{"id":85,"date":"2008-05-12T01:47:10","date_gmt":"2008-05-12T03:47:10","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=85"},"modified":"2008-05-12T01:47:10","modified_gmt":"2008-05-12T03:47:10","slug":"muriel-ou-o-tempo-de-um-retorno-alain-resnais-1963","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/muriel-ou-o-tempo-de-um-retorno-alain-resnais-1963\/","title":{"rendered":"Muriel ou o Tempo de um Retorno (Alain Resnais, 1963)"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-align:center;margin:0;\"><span style=\"font-size:9.5pt;\"><span style=\"font-family:Trebuchet MS;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/peppermintkisskiss.com\/dvds\/murieldvd.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"303\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A primeira seq\u00fc\u00eancia de Muriel ou o Tempo de um Retorno \u00e9 uma colagem imprecisa de uma cena que se estilha\u00e7ou. Um quadro visto aos peda\u00e7os, rapidamente, como a fotografia de uma \u00e9poca cujo filme n\u00e3o tenha ficado tempo suficiente exposto \u00e0 luz. Ainda assim, restou algo. Uma silhueta, um contorno, uma sombra. E os personagens passam pelas conseq\u00fc\u00eancias deste processo, conflitados seja nos limites de um apartamento ou da cidadezinha onde se conhece a todos em poucos dias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tudo \u00e9 fugidio, ef\u00eamero, incompleto. A impress\u00e3o \u00e9 de que os cortes foram todos errados. Todos os di\u00e1logos s\u00e3o interrompidos, todas as cenas s\u00e3o partidas pela metade. Nada tem um fim, uma conclus\u00e3o, nada \u00e9 uma hist\u00f3ria que vale a pena contar, nada \u00e9 uma lembran\u00e7a que valha guardar. Muriel \u00e9 todo a falta de um todo. N\u00e3o h\u00e1 nem o menor resqu\u00edcio dos longos e contemplativos planos de Marienbad, a reflex\u00e3o dolorosa de Hiroshima, a narra\u00e7\u00e3o que ornamenta as imagens. Muriel \u00e9 pontiagudo, \u00e9 uma obra sem acabamento, como os passados de H\u00e9l\u00e8ne, Bernard e Alphonse.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A \u00fanica pessoa feliz, em Muriel, \u00e9 Fran\u00e7oise. \u00c9 recorrente que ela pare e olhe todas as vitrines enquanto o resto dos personagens simplesmente passe. Fran\u00e7oise n\u00e3o tem passado, quase nem tem presente. Sua euforia ao falar de um navio no porto da cidade \u00e9 algo que ningu\u00e9m mais naquele apartamento poderia compreender.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Bernard, por sua vez, sequer chega a existir em algum momento no filme. Ele morreu e permaneceu Arg\u00e9lia, vivendo nos por\u00f5es da mem\u00f3ria, com os olhos voltados sobre Muriel. Como na cena do jantar, com os \u00f3culos com os olhos falsos no presente, e os olhos verdadeiros enxertados sob a carne de outra \u00e9poca, escondidos em algum lugar do passado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O romance entre H\u00e9l\u00e8ne e Alphonse \u00e9 um coito interrompido num plano mais amplo, espalhado sobre o passar de v\u00e1rios anos. N\u00e3o foi, poderia ter sido, mas agora n\u00e3o ser\u00e1 mais como seria. Pena. E h\u00e1 toda uma recorr\u00eancia da hist\u00f3ria dos dois reduzida em uma ou outra cena, um pequeno di\u00e1logo. Como quando Alphonse tenta toc\u00e1-la, ela percebe, e d\u00e1-lhe um pudim, que al\u00e9m de ocupar suas m\u00e3os serve de uma ironia t\u00e3o devastadora como se ela lhe apontasse o dedo e gargalhasse. E tamb\u00e9m na conversa dos dois, na mesma noite, quando ele diz \u201ceu quero beij\u00e1-la\u201d e ela \u201camanh\u00e3\u201d. \u00c9 lindo, \u00e9 triste, mas ao mesmo tempo \u00e9 muito r\u00e1pido. Tudo, tudo em Muriel \u00e9 r\u00e1pido demais, \u00e9 sem uma devida import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Talvez (ou n\u00e3o) em conseq\u00fc\u00eancia disso, as imagens n\u00e3o sejam tratadas com o mesmo cuidado, a mesma quase doentia composi\u00e7\u00e3o de O Ano Passado em Marienbad. O que \u00e9 uma pena, j\u00e1 que a atmosfera da noite na cidade (iluminada e repleta de bares e de lojas) se perde na fotografia colorida. O uso das cores, ali\u00e1s, s\u00f3 me fez querer ainda mais que o filme permanecesse no romantismo do p&amp;b, mesmo que seja este o romantismo nost\u00e1lgico que Resnais quis evitar no amargo presente de Muriel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que resta de Muriel \u00e9 uma grande amn\u00e9sia. Com os personagens se perdendo um do outro, partindo em dire\u00e7\u00f5es diferentes, deixando apenas um apartamento vazio atulhado de antiguidades (sim, o lugar \u00e9 um antiqu\u00e1rio, mas apesar de t\u00e3o evidente, Resnais teve a eleg\u00e2ncia de n\u00e3o saturar a met\u00e1fora \u2013 e eu odeio met\u00e1foras -, deixando-a latente, largando-a levemente para que plane, toque e repouse no inconsciente do espectador com o sil\u00eancio de algo que, na verdade, sequer est\u00e1 ali). Talvez eu que seja man\u00edaco por constru\u00e7\u00e3o de atmosferas em filmes, mas Muriel s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 do mesmo n\u00edvel de Marienbad porque, pra mim, houve este descuido. Poderia ter sido seco, \u00e1spero, mas nem por isso evitado a beleza da viol\u00eancia visual. Mesmo assim, \u00e9 maravilhoso. Uma dem\u00e3o a mais no imenso e talvez definitivo painel da mem\u00f3ria composto por Alain Resnais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira seq\u00fc\u00eancia de Muriel ou o Tempo de um Retorno \u00e9 uma colagem imprecisa de uma cena que se estilha\u00e7ou. Um quadro visto aos peda\u00e7os, rapidamente, como a fotografia de uma \u00e9poca cujo filme n\u00e3o tenha ficado tempo suficiente &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/muriel-ou-o-tempo-de-um-retorno-alain-resnais-1963\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[140,1537,1538,1603,1957],"class_list":["post-85","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-alain-resnais","tag-muriel","tag-muriel-ou-o-tempo-de-um-retorno","tag-nouvelle-vague","tag-resnais"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}