{"id":836,"date":"2008-07-25T18:44:57","date_gmt":"2008-07-25T20:44:57","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=836"},"modified":"2008-07-25T18:44:57","modified_gmt":"2008-07-25T20:44:57","slug":"providence-alain-resnais-1977","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/25\/providence-alain-resnais-1977\/","title":{"rendered":"Providence (Alain Resnais, 1977)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px;\" src=\"http:\/\/img262.imageshack.us\/img262\/8120\/providence21.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O andar compassado, evanescendo vagarosamente para dentro daquela velha propriedade como que para um organismo \u2013 porque tudo ali \u00e9 extens\u00e3o do corpo e da mente de Clive \u2013 , na primeira cena, \u00e9 um prel\u00fadio f\u00fanebre de rever\u00eancia. Atravessando o port\u00e3o com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cProvidence\u201d, Resnais nos convida para entrar num santu\u00e1rio, e o respeito que ele demonstra, passeando contemplativo pelo bosque, mantendo a c\u00e2mera de baixo para cima, distinguindo um discreto azul celeste entre as \u00e1rvores, subindo lentamente as escadas e observando muros riscados pela vegeta\u00e7\u00e3o como varizes de um sangue parado pelo tempo, \u00e9 coisa de quem sabe e nos avisa que, a partir da\u00ed, estamos acessando de algu\u00e9m o \u00edntimo mais profundo j\u00e1 alcan\u00e7ado no cinema. Mem\u00f3ria, imagina\u00e7\u00e3o, medos, ang\u00fastias, m\u00e1goas, desejos reprimidos e s\u00f3 manifestados livremente atrav\u00e9s de sua arte. Somos turistas, visitantes de um Clive Langham totalmente descarnado pela c\u00e2mera deste franc\u00eas; um voyeur da alma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes de mais nada \u00e9 preciso deixar claro que, apesar de inicialmente n\u00e3o parecer, Providence \u00e9 um filme muito, muito divertido, de um humor jocoso e cruel o bastante at\u00e9 mesmo para os padr\u00f5es ingleses. Quando aquele percurso descrito acima, aquela trajet\u00f3ria de quase resigna\u00e7\u00e3o do diretor perante o seu grande personagem, \u00e9 bruscamente interrompida pelo pr\u00f3prio Clive Langham com um indignado \u201cmerda! merda! merda! MERDA!\u201d, Resnais apenas posiciona a c\u00e2mera dentro da mente do escritor, e ele \u00e9 quem conduz seu filme, sua hist\u00f3ria (que come\u00e7a e termina, ali\u00e1s, no respaldo cl\u00e1ssico de uma fic\u00e7\u00e3o: a transforma\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m num lobisomem).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Toda a evolu\u00e7\u00e3o do processo criativo de Langham \u00e9 inspecionada em detalhes por Resnais (e mesmo que seja um escritor, a experi\u00eancia pode ser estendida a qualquer forma de arte). Logo no in\u00edcio, numa conversa profissional consigo mesmo &#8211; e a narra\u00e7\u00e3o inteira em off \u00e9 um di\u00e1logo interior -, Langham se questiona sobre o que fazer com os personagens. E \u00e9 maravilhoso, porque a cria\u00e7\u00e3o autoral \u00e9 toda um produto das experi\u00eancias, dos conceitos e das emo\u00e7\u00f5es de seu criador. Da\u00ed que utilizando sua fam\u00edlia como personagens de seu romance, Clive se v\u00ea constantemente submetendo-os a algo que secretamente deseja, porque \u00e9 escrevendo que ele se liberta numa dolorosa noite de ins\u00f4nia, e todas as pequenas pe\u00e7as do seu trabalho s\u00e3o pin\u00e7adas e ampliadas por Resnais, como a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o com a morte, incluindo a\u00ed seu m\u00e9dico que aparece como um pensamento intruso, e que Clive tenta descartar, mas que termina voltando de vez em quando numa cena crua e repulsiva, cuja identifica\u00e7\u00e3o atingida com um espectador encarnado no pr\u00f3prio Clive pela vis\u00e3o inc\u00f4moda \u00e9 pr\u00f3pria do apuro e da sensibilidade de Alain Resnais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Id\u00e9ias recorrentes e indesej\u00e1veis, ali\u00e1s \u2013 grande merda de quem usa a criatividade como mat\u00e9ria-prima do seu trabalho \u2013 aparecem representadas de um jeito bem divertido pelo franc\u00eas (o que \u00e9 aquele jogador de futebol? Hahaha), que s\u00e3o os olhos do espectador dentro da imagina\u00e7\u00e3o desse velho doido. Porque \u00e9 exatamente assim que algu\u00e9m se sente vendo claramente quando Clive n\u00e3o est\u00e1 satisfeito, quando volta atr\u00e1s e reescreve, ou outras em que adorou o que escreveu. H\u00e1 inclusive um trecho em que ele se diverte com a sonoridade da palavra \u201cfornicar\u201d e ri sozinho, num n\u00edvel inviol\u00e1vel de intimidade e introspec\u00e7\u00e3o nunca antes acessado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 onde aparecem principalmente as confiss\u00f5es, onde se nota todo o peso e a dor de coisas feitas e n\u00e3o feitas entremeadas na garganta. A todo momento Clive est\u00e1 punindo seus filhos, punindo sua nora, sua mulher morta por ter lhe deixado muito cedo (e que ele ressuscita e faz amante do pr\u00f3prio filho), mas acima de tudo, est\u00e1 se punindo, se atacando sem a mais \u00ednfima piedade. \u00c9 triste e assustador quando ele coloca seu filho Claude (um Bogarde que ningu\u00e9m explica) do outro lado da tela e chora do lado de c\u00e1 enquanto \u00e9 desmontado numa inquisi\u00e7\u00e3o, ou quando o mesmo lhe redige uma carta cheia de \u00f3dio (que \u00e9 a face encontrada pra um desprezo por si mesmo) convertido num remorso que aparece muito atrav\u00e9s da esposa Molly\/Helen Wiener quando ela conta coisas das quais ele n\u00e3o se permitiria arrepender sozinho. Porque Clive \u00e9 indefeso, \u00e9 carente, e pede socorro \u00e0 sua arte pra enfrentar um mundo do qual morre de medo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Escritor: o onipotente deus do seu mundo. Imperativo no seu sil\u00eancio e absoluto na amplitude deste seu universo que tem o tamanho da imagina\u00e7\u00e3o. Longe dele, no entanto, as coisas perdem o controle. Talvez o simples fato de que o poder de matar algu\u00e9m est\u00e1 a mais de uma frase de dist\u00e2ncia o apavora profundamente. O escritor \u00e9 um eterno inconformado, arquiteto de uma realidade como ela devia ser. A meia hora final de Providence se passa na tarde do dia seguinte \u00e0 noite de ins\u00f4nia e epifania de Clive Langham, e \u00e9 uma tarde p\u00e1lida e ma\u00e7ante, em que tudo ocorre como se tivesse sido planejado. Seus filhos, seus criados, sua nora e a pr\u00f3pria tarde que ele respira t\u00eam o cheiro aversivo de uma antev\u00e9spera de funeral. Tudo parece minuciosamente armado, pintado, escrito como uma encena\u00e7\u00e3o de encontro e agrado ao pobre velho moribundo, e o dia termina com uma realidade muito mais artificial que o seu romance.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O melhor filme do Resnais e um dos dez maiores do cinema. A inventividade, o esc\u00e1rnio, a materializa\u00e7\u00e3o irretoc\u00e1vel do imagin\u00e1rio, o Dirk Bogarde inacredit\u00e1vel, a narrativa de descoberta do real atrav\u00e9s do irreal muito antes de Cidade dos Sonhos, e ao fim de tudo, o socorro \u00e0 arte e sua consagra\u00e7\u00e3o sobre o morma\u00e7o inodoro da realidade; Providence n\u00e3o \u00e9 apenas uma homenagem \u00e0 7\u00aa, mas a todas as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O andar compassado, evanescendo vagarosamente para dentro daquela velha propriedade como que para um organismo \u2013 porque tudo ali \u00e9 extens\u00e3o do corpo e da mente de Clive \u2013 , na primeira cena, \u00e9 um prel\u00fadio f\u00fanebre de rever\u00eancia. 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