{"id":641,"date":"2008-07-15T05:26:22","date_gmt":"2008-07-15T07:26:22","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=641"},"modified":"2008-07-15T05:26:22","modified_gmt":"2008-07-15T07:26:22","slug":"o-iluminado-stanley-kubrick-1980","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/15\/o-iluminado-stanley-kubrick-1980\/","title":{"rendered":"O Iluminado (Stanley Kubrick, 1980)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">O que ocorre em O Iluminado, exerc\u00edcio macabro de horror e hipnotismo de Stanley Kubrick, \u00e9 uma den\u00fancia. Melhor: uma acusa\u00e7\u00e3o. De Kubrick contra o espectador, semelhante ao que fazia Argento cinco anos antes. Trancados num universo de uma quietude e serenidade perturbadoras, por ironia os catalisadores da mais absoluta c\u00f3lera (das que talvez nenhum outro filme seja capaz de despertar), nos vemos sem uma base onde nos sustentarmos sen\u00e3o o pr\u00f3prio assassino.\u00a0Porque Kubrick teve a ousadia de confrontar o espectador com tudo aquilo que o ser humano mais se for\u00e7a a reprimir. A imensa maioria simplesmente n\u00e3o tem coragem, e se volta contra ele, terminando de todo modo voltando-se contra si mesmo, pois todos o temos dentro de n\u00f3s. Sim, sr. Jack Torrance, olhe-se no espelho abaixo, e boa leitura:<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/blogs.amctv.com\/monsterfest\/Jack%20Nicholson%20The%20Shining.jpg\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"319\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>O Iluminado (The Shining, 1980)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O simples e inofensivo ato de pensar estar na pele de Torrance \u00e9 intimidador, e talvez a fic\u00e7\u00e3o, mais especificamente o cinema, seja o \u00fanico modo de enfrentarmos algo que nos \u00e9 impl\u00edcito: a viol\u00eancia. Mesmo que contra as pessoas que mais amamos. E nenhuma outra obra representaria com tanta autoridade o saciamento deste desejo prim\u00e1rio, desta fome, da vaz\u00e3o sem culpa permitida pelo cinema a instintos que somos for\u00e7ados a reprimir por vivermos numa sociedade incondizente com os animais que inutilmente lutamos para esconder debaixo das roupas. \u00c9 em O Iluminado que Stanley Kubrick ensaia entregar uma v\u00e1lvula, um passaporte para aquele mundo onde podemos liberar raiva e f\u00faria acumuladas sem maiores problemas. Onde se ensaia o sentido mais bruto de \u201cliberdade\u201d, cortado ao meio pelo final feliz mais triste de todos os tempos, porque mesmo que eu ainda o ame, O Iluminado permanece o filme mais frustrante da minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">(Jack Torrance, um escritor bloqueado e fracassado, acompanhado pela mulher e seu filho, tem sob sua responsabilidade o Overlook Hotel ao longo de todo o inverno. O lugar \u00e9 um monstro de madeira e concreto incrustado no tronco das montanhas rochosas que, fora de temporada, permanece lacrado e absolutamente isolado pela neve durante longos e solit\u00e1rios cinco meses.)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas vamos por partes, como diriam os Jacks. Primeiro que ao mesmo tempo em que me magoa profundamente por perder a chance de ser meu filme favorito, O Iluminado \u00e9 uma das experi\u00eancias mais incisivas que um cin\u00e9filo pode encontrar, esquadrinhado de contornos cuidadosamente dispostos na ilus\u00e3o de um gradativo sufocamento. \u00c9 assim que Kubrick deixa uma sensa\u00e7\u00e3o de \u201cningu\u00e9m ouvir\u00e1 seus gritos\u201d bem clara desde a bel\u00edssima cena inicial, quando somos\u00a0levitados em um v\u00f4o panor\u00e2mico escoltando o modesto autom\u00f3vel de Jack Torrance que, tocado nas lentes dessa c\u00e2mera, parece escorregar\u00a0e abrir caminho virgem at\u00e9 os\u00a0umbrais do\u00a0Overlook. \u00c0 primeira vista, a impress\u00e3o \u00e9 que tanto o hotel quanto o pr\u00f3prio Jack s\u00e3o inofensivos. O primeiro est\u00e1 lotado, aconchegante, exala um clima de civiliza\u00e7\u00e3o que se dissiparia nos v\u00e1cuos abertos com a queda do inverno. O segundo \u00e9 simplesmente a pessoa mais simp\u00e1tica da terra. Os dois juntos, no entanto, s\u00e3o faces de um mesmo dem\u00f4nio, \u00e1guas de uma mesma correnteza de loucura alcan\u00e7ada atrav\u00e9s do fracasso pessoal, da solid\u00e3o e do desespero; s\u00e3o\u00a0o princ\u00edpio\u00a0de uma sensa\u00e7\u00e3o que simplesmente n\u00e3o se encontra em filme algum.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201c\u00c0s 5 da tarde vai parecer que ningu\u00e9m nunca esteve aqui\u201d. Nada poderia expressar melhor o que se sente atrav\u00e9s de Jack, Wendy e Danny,\u00a0depois que\u00a0o mundo deixa as montanhas rochosas para tr\u00e1s, que esta frase do gerente do hotel. N\u00e3o sei se era necess\u00e1rio dizer, mas provavelmente ningu\u00e9m saberia usar os largos sal\u00f5es e longos corredores do Overlook, contra os personagens, t\u00e3o bem quanto Kubrick. Basta lembrar do circuito tra\u00e7ado por Danny entre curvas, c\u00f4modos, salas, um corredor e outro&#8230; Algo parecia prestes a saltar na frente do garoto, e o som, sim, o som \u00e9 maravilhoso. O ru\u00eddo das rodas de pl\u00e1stico em atrito ora com o\u00a0piso e ora com os carpetes do hotel teria passado\u00a0como coadjuvante in\u00fatil, n\u00e3o fosse a m\u00e3o precisa do diretor sobre a edi\u00e7\u00e3o de \u00e1udio, que transforma\u00a0um simples\u00a0barulho numa trilha incompar\u00e1vel. O simples passeio de Danny torna-se t\u00e9trico e digno de olhos ardendo, vermelhos, atentos, distra\u00eddos ao fato de que j\u00e1 n\u00e3o piscam a algum tempo, apenas seguindo a steady cam que rasteja discreta atr\u00e1s daquele fr\u00e1gil triciclo.\u00a0E a\u00a0esta altura, j\u00e1 completamente imerso numa atmosfera de imin\u00eancia completamente inimit\u00e1vel, tente se lembrar da primeira vez que voc\u00ea viu O Iluminado. Tente resgatar aquela mesma sensa\u00e7\u00e3o, de quando Danny vira em mais um corredor e l\u00e1 est\u00e3o. Elas&#8230; Eu n\u00e3o contei exatamente quantas curvas o garoto faz, mas mesmo hoje, depois de ter visto a mesma cena setecentas e cinq\u00fcenta e duas vezes, o clima arrepiante pela simples espera da apari\u00e7\u00e3o certa daquelas duas garotinhas permanece eficiente. Ainda faz com que eu olhe pra tr\u00e1s e cheque os cantos obscuros da casa. Tudo ali \u00e9 iminente, tudo aponta para um ataque, f\u00faria, uma revolta do hotel. Como se n\u00e3o bastasse os ter engolido, agora Jack e sua fam\u00edlia s\u00e3o digeridos nas entranhas daqueles sal\u00f5es vastos e gradativamente claustrof\u00f3bicos, como se o concreto se contra\u00edsse e esmagasse aquelas pessoas, quebrando como palitos um a um dos seus suportes emocionais e psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 aqui que Jack Torrance come\u00e7a a ser afetado. Em primeiro lugar, pela frustra\u00e7\u00e3o e incapacidade de levar seu projeto adiante. Posteriormente, pelos \u201cfantasmas\u201d e eventos \u201csobrenaturais\u201d do Overlook.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando Wendy e seu filho Danny entram no labirinto, Kubrick utiliza-se de um recurso visual n\u00e3o apenas muito bonito, mas que explora ao m\u00e1ximo o potencial da cena e a traduz numa met\u00e1fora que funciona maravilhosamente bem (e \u00e9 quase imposs\u00edvel met\u00e1foras funcionarem). Somos acompanhados pelos becos estreitos do labirinto onde temos novamente a sensa\u00e7\u00e3o de que a qualquer momento iremos nos deparar com o horror. O que, de certa forma, n\u00e3o deixa de acontecer&#8230; Numa das salas do hotel, Jack observa uma maquete do labirinto. O verdadeiro agora \u00e9 mostrado em uma vista a\u00e9rea, onde Danny e Wendy caminham \u00e0 deriva at\u00e9 encontrarem o centro do lugar. Ali come\u00e7a a se manifestar um desejo retido de Jack, um ut\u00f3pico dom\u00ednio total sobre sua mulher e seu filho, perdidos numa situa\u00e7\u00e3o em que ele controla. Curioso tamb\u00e9m como em O Iluminado os dois grandes pontos de gravidade brilham alternadamente e em propor\u00e7\u00f5es dignas de um respeito muito bem dosado. Depois de um m\u00eas no hotel, fica vis\u00edvel a fragilidade da paz (silenciosa, mansa, insuportavelmente vaga,\u00a0esta paz que nunca foi uma maldi\u00e7\u00e3o t\u00e3o terr\u00edvel no cinema) no lugar quando Jack Nicholson\/Torrance surge, em uma das melhores e mais assustadoras imagens do filme, olhando fixo de baixo para cima pela janela, acessando tamb\u00e9m uma janela mental, transpassando para uma dimens\u00e3o de valores distorcidos de onde n\u00e3o se sai mais. E ele n\u00e3o pisca. Daquele momento em diante, fica imposs\u00edvel imaginar outro ator al\u00e9m do filho da puta do Nicholson no papel. Ele nasceu pra ser Jack Torrance. Ou o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aquele homem simp\u00e1tico, aquele chefe de fam\u00edlia amoroso que aceitou 5 meses de isolamento por sua mulher e seu filho, que nunca os machucaria, entra numa mec\u00e2nica cir\u00fargica de transi\u00e7\u00e3o. E um ponto-chave deste processo acontece quando Danny vai buscar um brinquedo no quarto e encontra o pai, sentado na cama. Cena INACREDIT\u00c1VEL, antol\u00f3gica, brilhante, absurda, intransfer\u00edvel \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do papel. Fica clara desde j\u00e1 a influ\u00eancia do hotel sobre Jack, principalmente quando este repete aquela inc\u00f4moda frase das garotinhas. Nunca um n\u00edvel t\u00e3o profundo de terror fora alcan\u00e7ado desta forma: a lat\u00eancia do perigo que Danny corre nas m\u00e3os do pr\u00f3prio pai, sentado no seu colo, \u00e9 de um mal-estar rec\u00f4ndito,\u00a0\u00a0uma dor muda, terr\u00edvel demais para se mostrar.\u00a0N\u00e3o h\u00e1 qualquer paralelo que possa ser tra\u00e7ado com este momento\u00a0no cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os efeitos corrosivos do hotel passam a modelar um Jack Torrance absolutamente imprevis\u00edvel, e a cena do pesadelo \u00e9 especialmente terrificante. E acho at\u00e9 que vou poup\u00e1-los da redund\u00e2ncia e nem citar mais a interpreta\u00e7\u00e3o inenarr\u00e1vel do cara. A partir de agora, toda vez que aparecer o nome dele voc\u00eas, por favor, associem. Daqui em diante, Jack toma para si um motivo para odiar e reprovar o comportamento de Wendy, sentindo-se injusti\u00e7ado pela acusa\u00e7\u00e3o da mulher e, posteriormente, por seu suposto objetivo em destruir todas as suas possibilidades de finalmente subir na vida. Wendy passa de companheira \u00e0 grande respons\u00e1vel pelo fracasso profissional do marido. \u00c9 aqui tamb\u00e9m que Jack passa a ter contato (bem freq\u00fcente, ali\u00e1s) com os \u201cfantasmas\u201d do Overlook.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muito da minha tristeza com o filme \u00e9 que, quando penso nele concebido a partir deste ponto, enxergo um gigantesco potencial para uma obra-prima incompar\u00e1vel. Dizem que na \u00e9poca Stephen King ficou alucinado com Kubrick por causa das in\u00fameras modifica\u00e7\u00f5es (cortes) na sua obra. Eu n\u00e3o li o livro (nem vou, pra mim s\u00f3 existe uma obra de arte chamada \u201cO Iluminado\u201d), mas est\u00e1 bem claro pra mim que Kubrick pegou o pano de fundo de O Iluminado e simplesmente tomou outro rumo com o\u00a0desenvolvimento do projeto. Segundo King, o cineasta transformou sua OP do horror num drama dom\u00e9stico. Est\u00e1 errado. Est\u00e1 infelizmente errado. Caso\u00a0O Iluminado\u00a0tivesse se assumido totalmente como um terror psicol\u00f3gico (e deixando claro: isto n\u00e3o significa necessariamente a dissolu\u00e7\u00e3o da ambig\u00fcidade na d\u00favida quanto \u00e0 realidade ou \u00e0 ilus\u00e3o afetando os personagens, pelo contr\u00e1rio, a d\u00favida permaneceria enxertada e apodrecendo na mem\u00f3ria do espectador), caso tivesse\u00a0apenas sugerido ao inv\u00e9s de factuar os\u00a0tra\u00e7os sobrenaturais do livro, os poucos elementos que ainda restavam dele, O Iluminado teria sido efetivamente o que quase foi: um filme sobre a degrada\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica promovida em um lugar onde as pequenas frustra\u00e7\u00f5es e desentendimentos entre o casal Torrance\u00a0s\u00e3o amplificados, colocados sob uma lente de aumento (a penetrante lente de Stanley Kubrick), revelando as fr\u00e1geis estruturas e conceitos de um homem sobre sua vida e suas prioridades distorcidas. E teria sido o maior filme do mundo, somado ainda ao pequeno detalhe quanto ao sucesso de Jack na sua &#8216;miss\u00e3o&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vistas sob esta premissa, as cenas\u00a0com\u00a0fundo sobrenatural\u00a0s\u00e3o especialmente perturbadoras. Tanto o di\u00e1logo entre Jack e Lloyd, como com seu \u201cmentor\u201d Grady, no banheiro vermelho. Ou a aversiva cena no quarto 237. A conta \u00e9 simples: os fantasmas dentro da cabe\u00e7a de Jack, funcionam. Fora, n\u00e3o (apesar de Danny e seu dedo falante servirem maravilhosamente bem na funda\u00e7\u00e3o de um instinto assassino contra ele). Conseq\u00fc\u00eancia da admir\u00e1vel op\u00e7\u00e3o e boa inten\u00e7\u00e3o do diretor ao reduzir (pra mim, ampliar, imensuravelmente) o horror sobrenatural DE KING a um horror dom\u00e9stico DE KUBRICK. Na verdade ele devia era ter mandado o King \u00e0 puta que o pariu e esquecido completamente do livro. King entenderia. N\u00e3o devia nem ter lido o livro, devia ter lido a sinopse.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A liberdade que Kubrick toma com o cozinheiro Halloram (que tinha outro destino no livro) \u00e9 um ind\u00edcio desta inten\u00e7\u00e3o, uma brincadeira maravilhosa com o p\u00fablico e principalmente com aquele f\u00e3 de Stephen King que n\u00e3o esperou uma adapta\u00e7\u00e3o, uma vis\u00e3o de outra pessoa sobre a obra, mas a pr\u00f3pria obra xerocada e descrita visualmente em detalhes. Isso um\u00a0cinegrafista de telejornal faz. Kubrick, n\u00e3o. Este tem o cuidado de iniciar uma sub-trama envolvendo a rela\u00e7\u00e3o de Danny com Halloram, de partir do filme atrav\u00e9s das insinua\u00e7\u00f5es paranormais do garoto, de mostrar tooooooda a odiss\u00e9ia percorrida pelo cozinheiro (identificado como a \u00fanica esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o de Danny e Wendy) para finalmente chegar l\u00e1 e&#8230; levar uma machadada no meio (e para as celebradas premoni\u00e7\u00f5es do pirralho &#8211; valorizadas inclusive pelo t\u00edtulo do filme &#8211; n\u00e3o servirem pra merda nenhuma). \u00c9 quando um \u201cih, fudeu\u201d cabe na boca de qualquer um que ainda torce pela mulher e pelo filho chato do pobre Jack.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pobre Jack&#8230; N\u00e3o sei quem inventou que O Iluminado \u00e9 um terror, um suspense, sei l\u00e1 o que&#8230; \u00c9 um drama, pesad\u00edssimo, dos mais depressivos. A triste hist\u00f3ria de um pobre e bom homem que fracassa (como tudo em sua vida) ao esquartejar sua mulher intrag\u00e1vel e seu filho insuport\u00e1vel. E \u00e9 engra\u00e7ado como um \u00fanico detalhe pode mudar INTEIRAMENTE um filme. Acontece com o final de O Samurai, de Jean Pierre-Melville. Sem aquela revela\u00e7\u00e3o de cinco segundas e uma frase, tudo se perderia. No caso de O Iluminado, se perdeu. Shelley Duvall consegue (involuntariamente, mas quem se importa) criar o personagem mais irritante e odi\u00e1vel de todo o cinema. E teria sido brilhante, caso um \u00fanico detalhe ocorresse: suas v\u00edsceras decorando os tapetes do hall de entrada do Overlook Hotel. N\u00e3o me entra na cabe\u00e7a que Kubrick tenha perdido a oportunidade de lavar a alma do espectador no sangue da piranha, ou a atirado ele mesmo da escada na qual a obrigou a repetir a mesma cena mais de 120 vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 no in\u00edcio da loucura total de Jack (ou, talvez, seu momento de mais pura sanidade) que se sust\u00e9m uma esperan\u00e7a rara de reden\u00e7\u00e3o, logo ap\u00f3s pegar sua mulher lendo o que ele escreveu durante todo o tempo. E isso \u00e9 das coisas que, apesar de tudo, me fazem amar DEMAIS O Iluminado. \u00c9 a\u00ed que Jack Torrance percorre o grande sal\u00e3o principal e sobe as escadarias pressionando Wendy, e n\u00f3s vamos com ele. Tudo \u00e9 perfeito, at\u00e9 mesmo a pr\u00f3pria Shelley Duvall, que tudo que faz \u00e9 chorar, solu\u00e7ar e balan\u00e7ar um taco de basebol. Copiaria o texto inteiro se pudesse, mas preciso citar um di\u00e1logo em especial. Algo que vai me fazer esperar e sempre querer rever O Iluminado apesar da sensa\u00e7\u00e3o profunda de frustra\u00e7\u00e3o que me resta com os cr\u00e9ditos. \u201cWendy, querida, luz da minha vida, eu n\u00e3o vou te machucar. Voc\u00ea n\u00e3o me deixa terminar a frase, eu n\u00e3o vou te machucar. S\u00f3 vou esmagar os seus miolos. Esmagar at\u00e9 o fim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cena que virou capa do filme est\u00e1 prestes a acontecer. A simples vis\u00e3o de Jack, manco, carregando aquele machado pelos corredores do hotel, j\u00e1 \u00e9 algo de estilha\u00e7ar a espinha. E Kubrick, um cirurgi\u00e3o preciso, opera os momentos finais de O Iluminado com quem escultura uma heran\u00e7a para a humanidade, como quem filma o \u00faltimo filme, quem escolhe como deseja ser lembrado. Ele traduz a f\u00faria de Jack para a tela, algo aparentemente imposs\u00edvel, ao acompanhar com movimentos r\u00e1pidos cada machadada desferida contra as duas portas, a do quarto e a do banheiro. \u00c9 hipnotizante, e de qualquer forma, n\u00e3o se esperaria nada diferente de um ling\u00fcista visual t\u00e3o habilidoso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muitos j\u00e1 devem saber, mas n\u00e3o custa citar aqui: a eterna frase \u201cHere\u2019s Johnny!\u201d (uma refer\u00eancia a Johnny Cash) n\u00e3o constava no roteiro, foi improvisada no calor do momento por Nicholson. Momento escolhido, em uma pesquisa realizada pela emissora inglesa Chanel 4, como o mais assustador da hist\u00f3ria do cinema. E tamb\u00e9m n\u00e3o falo mais nada. Pare entre este par\u00e1grafo e o outro, v\u00e1 l\u00e1 contemplar Jack Torrance arrebentando com a porta do banheiro, e volte aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de termos o gostinho de ver Jack matando Halloram (algo como um coito iniciado, mas interrompido mais tarde&#8230;), entre takes extremamente gargalhantes da sua mulher correndo, esvoa\u00e7ante, com aquela faca na m\u00e3o, como um dildo vibrando na \u00faltima pot\u00eancia, podemos nos embriagar de medo e tens\u00e3o em mais uma cena antol\u00f3gica: a persegui\u00e7\u00e3o no labirinto. E \u00e9 impressionante a quantidade de cenas fortes que recheiam O Iluminado, tornando-o, apesar de seus problemas (ou meus, como queira), um dos filmes mais marcantes e reassist\u00edveis que repousam empoeirados nas prateleiras de fundo das locadoras. Talvez at\u00e9 por isso ele veio a ser reerguido do tombo inicial apenas anos mais tarde (como j\u00e1 cansou de se repetir na hist\u00f3ria&#8230;). \u00c9 um cl\u00e1ssico, ganhou brilho com o tempo, provocou nas pessoas um desejo estranho de ser visto novamente, porque tem aquela cena, sim, aquela do banheiro, e aquela do labirinto, do rio de sangue&#8230; O Iluminado ganhou for\u00e7a o suficiente para se desprender da sombra do livro de King que tanto o perseguiu. S\u00f3 a apari\u00e7\u00e3o de Jack congelado no labirinto \u00e9 algo como um evento hist\u00f3rico, e\u00a0conseq\u00fcentemente, a cena mais triste do filme. \u00c9 torturante ouv\u00ed-lo gritar e gemer, mancando, morrendo de frio, ao ouvir o barulho do trator se distanciando, sem conseguir despeda\u00e7ar Danny e Wendy, depois de tanto sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o era Jack Torrance um louco reprimido, como, ouso dizer, todos somos? Qual a diferen\u00e7a entre matar e o desejo de matar quando\u00a0uma consci\u00eancia modelada desde a inf\u00e2ncia e as poss\u00edveis conseq\u00fc\u00eancias de tal ato\u00a0(quanto ego\u00edsmo, ora vejam) s\u00e3o as \u00fanicas coisas que nos freiam? N\u00e3o\u00a0estaria\u00a0na loucura repousado um \u00faltimo fio de sinceridade? Apesar de estar numa const\u00e2ncia g\u00f3tica, num v\u00edcio social, numa repress\u00e3o de sentimentos equiparada a uma repress\u00e3o sexual. Porque a livre vaz\u00e3o \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o condiz com\u00a0este novo estado racional, esta pe\u00e7a rec\u00e9m aprimorada e quase alien\u00edgena que luta o tempo\u00a0todo contra\u00a0as vontades do recipiente animal na qual foi incrustada. O ser humano \u00e9\u00a0fragilizado por esta esquizofrenia, esta inexist\u00eancia de um identidade, \u00e9 um est\u00e1gio intermedi\u00e1rio entre o animal e algum ser puramente racional que possivelmente nunca venha a existir. Enquanto isso, a nega\u00e7\u00e3o dos instintos, o que separa Jack de um cachorro, \u00e9 o que pode ser chamado de um estado constante de loucura, quebrada no evento de um dom\u00ednio sentimental absoluto. Porque Jack quis matar Danny e Wendy a vida toda, apenas precisou limpar sua cabe\u00e7a de completamente tudo\u00a0para perceber que as comportas da sua f\u00faria o estavam sufocando, e que ele precisava simplesmente abr\u00ed-las, que tudo ficaria\u00a0bem.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo assim, mesmo que eu me sinta irressarcivelmente lesado, como um apaixonado por cinema, por ter perdido entre os dedos o maior filme de todos os tempos, \u00e9 preciso se entregar diante do encontro de dois dos caras mais talentosos que j\u00e1 se meteram com essa 7\u00aa arte. E \u00e9 um duelo silencioso. Diante ou por tr\u00e1s das c\u00e2meras, Nicholson e Kubrick se revezam e se completam em alguns dos melhores momentos desses mais de cem anos de cinema. E Kubrick n\u00e3o deixa de se assinar explicitamente, inserindo uma \u00faltima imagem que embaralha todo o quadro perfeitamente montadinho e compreens\u00edvel que o espectador tinha ao final do filme. Porque Jack vive um ciclo e, amaldi\u00e7oado, acaba retornando ao hotel para ser enterrado nele. O diretor faz de Jack Torrance um resumo do seu pr\u00f3prio estilo. Um c\u00edrculo fechado, um pesadelo, um labirinto\u00a0infinito pelo qual, em toda obra com a ins\u00edgnia do Stanley, somos convidados a passear, a nos perder e a enlouquecer tentando nos encontrar. Pena que apenas quase deu certo.\u00a0Ter\u00edamos dado\u00a0de cara com um Jack Torrance manco e de machado na m\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Luis Henrique Boaventura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que ocorre em O Iluminado, exerc\u00edcio macabro de horror e hipnotismo de Stanley Kubrick, \u00e9 uma den\u00fancia. Melhor: uma acusa\u00e7\u00e3o. De Kubrick contra o espectador, semelhante ao que fazia Argento cinco anos antes. Trancados num universo de uma quietude &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/15\/o-iluminado-stanley-kubrick-1980\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[2526,1132,1272,1893,2174,2179,2241,2305],"class_list":["post-641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-cinema","tag-jack-nicholson","tag-kubrick","tag-psicopatia","tag-stanley-kubrick","tag-stephan-king","tag-terror","tag-the-shining"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}