{"id":86,"date":"2008-05-12T11:09:08","date_gmt":"2008-05-12T13:09:08","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=86"},"modified":"2008-05-12T11:09:08","modified_gmt":"2008-05-12T13:09:08","slug":"o-sonho-de-cassandra-woody-allen-2007","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/o-sonho-de-cassandra-woody-allen-2007\/","title":{"rendered":"O Sonho de Cassandra (Woody Allen, 2007)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/img206.imageshack.us\/img206\/1301\/cassandrawr7.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Durante nossa vida, adquirimos alguns conceitos que parecem inatos, dadas as origens t\u00e3o profundas e enraizadas no inconsciente. S\u00e3o aquelas defini\u00e7\u00f5es que adv\u00e9m de id\u00e9ias t\u00e3o b\u00e1sicas que, mesmo em nossos mais profundos anseios de liberdade intelectual, prevalecem como inalteradas e qualquer um que defenda o absurdo de suas refuta\u00e7\u00f5es observar\u00e1 imediatamente a repugn\u00e2ncia a latejar nas veias da face ou no franzir do sobrolho do ouvinte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Creio que nossa heran\u00e7a religiosa (especialmente no Brasil, com o predom\u00ednio dos princ\u00edpios crist\u00e3os como sinalizadores de moral e definidores de objetivos) seja determinante na constru\u00e7\u00e3o desses fundamentos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A fam\u00edlia, por exemplo, bem como sua valoriza\u00e7\u00e3o e status adquirido ao se tornar chefe de uma \u00e9, pois, um atestado de normalidade. E temos que admitir que uma das coisas que o homem busca em sua exist\u00eancia \u00e9 n\u00e3o ser notado por caracter\u00edsticas que o desvalorizem perante o outro &#8211; e na mesma medida, ser valorizado pelo que possui melhor conceitualmente que a maioria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao observarmos a perpetua\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias, nos surpreendemos com a facilidade da propaga\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as, adolescentes (e nessa fase, \u00e0s vezes princ\u00edpios radicalmente opostos aos citados s\u00e3o s\u00edmbolos de rebeldia e, por conseguinte, aceita\u00e7\u00e3o diante de outros que vivem a mesma fase), pais e adultos. A fam\u00edlia \u00e9 central em nosso desenvolvimento, acolhedora diante de nossas fraquezas e fiel \u00e0s nossas necessidades (e n\u00e3o se preocupe, o rebelde adolescente descobrir\u00e1 isso com o tempo).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Woody Allen em <em>O Sonho de Cassandra<\/em>, inicia a est\u00f3ria retratando uma bela amizade entre dois irm\u00e3os, modelo da rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima do ideal. Distantes da perfei\u00e7\u00e3o comportamental e totalmente isentos da expectativa da conduta desej\u00e1vel perante a sociedade diante de situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, Allen faz quest\u00e3o de construir uma cumplicidade inequ\u00edvoca entre Terry e Ian. E ela chega a ponto de desviar os olhares de uma \u00f3bvia prefer\u00eancia da figura paterna pelo inteligente e aparentemente bem sucedido Ian em rela\u00e7\u00e3o a Terry, que, ao contr\u00e1rio do despertar da ira, observa tudo conformado e t\u00edmido.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas Woody Allen ainda vai al\u00e9m, ao sugerir uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexa, com o intuito de solidificar os princ\u00edpios que regem o comportamento familiar dos protagonistas, convida o espectador a participar de um tri\u00e2ngulo, ao, em v\u00e1rios momentos do filme deixar de apresentar elementos que comprovem a veracidade dos atos e dizeres dos personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por exemplo, em v\u00e1rios momentos s\u00f3 sabemos que Terry ganhou dinheiro nas apostas porque ele fala, e, dadas as circunst\u00e2ncias mostradas, mesmo que dificilmente tal fato pare\u00e7a aceit\u00e1vel, depois de algumas apostas, o personagem de Farrell demonstra sua sinceridade falando ao irm\u00e3o que perdera uma alta quantia monet\u00e1ria e, consequentemente, ao espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como n\u00e3o ganhar a nossa confian\u00e7a por todas as falas anteriores?<br \/>\nO artif\u00edcio tamb\u00e9m funciona perfeitamente quanto a Ian: quando faz a dif\u00edcil confiss\u00e3o de estar roubando dinheiro do pr\u00f3prio pai (com surpreendente naturalidade), conferimos um voto ainda maior de confian\u00e7a a dupla&#8230;simplesmente n\u00e3o h\u00e1 porque question\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 justamente aqui que todos os efeitos negativos dos arraigados conceitos come\u00e7am a aparecer. As dificuldades financeiras de Terry e a ambi\u00e7\u00e3o de Ian levam os rapazes a constru\u00e7\u00e3o de um terceiro v\u00ednculo interpessoal, a ser consolidado com algu\u00e9m portador do atual objeto de desejo dos irm\u00e3os: o dinheiro.<br \/>\nMunido do dom\u00ednio dos poderosos conceitos sociais discutidos e ciente do poder devastador do confronto com suas incoer\u00eancias, Tio Howard (e note bem o valor &#8220;sangu\u00edneo&#8221; do t\u00edtulo sempre vinculado ao personagem) aproveita-se das falhas morais dos rapazes e de seus seguidos pedidos de dinheiro a fim de adentrar o universo terrivelmente cruel da discuss\u00e3o de valores sociais conflitantes e tirar proveito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Presos em uma encruzilhada na escolha entre matar um desconhecido para encobrir as evidentes falhas de car\u00e1ter do Tio em nome da confian\u00e7a e da fam\u00edlia e perder definitivamente a import\u00e2ncia diante de tal figura (o que representaria a fal\u00eancia das regras de conduta familiar), eles s\u00e3o direcionados perspicazmente por Howard a aceitar as condi\u00e7\u00f5es bizarras do acordo. A fam\u00edlia em primeiro lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, o colapso da troca de valores causa uma destrui\u00e7\u00e3o t\u00e3o incrivelmente danosa que, no momento exato do acontecimento (e falo aqui da cena da chuva, debaixo da \u00e1rvore, pois considero esse trecho o deflagrador dos eventos posteriores, que s\u00f3 representam reflexos) j\u00e1 sabemos que algo terr\u00edvel advir\u00e1, seja atrav\u00e9s da fragilidade psicol\u00f3gica de Terry ou do inc\u00f4modo evidente de Ian.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cena do assassinato adentra o universo Hitchcockiano: tensa, bel\u00edssima e elegante, tornando o previs\u00edvel deliciosamente imprevis\u00edvel atrav\u00e9s da posterga\u00e7\u00e3o do inevit\u00e1vel. Desde a frustrada tentativa na casa do pobre homem at\u00e9 os passos apressados, a desconfian\u00e7a de Martin de estar sendo seguido na efetiva cena do crime (e, claro, do \u00f3bvio, que aconteceria inevitavelmente) e a cena anterior do encontro imprevis\u00edvel da v\u00edtima com Farrell no bar. Voc\u00ea chega a roer as unhas&#8230;Algo tem que dar errado&#8230;tem que dar&#8230;mas n\u00e3o d\u00e1.<br \/>\nUma vez que a semente da destrui\u00e7\u00e3o se instala, as alternativas para a conten\u00e7\u00e3o de seu crescimento se tornam \u00ednfimas. E o que emerge dela \u00e9 o caos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um caos instant\u00e2neo e ansioso, que envolve rapidamente Terry (em uma atua\u00e7\u00e3o estupenda de Farrell, diga-se de passagem), causando uma crise nervosa intensa e perp\u00e9tua e, embora menos vis\u00edvel, enfraquece e consome o ambicioso Ian, gerando uma tens\u00e3o crescente entre os personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Finalmente quando a cortina desce e o show termina como um estampido seco sobre a mente cansada e desesperan\u00e7osa do espectador bem como um gosto amargo na boca, de forma extremamente r\u00e1pida, este \u00faltimo percebe que h\u00e1 mais est\u00f3ria n\u00e3o retratada que retratada no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 inten\u00e7\u00e3o de Woody satisfazer os anseios psic\u00f3ticos de quem acompanha a est\u00f3ria com um banho de sangue e l\u00e1grimas, mas dilacerar nosso c\u00e9rebro com duas armas infintitamente mais poderosas: a imagina\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>S\u00edlvio Tavares<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante nossa vida, adquirimos alguns conceitos que parecem inatos, dadas as origens t\u00e3o profundas e enraizadas no inconsciente. 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