{"id":670,"date":"2008-07-17T20:31:24","date_gmt":"2008-07-17T22:31:24","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=670"},"modified":"2008-07-17T20:31:24","modified_gmt":"2008-07-17T22:31:24","slug":"de-olhos-bem-fechados-stanley-kubrick-1999-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/17\/de-olhos-bem-fechados-stanley-kubrick-1999-2\/","title":{"rendered":"De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Foram duas semanas e 14 textos (13 filmes e a introdu\u00e7\u00e3o) de rever\u00eancia ao grande mestre, mas eis que o Especial Stanley Kubrick chega ao fim. Thiago Mac\u00eado Correia, que abriu com o soturno Fear and Desire, fecha nosso especial\u00a0ao som da funesta marcha de De Olhos Bem Fechados. Obrigado a todos que nos acompanharam nestes \u00faltimos dias. Lembrando que o prazo pro envio do texto do\u00a0concurso termina em poucas horas, e o\u00a0resultado ser\u00e1 divulgado segunda-feira. E depois?\u00a0Bem,\u00a0no fim de semana\u00a0sombras e morcegos invadir\u00e3o o Multiplot!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/celebvids.blog.hu\/media\/image\/Abigail_Good-Eyes_Wide_Shut-3.jpg\" alt=\"\" width=\"493\" height=\"269\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)<\/strong>\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">&#8230;uma mulher, um homem&#8230;um homem, uma mulher&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma mulher se despe. Esta mulher se veste em seguida, um homem se prepara para sair. Ambos ir\u00e3o deixar o lugar que dividem juntos h\u00e1 anos em busca da recompensadora sensa\u00e7\u00e3o de relaxamento em uma festa com amigos, ainda que os tais amigos sejam pessoas totalmente desconhecidas e a divers\u00e3o seja ficar por algumas horas interagindo separados um do outro. Ele se divide entre duas belas modelos, o fetiche masculino por excel\u00eancia. Ela rodopia pelo sal\u00e3o com um cavalheiro europeu mais maduro, a defini\u00e7\u00e3o da estabilidade. As luzes que rodeiam o ambiente da festa \u2013 e todos os ambientes que compartilharemos com eles, em seguida \u2013 s\u00e3o de todas as cores, iluminam todas as possibilidades. Ele nada faz, \u00e9 interrompido por um chamado urgente. Ela nada faz, \u00e9 interrompida por uma manifesta\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia de sua situa\u00e7\u00e3o: \u00e9 casada e isso impossibilita que ela fa\u00e7a o que deseja fazer. Sociedades s\u00e3o fundamentadas em regras b\u00e1sicas de conv\u00edvio, necess\u00e1rias para que se estabele\u00e7a uma ordem de relacionamentos entre os integrantes delas. Da\u00ed a id\u00e9ia de evolu\u00e7\u00e3o, pois sem ela seriam hoje todos como animais selvagens, dispostos a matar pela sobreviv\u00eancia, a n\u00e3o respeitar o indiv\u00edduo, a viver sem pudor, a fazer sexo por instinto. Mas o que s\u00e3o todos os homens sen\u00e3o estes mesmos animais? Talvez a \u00fanica diferen\u00e7a que exista entre os primatas e os s\u00e1bios homens contempor\u00e2neos seja o fato de a morte, o ego\u00edsmo, o sexo n\u00e3o serem quest\u00f5es de instinto animal somente e sim pr\u00e1ticas sociais que se deve negar eventualmente, em nome da tal ordem. Mas aquele homem e aquela mulher parecem querer trair esta condi\u00e7\u00e3o. O retorno ao lar reserva \u00e0queles dois um confronto singular em sua vida conjunta. A mulher provoca o homem a respeito das duas mulheres que ele acompanhava na festa; o homem quer saber da mulher o que o cavalheiro grisalho tanto almejava durante a dan\u00e7a; a mulher acha prudente saber se o homem sente desejo por outras mulheres, que n\u00e3o ela; o homem acha prudente mentir parcialmente e isso faz com que ele seja parcialmente verdadeiro; a mulher se irrita diante da mentira eminente e pede a verdade sobre o desejo dele por ela; o homem nega qualquer sentimento de posse e assim, neste passo em falso \u2013 j\u00e1 que a mulher nada mais queria que n\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de aprova\u00e7\u00e3o \u2013 ele despenca para ouvir a verdade que ela guarda. Encarar a verdade pode ser algo danoso e irrevers\u00edvel, j\u00e1 que o pilar principal de qualquer rela\u00e7\u00e3o humana \u00e9 a mentira, ainda mais aquelas que buscam a prote\u00e7\u00e3o do outro, que querem evitar conflitos como os que estariam por vir. Quebrado o trato da rela\u00e7\u00e3o perante a verdade, a mulher assume um desejo antigo seu que seria, ele sozinho, capaz de faz\u00ea-la abandonar o homem para sempre. As palavras v\u00eam regadas com doses galopantes de crueldade, pois manter a verdade escondida por muito tempo faz com que ela saia com o m\u00e1ximo de for\u00e7a poss\u00edvel. Nesses momentos, \u00e9 deixada de lado a tal considera\u00e7\u00e3o social pelo outro e finalmente os homens s\u00e3o capazes de abandonar as m\u00e1scaras de suas personalidades. O que leva a mulher a falar \u00e9 seu estado de alucina\u00e7\u00e3o. Sendo assim, um estado \u201cnormal\u201d impossibilitaria qualquer acesso a essa verdade, sempre se fazendo necess\u00e1rio um impulso para tanto: uma droga, uma briga, uma raiva, uma trai\u00e7\u00e3o, o desejo. Se a mulher foi verdadeira ao sentir desejo e abdicou de sua necessidade em nome do relacionamento com o homem, ela assume assim sua parcela de mentira no desenvolvimento daquela uni\u00e3o. E assim, a desestabiliza. O homem \u00e9 chamado a confrontar um fato, a morte de um amigo. O fim daquela vida acontece simultaneamente ao fim da pr\u00f3pria vida que ele dividia com a mulher. Seus passos seguintes s\u00e3o solit\u00e1rios, no que concerne \u00e0 mulher, e ele se envereda numa busca pela consci\u00eancia de seus pr\u00f3prios sentimentos. Tentado pelo convite de uma prostituta, ele troca com ela um beijo que poderia vingar a trai\u00e7\u00e3o imaginada da mulher. No encontro com o amigo do passado, ele v\u00ea a possibilidade de uma vingan\u00e7a ainda maior, uma novidade mais tentadora. Se fantasiar para o tal novo \u00e9 deixar o velho para tr\u00e1s, usar uma m\u00e1scara para proteger sua identidade \u00e9 assumir seu desprezo inconsciente pelos m\u00e9todos sociais. Penetrar uma festa restrita, uma orgia marginal, onde rituais sexuais se confundem com os de cunho religioso, tudo ressoa como transgress\u00e3o moral. Se a moralidade fica de lado resta a tentativa da verdade nas sensa\u00e7\u00f5es. Mas o homem \u00e9 retirado dali \u2013 ou teria sido salvo? -, jogado para fora de tais possibilidades, obrigado a se reiterar de sua condi\u00e7\u00e3o de homem, m\u00e9dico, pai, marido, hip\u00f3crita. Ele volta para a mulher que nada sabe sobre o que ele vivenciou. O homem busca o amigo do passado, vai devolver a fantasia (mas esquece a m\u00e1scara), descobre a identidade de quem lhe avisou sobre os perigos daquela incurs\u00e3o no meio da noite, s\u00f3 que tudo parece fora de lugar, o leva a criar solu\u00e7\u00f5es para os problemas pontuados. O homem ouve de um amigo que naquela festa tudo foi encenado, nada era real. Mal sabia o homem que seu amigo estava certo, diante da l\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es. Se para que o homem seja ele mesmo \u00e9 necess\u00e1rio que ele saia de si, nunca \u00e9 poss\u00edvel estar diante da realidade quando se est\u00e1 consciente. Portanto, a inconsci\u00eancia do homem o destina ao que realmente existe, ao seu eu mais \u00edntimo. Na tentativa l\u00f3gica do homem em confrontar a si mesmo perante a mulher, ele derrapa em uma impossibilidade: a de viver perante a verdade. Ele diz a ela o que aconteceu, ela se entristece com tudo. Mas a conclus\u00e3o a que ela chega \u00e9 que foi bom para eles terem sa\u00eddo de tais situa\u00e7\u00f5es e estarem agora, um com o outro. A mulher admira o sonho, mas fica feliz de ter acordado. O homem deseja que este estado seja eterno. E, por fim, a mulher deseja, novamente, sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estava tudo muito claro nessa longa hist\u00f3ria, desde a primeira seq\u00fc\u00eancia. A mulher se despe, mas a mulher se veste em seguida, pois um estado natural n\u00e3o pode ser sustentado por muito tempo. O sexo como verdade \u00e9 poss\u00edvel desde que a maior parte das coisas seja ocultada e vivenciada somente de modo inconsciente, com os tais olhos fechados, como num sonho que ainda ir\u00e1 se encerrar. Ao acordar, ao se vestir, ao recobrar a consci\u00eancia, \u00e0 realidade, o reinado constante da hipocrisia social, para o bem de todos. Stanley Kubrick dirigiu assim seu \u00faltimo filme, um manifesto sobre a condi\u00e7\u00e3o humana imposs\u00edvel no campo da realidade. A mulher, Nicole Kidman. O homem, Tom Cruise. A orgia, todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram duas semanas e 14 textos (13 filmes e a introdu\u00e7\u00e3o) de rever\u00eancia ao grande mestre, mas eis que o Especial Stanley Kubrick chega ao fim. 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