelas e ambientes em tons outonais, esmaecidos, que deixam uma sensa\u00e7\u00e3o on\u00edrica imprescind\u00edvel para o tom de romantismo macabro que a est\u00f3ria de amor\/obsess\u00e3o por um passado inemut\u00e1vel requer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas \u00e9 no ter\u00e7o final que De Palma finalmente comprova o porqu\u00ea de eu ter chamado-o de cineasta de excessos, brincando feito uma crian\u00e7a autista com sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o ao filmar um desfecho absolutamente insano, doentio, retardado e etc para uma est\u00f3ria t\u00e3o bonita e profunda. E o pior de tudo \u00e9 que s\u00f3 assim Obsession seria a obra-prima perfeita e sincera que \u00e9. Porque o cinema, acima de tudo, \u00e9 baseado no poder de manipula\u00e7\u00e3o da imagem. E ningu\u00e9m precisa avisar que este \u00e9 exatamente o brinquedo preferido de De Palma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Simplesmente descaralhal, emocionante, sufocante, bizarro, esquizofr\u00eanico, genial, um passo \u00e0 frente do restante da humanidade. O filme mais subestimado do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brian De Palma \u00e9 um cineasta de excessos. 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