{"id":630,"date":"2008-07-14T14:11:06","date_gmt":"2008-07-14T16:11:06","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=630"},"modified":"2008-07-14T14:11:06","modified_gmt":"2008-07-14T16:11:06","slug":"barry-lyndon-stanley-kubrick-1975-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/14\/barry-lyndon-stanley-kubrick-1975-2\/","title":{"rendered":"Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Comumente subestimado, em especial por estar localizado exatamente no meio da fase mais popular do diretor, Barry Lyndon permanece uma das obras mais belas j\u00e1 filmadas.\u00a0O amargo \u00e9pico de Kubrick ilustra talvez como nenhum\u00a0dos seus outros 12 longas o perfeccionismo, o apuro visual exasperado,\u00a0inteiro uma pintura em movimento. Basta\u00a0ter uma id\u00e9ia\u00a0pela imagem que ilustra o texto de Rodrigo jord\u00e3o (o editor do Cin\u00e9filos), d\u00e9cimo deste especial. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um quadro.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/blogs.suntimes.com\/scanners\/barry.jpg\" alt=\"\" width=\"504\" height=\"316\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Barry Lyndon (Barry Lyndon, 1975)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8220;Foi no reinado de George III que os personagens desta hist\u00f3ria viveram e brigaram. Bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, agora s\u00e3o todos iguais&#8221;. \u00c9 com essa declara\u00e7\u00e3o contundente e ironicamente desesperan\u00e7osa, que Kubrick encerra este que \u00e9, a meu ver (dos que assisti, claro), sua obra mais &#8220;limpa&#8221;, linear, s\u00f3bria, talvez at\u00e9 comum demais, para quem j\u00e1 viu 2001: Uma Odiss\u00e9ia No Espa\u00e7o e suas in\u00fameras indaga\u00e7\u00f5es existenciais,ou Laranja Mec\u00e2nica,e sua extravag\u00e2ncia est\u00e9tica. Barry Lyndon \u00e9 puramente lindo e s\u00f3 por isso j\u00e1 se basta. Muito se fala de sua fotografia \u00fanica, sua ilumina\u00e7\u00e3o natural (Kubrick dispensou o uso de ilumina\u00e7\u00e3o artificial, at\u00e9 mesmo em cenas noturnas, utilizando-se apenas de velas, emulando o tipo de ilumina\u00e7\u00e3o que era realmente utilizado na \u00e9poca, s\u00e9culo XVIII) e de como cada quadro do filme \u00e9 tratado como se fosse uma verdadeira obra de arte, evocando o hist\u00f3rico, nos proporcionando uma viagem deveras prazerosa \u00e0queles campos, \u00e0queles h\u00e1bitos, \u00e0queles tempos. Nada disso \u00e9 mentira, o mesmo impacto causado por suas demais obras, em Barry Lyndon, \u00e9 causado justamente por esse fator: a beleza, a perfei\u00e7\u00e3o de cada enquadramento, a quase inating\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O jovem irland\u00eas Redmond Barry (interpretado de forma &#8220;estranha&#8221; por Ryan O&#8217;Neal, como se fosse um boneco manipulado pela trama, sem poder reagir), \u00e9 apresentado inicialmente para n\u00f3s como um her\u00f3i rom\u00e2ntico,que demonstra sentimentos nobres, como a bravura e a pureza. Apaixona-se pela prima, a qual \u00e9 cortejada por um nobre do ex\u00e9rcito ingl\u00eas, resultando num duelo entre ele e seu opositor, que por vez resulta no afastamento de Barry do seio familiar, iniciando-se a\u00ed sua saga, ao refugiar-se em Dublim. Sofre um assalto no caminho,e para sobreviver ingressa no Ex\u00e9rcito Brit\u00e2nico, desertando algumas batalhas;\u00a0 depois, sendo capturado e recrutado pelo ex\u00e9rcito da Pr\u00fassia, onde torna-se espi\u00e3o a servi\u00e7o do Capit\u00e3o Potzdorf, que o encarrega de espionar um certo Chevalier de Balibari, ao qual decide se aliar \u2013 ao inv\u00e9s de espion\u00e1-lo, auxiliando-o em suas atividades dentro da elite europ\u00e9ia \u2013 o que lhe abre o caminho para vir a conhecer (e casar-se) com a Senhorita Lyndon, de quem herda o sobrenome pomposo. Estabelecido na aristocracia, por\u00e9m muito endividado, sofrendo com a morte do filho que teve com Lyndon e tendo que enfrentar a desaprova\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de seu enteado \u2013 que o julga como um aproveitador \u2013 Barry Lyndon vai afundando lentamente em sua pompa, cada dia menos pomposa, de aristocrata ascendente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A forma como o enredo nos \u00e9 apresentado, com uma narra\u00e7\u00e3o que nos aproxima dos fatos e da hist\u00f3ria, muitas vezes at\u00e9 revelando coisas que ainda nem aconteceram, envolve, por ser permeada por reviravoltas; o que conseq\u00fcentemente resulta em mudan\u00e7as constantes na forma como vemos Barry, o protagonista, que de forma gradual, sutil e incrivelmente coesa, passa de her\u00f3i rom\u00e2ntico para tirano detest\u00e1vel e sem escr\u00fapulos, sem jamais parecer &#8220;for\u00e7ado&#8221;. Entendemos, no nosso \u00e2mago,que Barry mudou porque foi levado a isso, pelos acontecimentos e consequ\u00eancias que o marcaram desde sua fuga, ap\u00f3s o duelo sem recompensa (apesar da vit\u00f3ria) com o nobre do ex\u00e9rcito ingl\u00eas. Estaria Kubrick,mais uma vez,manipulando nosso senso de certo\/errado? A beleza est\u00e9tica do filme serviria para ocultar, de forma propositadamente p\u00fadica, algo n\u00e3o t\u00e3o belo?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O filme termina com um segundo duelo, dessa vez com Barry saindo derrotado. E sem uma das pernas. A pausa feita na \u00faltima cena em que ele \u00e9 mostrado, subindo em uma charrete, e desequilibrando-se, devido \u00e0 deficiencia f\u00edsica, funciona de forma a poupar Barry, o nosso her\u00f3i rom\u00e2ntico (e nos poupar tamb\u00e9m), daquela \u00faltima vergonha, da derrocada vexat\u00f3ria que aquela cena causaria \u00e0 forma elegante e plena como tudo nos tinha sido apresentado.\u00a0 N\u00e3o o vemos trope\u00e7ar e cair, de forma pat\u00e9tica, antes de subir na charrete; mas sabemos que ele caiu, terminando da mesma forma como come\u00e7ou. &#8220;Bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, agora s\u00e3o todos iguais&#8221;. \u00c9 assim que Kubrick nos joga na cara a indaga\u00e7\u00e3o eternamente pertinente em nossa exist\u00eancia, em torno dos rumos que damos \u00e0 nossa vida, em torno de atitudes que julgamos serem as mais aceit\u00e1veis para uma vida sadia em sociedade, em torno de um car\u00e1ter que moldamos para apresentarmos aos outros, aos pouquinhos, enfrentando \u2013 e muitas vezes confrontando \u2013 os percal\u00e7os que nos s\u00e3o apresentados. Tudo isso para, no fim, nos indagarmos, rendidos \u00e0 fadiga de uma vida longa e sem volta: &#8220;Serei punido\/Serei recompensado\/Foi tudo em v\u00e3o&#8221;? Barry Lyndon, como eu disse no princ\u00edpio, \u00e9 um filme admiravelmente belo, quase n\u00e3o permitindo a n\u00f3s uma an\u00e1lise que passe de uma mera percep\u00e7\u00e3o e vislumbramento de sua&#8230; beleza. Pode n\u00e3o ser o melhor filme da filmografia de Kubrick, afirmar isso da filmografia de quem quer que seja \u00e9 absolutamente subjetivo, mas \u00e9, provavelmente, o que atesta com mais veem\u00eancia sua condi\u00e7\u00e3o de diretor extremamente aplicado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Rodrigo Jord\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comumente subestimado, em especial por estar localizado exatamente no meio da fase mais popular do diretor, Barry Lyndon permanece uma das obras mais belas j\u00e1 filmadas.\u00a0O amargo \u00e9pico de Kubrick ilustra talvez como nenhum\u00a0dos seus outros 12 longas o perfeccionismo, &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/14\/barry-lyndon-stanley-kubrick-1975-2\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[291,2526,1272,2174],"class_list":["post-630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-barry-lyndon","tag-cinema","tag-kubrick","tag-stanley-kubrick"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/630\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}