{"id":706,"date":"2008-07-20T22:00:41","date_gmt":"2008-07-21T00:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=706"},"modified":"2008-07-20T22:00:41","modified_gmt":"2008-07-21T00:00:41","slug":"farrapo-humano-billy-wilder-1945","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/20\/farrapo-humano-billy-wilder-1945\/","title":{"rendered":"Farrapo Humano (Billy Wilder, 1945)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2008\/07\/lostweekend1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-707\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2008\/07\/lostweekend1.jpg?w=300\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"230\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes da cr\u00edtica em si, um coment\u00e1rio: eu queria saber o porqu\u00ea da mania das produtoras e distribuidoras brasileiras colocarem um t\u00edtulo nacional que, ou acaba se mostrando totalmente rid\u00edculo, ou ainda parece querer resumir todo o filme em apenas duas palavras, sendo, dessa forma, t\u00e3o discreto quanto um rinoceronte dan\u00e7ando o Lago dos Cisnes. Ser\u00e1 que eles acham que isso atrair\u00e1 os telespectadores? O t\u00edtulo desse filme \u00e9 uma das provas disso que estou falando. \u201cThe Lost Weekend\u201d ( O Fim de Semana Perdido) se mostra muito mais apropriado do que Farrapo Humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pronto, feito o desabafo, vamos direto ao ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 consideraria Billy Wilder um dos caras mais fodas do cinema s\u00f3 pelo fato dele ter concebido \u201c<a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/05\/16\/crepusculo-dos-deuses-sunset-boulevard-1950\/\" target=\"_blank\">Crep\u00fasculo dos Deuses<\/a>\u201d, a maior obra-prima do cinema. Mas, gra\u00e7as \u00e1 Deus e para deleite de n\u00f3s, amantes do cinema, ele concebeu in\u00fameras outras obras-primas t\u00e3o relevantes quanto. Farrapo Humano \u00e9 uma delas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma das qualidades mais latentes de Wilder \u00e9 a maneira como ele tratava temas pol\u00eamicos com maestria \u00edmpar &#8211; a frieza do cinema com estrelas mais antigas em &#8220;Crep\u00fasculo dos deuses&#8221; ou a id\u00e9ia de adult\u00e9rio em &#8220;O pecado mora ao lado&#8221; &#8211; e aqui n\u00e3o \u00e9 diferente. O tema tratado j\u00e1 afligia &#8211; e ainda aflige &#8211; grande parte das fam\u00edlias estadunidenses e do mundo: o \u00e1lcoolismo. E aqui Wilder n\u00e3o poupa esfor\u00e7as para tocar nas feridas expostas do p\u00fablico, trazendo o retrato mais realista do efeitos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos do \u00e1lcoolismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Filme mostra, sem fazer concess\u00f5es na maior parte do tempo, o drama vivido num final de semana (da\u00ed o t\u00edtulo original) de Don Birman, um aspirante a escritor que t\u00eam todas as suas aspira\u00e7\u00f5es destru\u00eddas pela bebida, sofrendo uma degrada\u00e7\u00e3o df\u00edsica e moral perante toda uma sociedade. NO meio desse turbilh\u00e3o, temos o seu irm\u00e3o, que o abandona \u00e0 pr\u00f3pria sorte depois de seis anos tentando livr\u00e1-lo do v\u00edcio; e sua devotada namorada Helen, uma mo\u00e7a rica absolutamente apaixonada pelo escritor, que n\u00e3o desiste dele mesmo sabendo de seus problemas com a garrafa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde o seu in\u00edcio, quando temos uma panor\u00e2mica mostrando toda a cidade, aproximando-se de um pr\u00e9dio onde vemos uma garrafa de u\u00edsque presa atrav\u00e9s de uma corda em seu parapeito (cena essa regstrada na foto acima), percebemos a tem\u00e1tica do filme: um mergulho em sensa\u00e7\u00f4es at\u00e9 o momento totalmente incomuns aos dramas filmados na \u00e9poca: medo, ang\u00fastia, dor e, principalmente, sofrimento. Se levarmos em conta a \u00e9poca que o filme foi produzido, percebemos com mais clareza o qu\u00e3o ousada foi a obra em quest\u00e3o: al\u00e9m da crise de 1929 estar presente nas mentes dos norte-americanos, t\u00ednhamos ainda a segunda Grande Guerra nos seus momentos finais. Com esse quadro, o cinema procurava justamente o caminho inverso: reanimar aquela sociedade t\u00e3o abatida pr conta desses acontecimentos (por isso n\u00e3o me surpreende o fato do filme quase n\u00e3o ser lan\u00e7ado, devido \u00e0 fraca rea\u00e7\u00e3o de pr\u00e9vias exibi\u00e7\u00f5es para audi\u00eancia, que, prov\u00e1velmente, n\u00e3o estavam preparadas para um tema t\u00e3o forte).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O maior respons\u00e1vel pelo impacto do filme \u00e9, sem d\u00favida, Ray Milland. Sua interpreta\u00e7\u00e3o pode ser facilmente colocada como uma das melhores de toda a hist\u00f3ria do cinema (conquistando o mais que merecido Oscar). Apesar de um papel extremamente complicado de interpretar (devido ao grande risco do personagem soar caricato e exagerado), ele nos brinda com um trabalho extremamente detalhista e extremamente intenso. Suas m\u00e3os tr\u00eamulas, o cabelo despenteado, os olhares se alternando entre o totalmente deslumbrado e o totalmente perdido (de acordo com o &#8220;n\u00edvel de embriaguez&#8221; do personagem) renderam uma constru\u00e7\u00e3o de personagem simplesmente magn\u00edfica, provocando uma crecente ang\u00fastia no telespectador, \u00e0 medida que acompanhamos a sua intensa jornada rumo \u00e0 sua degrada\u00e7\u00e3o por conta do v\u00edcio. A sensa\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 de que estamos junto com o personagem nessa montanha-russa de emo\u00e7\u00f5es, sofrendo junto com ele &#8211; e como n\u00f3s f\u00f4ssemos ele &#8211; as suas ang\u00fastias. E, quando um ator consegue isso, pode ter certeza: \u00e9 a sua consagra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas temos outros fatores que ajudam a construir essa obra. Al\u00e9m das caracter\u00edsticas habituais que encontramos num filme de Billy Wilder (a amargura e a melancolia injetada em suas obras, o roteiro extremamente bem trabalhado, a ironia latente nas falas, a dire\u00e7\u00e3o precisa e inventiva), \u00e9 preciso ressaltar a trilha sonora. Composta por uma das pessoas mais requisitadas para a fun\u00e7\u00e3o naquela \u00e9poca (e, para mim, um dos maiores realizadores dela, perdendo apenas para Bernard Herrmann), Miklos Rozsa, ela se utiliza de um tons graves e impactantes. Isso foi gra\u00e7as, sobretudo, a inser\u00e7\u00e3o do teremin, um instrumento musical respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o de um som muito utilizado em filmes de alien\u00edgenas. Aqui, ele exerce uma fun\u00e7\u00e3o primordial: ressaltar a situa\u00e7\u00e3o de embriaguez e deped\u00eancia de Don, como se fosse uma voz que o instinga a saciar o seu v\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Exceto pelo seu final (que me pareceu uma solu\u00e7\u00e3o bastante c\u00f4moda do Wilder talvez por imposi\u00e7\u00f5es da produtora. Mas fiquem tranquilos, temos pessoas aqui no grupo que discordam disso. \ud83d\ude00 ), Wilder nos entrega uma jornada alucinante, perturbadora, realista e extremamente angustiante sobre as consequ\u00eancias do alcoolismo, no maior retrato do que esse v\u00edcio pode causar. Em tempos de volta da lei seca aqui no Brasil (pelo menos no que diz respeito \u00e0s estradas), assistir esse filme \u00e9 mais do que um deleite cinematogr\u00e1fico: \u00e9 um grande servi\u00e7o social prestado pelo cinema dentro de uma excelente obra. E essa \u00e9 uma das coisas que faz o cinema ser uma coisa \u00fanica e fascinante.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Adney Silva<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes da cr\u00edtica em si, um coment\u00e1rio: eu queria saber o porqu\u00ea da mania das produtoras e distribuidoras brasileiras colocarem um t\u00edtulo nacional que, ou acaba se mostrando totalmente rid\u00edculo, ou ainda parece querer resumir todo o filme em apenas &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/20\/farrapo-humano-billy-wilder-1945\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[146,330,660,840,1781,1931,2288],"class_list":["post-706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-alcoolismo","tag-billy-wilder","tag-delirium-tremens","tag-farrapo-humano","tag-oscar","tag-ray-milland","tag-the-lost-weekend"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/706\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}