{"id":84,"date":"2008-05-12T01:34:04","date_gmt":"2008-05-12T03:34:04","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=84"},"modified":"2008-05-12T01:34:04","modified_gmt":"2008-05-12T03:34:04","slug":"o-ano-passado-em-marienbad-alain-resnais-1961","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/12\/o-ano-passado-em-marienbad-alain-resnais-1961\/","title":{"rendered":"O Ano Passado em Marienbad (Alain Resnais, 1961)"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoBodyText\" style=\"text-align:center;\"><span style=\"font-size:9pt;\"><\/span><\/p>\n<div style=\"width: 484px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" src=\"http:\/\/img232.imageshack.us\/img232\/7558\/marienbad6fh5.png\" alt=\"\" width=\"474\" height=\"193\" \/><p class=\"wp-caption-text\">!<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem d\u00favida alguma o mais belo del\u00edrio visual da hist\u00f3ria do cinema. Tudo \u00e9 limpo, sim\u00e9trico, perfeito, imaculado; numa ordem t\u00e3o imposs\u00edvel que contrasta brilhantemente com o caos na sobreposi\u00e7\u00e3o de tempos, lembran\u00e7as e imagens. Como centenas de pe\u00e7as de um quebra-cabe\u00e7as jogadas ao acaso, cuja beleza est\u00e1 precisamente na desordem do todo. \u00c9 interessante inclusive que eu tenha acabado de ver O Espelho, do Tark, que discorre exatamente sobre mem\u00f3ria e o nivelamento de tempos distintos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas Resnais diverge de Tarkovsky numa bifurca\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria: enquanto um trata da nostalgia se espelhando na celul\u00f3ide do pr\u00f3prio filme, o franc\u00eas percorre os corredores do amor, do desejo e da indiferen\u00e7a. O universo mental reduzido nos grandes, bel\u00edssimos e mortificados sal\u00f5es e jardins do hotel \u00e9 das atmosferas mais lindas e perturbadoras j\u00e1 concebidas. Apesar do ar livre, as cenas do jardim comprimem o espectador numa profus\u00e3o de luz (e toda aquela simetria e aquela limpeza e simplicidade das formas) quase claustrof\u00f3bica. Ou como no quarto clar\u00edssimo dela (aparecendo como um peda\u00e7o sens\u00edvel na carne morta da mem\u00f3ria) entrecortado de espelhos. E ela tamb\u00e9m se faz objeto fundamental das constru\u00e7\u00f5es de cena, cheia de plumas, com vestidos sempre ou muito claros ou muito escuros. Em v\u00e1rios momentos (principalmente no in\u00edcio, ap\u00f3s uma introdu\u00e7\u00e3o tecida de palavras e de um passeio pelo hotel) as pessoas s\u00e3o t\u00e3o partes da constru\u00e7\u00e3o como a est\u00e1tua analisado pelos dois. E por outras vezes eles se movimentam t\u00e3o lentamente que quase d\u00e1 pra ouvir o ru\u00eddo dos seus p\u00e9s partindo a unifica\u00e7\u00e3o de concreto com o piso do lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m do mais, o texto aparece desta vez numa sintonia intoc\u00e1vel com as imagens (diferentemente de Hiroshima, Meu Amor), reproduzindo diversas vezes uma sensa\u00e7\u00e3o de d\u00e9j\u00e0 vu, e ainda logo no in\u00edcio, quase inexplic\u00e1vel j\u00e1 que ainda n\u00e3o se havia tomado qualquer conhecimento no envolvimento dos dois e na inter-rela\u00e7\u00e3o entre passado e presente. E por outras, ele remete diretamente a cenas que n\u00e3o precisam ser reprisadas na tela, mas que s\u00e3o reprisadas na imagina\u00e7\u00e3o, pela provoca\u00e7\u00e3o do texto. S\u00f3 n\u00e3o \u00e9 o mais bem usado no cinema porque ainda existem Persona e Lavoura Arcaica, onde, neste \u00faltimo, a sonoridade incompar\u00e1vel do Raduan Nassar \u00e9 um elemento a mais, e fundamental, no poder evocativo das palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, obra-prima. Visualmente o filme mais absurdo que existe e a conjuga\u00e7\u00e3o definitiva dos tempos no n\u00edvel mais complexo e poderoso de todos: o tempo segundo o fluxo da mente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem d\u00favida alguma o mais belo del\u00edrio visual da hist\u00f3ria do cinema. Tudo \u00e9 limpo, sim\u00e9trico, perfeito, imaculado; numa ordem t\u00e3o imposs\u00edvel que contrasta brilhantemente com o caos na sobreposi\u00e7\u00e3o de tempos, lembran\u00e7as e imagens. 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