{"id":666,"date":"2008-07-17T14:18:21","date_gmt":"2008-07-17T16:18:21","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=666"},"modified":"2008-07-17T14:18:21","modified_gmt":"2008-07-17T16:18:21","slug":"morte-em-veneza-luchino-visconti-1971","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/17\/morte-em-veneza-luchino-visconti-1971\/","title":{"rendered":"Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/i2.photobucket.com\/albums\/y10\/Culturegeek\/DiV-1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sabe quando voc\u00ea v\u00ea pega uma s\u00e9rie de \u00f3timos filmes para assistir e fica t\u00e3o satisfeito com todos eles que n\u00e3o consegue \u201ccatar\u201d uma obra-prima maior dentre todos eles, seja por estar assistino em muita quantidade os bons seguidamente, seja porque se sente padronizado a ador\u00e1-los igualitariamente, por n\u00e3o conseguir assumir uma prefer\u00eancia individual e prefere n\u00e3o os rotular como o supra-sumo justamente por este patamar de igualdade? Pois bem, isso vinha acontecendo comigo h\u00e1 quase dois meses; quando vi que obras-primas aparecem mesmo em s\u00e9ries maravilhosas de filmes, apesar de eu estar h\u00e1 quase uma semana sem ter visto filme algum. Morte Em Veneza \u00e9 destas preciosidades que s\u00e3o descobertas quando se menos espera: eu vira Noites Brancas justamente no \u00faltimo pacote e, apesar de ador\u00e1-lo, fiquei com um p\u00e9 atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o de perfeito que lhe vinha sido atribu\u00eddo. Morte Em Veneza, do mesmo Visconti, conseguiu convencer-me da riqueza e genialidade do seu autor, ao conferir um aspecto sentimental \u00fanico, de incomum devasta\u00e7\u00e3o e sobre o qual escrever algo a mais seria tornar a obra abaixo do merecido, clichezenta e melosa. Morte Em Veneza, desde o seu primeiro instante, impacta ao aliar o talento de dois g\u00eanios: Visconti e Gustav Mahler (efeito anteriormente s\u00f3 conseguido por Kubrick, num aspecto ir\u00f4nico, em Laranja Mec\u00e2nica; e de forma semelhante por Milos Forman em Amadeus). E \u00e9 por esta uni\u00e3o que se rompem quaisquer conven\u00e7\u00f5es na pr\u00f3pria cinematografia, conferindo a Morte um resultado ultra-rom\u00e2ntico na idealiza\u00e7\u00e3o de suas personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O professor Gustav von Aschenbach viaja de f\u00e9rias \u00e0 cidade veneziana. Aparentemente introspectivo, refinado e sem v\u00edcios, a pouca informa\u00e7\u00e3o de seu passado a que temos respeito chega aos poucos; em geral, por di\u00e1logos entre ele e Alfred, um suposto amigo seu que critica seu trabalho art\u00edstico, desde suas origens e inspira\u00e7\u00f5es. Visconti filma com singular maestreza Veneza, mas o mais importante \u00e9 real\u00e7ar a paix\u00e3o secreta que come\u00e7ar\u00e1 a se estabelecer entre o professor e um jovem loiro, Tadzio. Os closes de Visconti, repentinos e precisos, mostram a troca de olhares entre os dois, sendo que a primeira rea\u00e7\u00e3o ao olhar Tadzio \u00e9 de mera contempla\u00e7\u00e3o de beleza. A partir da\u00ed, come\u00e7a-se a buscar por alguma proposta no filme (partiria Gustav para cima de Tadzio; haveria alguma rela\u00e7\u00e3o do passado do professor com o rapaz), mas tal ca\u00e7ada logo mostra-se tola. O que Visconti evidencia \u00e9 o sofrimento de Gustav ao tentar reprimir a sua rea\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de desviar o olhar para a face de Tadzio, como se se culpasse por tal. Curiosamente, o homossexualismo sequer \u00e9 discutido nesta obra; e \u00e9 o que de menos importa, apesar de que, tenho certeza, deve ter causado \u2013 e causa ainda \u2013 cert a rejei\u00e7\u00e3o por parte do p\u00fablico. O pr\u00f3prio filme nega tal car\u00e1ter, num dos tais di\u00e1logos entre Alfred e Gustav, em que o segundo diz que a beleza \u00e9 espiritual, enquanto o primeiro classifica-a como uma jun\u00e7\u00e3o dos sentidos. Oras, se a espiritualidade fala mais alto a Gustav \u2013 e qui\u00e7\u00e1 a todos n\u00f3s \u2013 porque categoriz\u00e1-la por aspectos terrenos? O m\u00e9rito, todavia, deve-se \u00e0 pr\u00f3pria presen\u00e7a do jovem ator, que, com um sorriso disfar\u00e7ado, traduz o angelical e o tenro, como nas pinturas medievais em que pouco importava o carnal. Tal rela\u00e7\u00e3o com a arte vai ainda al\u00e9m: \u00e9 quando ocorre o supracitado encontro da m\u00fasica erudita com o cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na adapta\u00e7\u00e3o do livro de Thomas Mann para o cinema, Visconti aproveitou-se da personagem principal e dos recursos cinematogr\u00e1ficos de que dispunha para alterar uma caracter\u00edstica fundamental: Gustav \u00e9 um m\u00fasico e n\u00e3o um escritor, como no livro. Portanto, nada mais justo que colocar as duas maiores sinfonais de Mayer durante o filme. Isso faz com que as personagens expressem-se quase que unicamente pela forma de andar e olhar, como no cinema mudo, com o diferencial de que as poucas falas s\u00e3o encaixadas no momento certo (o \u201ceu te amo\u201d individual, isolado, e sem ecoar, a certo momento, \u00e9 terrivelmente castigante). E, enquanto andam por uma Veneza recheada de turistas \u2013 burgueses que muito falam num primeiro momento, mas aos poucos s\u00e3o suprimidos pela mera exist\u00eancia passional da dupla \u2013 e que \u00e9 corro\u00edda pela c\u00f3lera asi\u00e1tica, tocam as m\u00fasicas a preencherem as personagens, que coexistem com e como tais. Para quem pensasse o contr\u00e1rio, Visconti ainda insere duas cenas antol\u00f3gicas para comprovar a dualidade no filme. Numa delas, Gustav ouve Tadzio tocando F\u00fcr Elise e relembra-se de outro momento seu, em que tamb\u00e9m n\u00e3o foi capaz de chegar ao prazer carnal, torturando-se pela atra\u00e7\u00e3o pelos olhares com uma mulher e pela beleza da m\u00fasica, atra\u00e7\u00e3o esta que n\u00e3o se consagra, como no caso da paix\u00e3o em Veneza at\u00e9 ent\u00e3o. Numa outro, um grupo de m\u00fasicos que \u00e9 liderado por uma figura grotesca e banguela aparece no hotel \u2013 gera certo constrangimento, at\u00e9 porque as autoridades temem que ele revele algo sobre a doen\u00e7a para os visitantes \u2013, mas \u00e9 capaz de entreter aquela burguesia fanfarrona; enquanto que Gustav, apesar de estar diante de Tadzio, novamente permanece est\u00e1tico e finge maiores preocupa\u00e7\u00f5es com a desinfesta\u00e7\u00e3o de Veneza.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aos poucos, Visconti faz um filme riqu\u00edssimo de beleza e dor, ang\u00fastia e esperan\u00e7a. O caminho que Gustav procura seguir, ap\u00f3s ter confirma\u00e7\u00e3o do que chega a Veneza e chega a ele, homem adoentado, \u00e9 o de ver a morte, como a da filha e a da mulher, sem descambar em emo\u00e7\u00f5es (por isso as cr\u00edticas de Alfred \u00e0 sua m\u00fasica, que deveria ser mais libertada). Ele pr\u00f3prio se questiona sobre isso, por\u00e9m percebe que o dado momento de sua vida \u00e9 o de espera pela morte, pois sua \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o vista fora um total fracasso \u2013 a\u00ed entra o meu \u201csuposto\u201d amigo de Gustav, pois a rea\u00e7\u00e3o de Alfred \u00e9 de total castigo a ele, como se fosse uma mera figura interior e psicol\u00f3gico do pr\u00f3prio m\u00fasico, vide que sua mulher nada faz para afastar o presente na cena (e isso torna a leitura da obra ainda mais rica, mostrando que o professor teria um lado para se manifestar a todo momento, mas que s\u00f3 vem em sonhos e pensamentos moment\u00e2neos rapidamente aterrados) \u2013 e anda com a m\u00fasica para o t\u00famulo. \u00c9 curioso que um filme em que o par rom\u00e2ntico sequer troca conversas (e individualmente tamb\u00e9m falam pouqu\u00edssimo) tenha efeito t\u00e3o destrutivo durante v\u00e1rios trechos. O final, com um sol voltando sobre a praia veneziana enquanto os turistas v\u00e3o-se embora, \u00e9 o status quo da m\u00e1xima poesia cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Morte Em Veneza \u00e9 opressor e f\u00e9tido como o siroco; tem tra\u00e7os perfeitos e charmosos como Tadzio e explode em cena quando Dick Bogarde, Gustav Mahler e Visconti juntam-se para o sil\u00eancio nada confort\u00e1vel diante do turbilh\u00e3o de evoca\u00e7\u00f5es que passam pela alma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Cassius Abreu<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">ou: <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/17\/morte-em-veneza-luchino-visconti-1971-2\/\"><span style=\"color:#000000;\">Morte em Veneza<\/span><\/a> (Luchino Visconti, 1971) &#8211; Thiago Mac\u00eado Correia\u00a0&#8211; 4\/4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe quando voc\u00ea v\u00ea pega uma s\u00e9rie de \u00f3timos filmes para assistir e fica t\u00e3o satisfeito com todos eles que n\u00e3o consegue \u201ccatar\u201d uma obra-prima maior dentre todos eles, seja por estar assistino em muita quantidade os bons seguidamente, seja &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/17\/morte-em-veneza-luchino-visconti-1971\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[650,689,1365,1520,1521,2326],"class_list":["post-666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-death-in-venice","tag-dirk-bogarde","tag-luchino-visconti","tag-morte-a-venezia","tag-morte-em-veneza","tag-thomas-mann"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/666\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}