{"id":656,"date":"2008-07-16T19:27:55","date_gmt":"2008-07-16T21:27:55","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=656"},"modified":"2008-07-16T19:27:55","modified_gmt":"2008-07-16T21:27:55","slug":"persona-ingmar-bergman-1966","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/16\/persona-ingmar-bergman-1966\/","title":{"rendered":"Persona (Ingmar Bergman, 1966)"},"content":{"rendered":"<div class=\"mceTemp\" style=\"text-align:center;\">\n<dl class=\"wp-caption \">\n<dt class=\"wp-caption-dt\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.bergmanorama.com\/gallery5\/persona-13.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"491\" \/><\/dt>\n<dd class=\"wp-caption-dd\">Bibi Andersson\/Liv Ullmann<\/dd>\n<\/dl>\n<\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 de obras como Persona que se constr\u00f3i uma filmografia como um longo e absoluto tratado sobre a alma humana, e Bergman \u00e9 daqueles conhecedores cl\u00e1ssicos destes por\u00f5es, talvez o maior no cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 em Persona que o diretor sacramenta aquele seu jeito quase parasita de fazer cinema, sugando tudo tanto de uma situa\u00e7\u00e3o, de um conflito, quanto de suas atrizes\/personagens (e n\u00e3o se sabe ao certo onde termina uma e come\u00e7a outra), por conseq\u00fc\u00eancia entregando sua cuidadosa obra de arte a estas duas mulheres inacredit\u00e1veis. Tanto no sil\u00eancio como artif\u00edcio poderoso de express\u00e3o de Liv Ullmann quanto nos mon\u00f3logos encharcados de dor de Bibi Andersson. E \u00e9 em Persona que um di\u00e1logo mudo entre o filme e o cora\u00e7\u00e3o do espectador nunca fora t\u00e3o eloq\u00fcente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque tudo que n\u00e3o \u00e9 dito em Persona encontra facilmente os caminhos da alma de quem o assiste\/vive. Como o impacto daquelas primeiras imagens que ultrapassa uma necessidade de sentido \u201cpalp\u00e1vel\u201d para comp\u00f4-lo al\u00e9m de um n\u00edvel racional, o que n\u00e3o implica na perda do sentido, mas na sua amplifica\u00e7\u00e3o. Mais que visual ou textualmente, tudo \u00e9 resgatado ao longo do filme num c\u00edrculo mais profundo, o sensorial. A crucifica\u00e7\u00e3o, o close no olho do cordeiro que se aproxima, na lat\u00eancia da mem\u00f3ria, de v\u00e1rios outros, tanto nos olhos de Bibi Andersson quanto nos de Liv Ullmann, assim como na pr\u00f3pria caracteriza\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio, presente interinamente, como se estivesse numa segunda camada na celul\u00f3ide. E na seq\u00fc\u00eancia dos cr\u00e9ditos iniciais onde os focos representam a aus\u00eancia de foco, onde a disson\u00e2ncia de certo modo irritante se faz tamb\u00e9m no desarranjo mental de Elizabeth, traduzido por Bergman atrav\u00e9s de fragmentos r\u00e1pidos de vis\u00e3o num estado de cegueira muito mais grave que o f\u00edsico, como se Elizabeth tivesse apenas vislumbres quase impercept\u00edveis do seu meio, transformando sua vida numa sucess\u00e3o de elipses sem, portanto, uma conex\u00e3o entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 uma for\u00e7a brutal concentrada tanto no texto como nas imagens e que tece um Persona tel\u00farico no impacto de sua autoridade, composta ora de sil\u00eancio ora de verborragia como sobrenomes de suas personagens. Assim como em Lavoura Arcaica, onde Andr\u00e9 \u00e9 a literatura, Ana a imagem e os dois o cinema, Alma e Elizabeth se completam na inven\u00e7\u00e3o de uma linguagem que est\u00e1 sempre acima do que \u00e9 dito. O conto er\u00f3tico, por exemplo, \u00e9 um verdadeiro catalisador de imagens, assim como o di\u00e1logo repetido entre elas, sobre o filho de Elizabeth, como se Bergman instalasse um projetor na nossa imagina\u00e7\u00e3o, filmando cenas nos interiores das palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Fora o texto, as imagens tamb\u00e9m s\u00e3o imperativas no oceano de sua profunidade, atuando sempre na sugest\u00e3o da camale\u00f4nica rela\u00e7\u00e3o das duas, ora irm\u00e3s, ora amantes, ora m\u00e3e e filha. A cena do carinho em frente ao espelho e em seguida as duas entrela\u00e7ando os pesco\u00e7os, como se fossem duas cabe\u00e7as habitando um mesmo corpo, como se a todo tempo uma perfurasse e invadisse a outra, \u00e9 um resumo bel\u00edssimo do painel constru\u00eddo pelo sueco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Persona \u00e9 medo, culpa, dor, remorso, ci\u00fame. Um jogo de intoxica\u00e7\u00e3o pela mem\u00f3ria, de quebra e estilha\u00e7o de personalidades. \u00c9 o atestado absoluto de esquizofrenia dos extremos de \u00f3dio e amor n\u00e3o apenas bem mais pr\u00f3ximos do que se imagina, mas duas faces de um mesmo e nocivo indiv\u00edduo, porque a maldade \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o pura, \u00e9 o estado mais bruto e subterr\u00e2neo da alma.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">ou: <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/09\/01\/persona-ingmar-bergman-1966-2\/\">Persona<\/a> (Ingmar Bergman, 1966) &#8211; Thiago Duarte &#8211; 4\/4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bibi Andersson\/Liv Ullmann \u00c9 de obras como Persona que se constr\u00f3i uma filmografia como um longo e absoluto tratado sobre a alma humana, e Bergman \u00e9 daqueles conhecedores cl\u00e1ssicos destes por\u00f5es, talvez o maior no cinema. \u00c9 em Persona que &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/16\/persona-ingmar-bergman-1966\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[317,324,2526,1104,1349,1839],"class_list":["post-656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-bergman","tag-bibi-andersson","tag-cinema","tag-ingmar-bergman","tag-liv-ullmann","tag-persona"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=656"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}