{"id":607,"date":"2008-07-13T03:55:13","date_gmt":"2008-07-13T05:55:13","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=607"},"modified":"2008-07-13T03:55:13","modified_gmt":"2008-07-13T05:55:13","slug":"laranja-mecanica-stanley-kubrick-1971","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/13\/laranja-mecanica-stanley-kubrick-1971\/","title":{"rendered":"Laranja Mec\u00e2nica (Stanley Kubrick, 1971)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Todo domingo \u00e9 domingo de praticar um pouco de ultraviol\u00eancia e do bom e velho in-out-in-out, por que n\u00e3o&#8230; A bel\u00edssima ode \u00e0 viol\u00eancia de Stanley Kubrick n\u00e3o apenas se conserva intocada como protagoniza um verdadeiro fen\u00f4meno nestes \u00faltimos tempos. A recente descoberta do filme pela nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 um abrir de portas tanto para\u00a0o restante da\u00a0filmografia de Kubrick como para o pr\u00f3prio cinema, e o nosso p\u00fatrido anci\u00e3o Cassius Abreu n\u00e3o esconde fazer parte deste grupo cada vez maior que embarca na\u00a0s\u00e9tima arte\u00a0atrav\u00e9s do incompar\u00e1vel\u00a0Laranja Mec\u00e2nica:<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;\" src=\"http:\/\/img120.imageshack.us\/img120\/2162\/laranjampgr1.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"290\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Laranja Mec\u00e2nica (A Clockwork Orange, 1971)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9ramos eu, ou seja, o vosso fiel comentarista, e sua aliena\u00e7\u00e3o ignorante, ou seja, um bloqueio \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o perante as farsas humanas e mundanas. Era novembro de 2005 e eu me encontrava com Laranja Mec\u00e2nica nas m\u00e3os, pela simples e ris\u00edvel raz\u00e3o de entender o porqu\u00ea de a sele\u00e7\u00e3o holandesa, rec\u00e9m-classificada para a Copa do Mundo de Futebol, ser chamada de \u201ca nova Laranja Mec\u00e2nica\u201d. O que viria a seguir: duas horas da mais eletrizante, perfeita e completa obra-prima da hist\u00f3ria cinematogr\u00e1fica; transformando outrora vis\u00f5es hip\u00f3critas de uma sociedade aberrante nos erros em uma transcend\u00eancia de cenas inesquec\u00edveis e pensamentos duradouros por toda a sua vida. Provavelmente, Deus \u2013 em seu recanto no c\u00e9u \u2013 procurava alguma forma de mostrar \u00e0 humanidade seus pecados mortais e os julgamentos inescrupulosos que ela faz. Assim, ele apontou para a Terra e deu um dom divino a Stanley Kubrick. Passados alguns anos da carreira de Kubrick, Ele fez com que o diretor encontrasse o livro de Anthony Burgess, capaz de lhe gerar uma vontade incr\u00edvel em adapt\u00e1-lo para as telas Para tanto, precisaria de uma atua\u00e7\u00e3o perfeita e, para isso, o Criador colocou em Malcolm McDowell uma aura t\u00e3o sublime e que se fez presente em todo o processo de filmagens. Tudo nos trinques, faltava um detalhe: para \u201cajudar\u201d a roteiriza\u00e7\u00e3o de Kubrick, eis que a edi\u00e7\u00e3o do livro, figurada nos Estados Unidos do come\u00e7o da d\u00e9cada de 70, tinha o seu final cortado. A partir disso, ficou tudo nas m\u00e3os de Stanley e seu time, nada menos que a perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O livro de Burgess caracteriza o termo \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d como vindo de uma express\u00e3o inglesa: as queer as a clockwork orange (t\u00e3o esquisito quanto uma laranja mec\u00e2nica). Partindo do t\u00edtulo e suas disseca\u00e7\u00f5es, a genialide inspiradora kubrickiana come\u00e7a com quebra de todas os paradigmas convencionais, quando prop\u00f5es ao espectador perguntar de o filme ter tal t\u00edtulo. Seria apenas uma refer\u00eancia \u00e0s esquisitices deixadas por seu roteiro magn\u00edfico? Cabe a cada um analisar e deixarei minha avalia\u00e7\u00e3o mais para diante. Eis que os pilares motivacionais aqui erguidos duelam sobre a sociedade e seus malef\u00edcios: Alex DeLarge \u00e9 um jovem, que se diverte \u00e0s custas da perda dos outros, isto quer dizer estrupar, chutar, rir ironicamente, at\u00e9 capaz de matar. Para deixar o espectador adentrado no seu mundo, Kubrick n\u00e3o se priva de seq\u00fc\u00eancias antol\u00f3gicas para a S\u00e9tima Arte e mostrando que n\u00e3o est\u00e1 ali para provocar uma descontra\u00e7\u00e3o em que for alugar o filme. Para tanto, o que ocorre \u00e9 uma jun\u00e7\u00e3o perfeita de o mundo contempor\u00e2neo humano com o, aparentemente, ficcional da obra em xeque. Como se fosse colocado diante de n\u00f3s o que est\u00e1 \u00e0 volta, circundando-nos. E somos incapazes, pelas conspira\u00e7\u00f5es alienadoras em que estamos afundados, de perceber. Rousseau j\u00e1 dizia que nossa mente \u00e9 uma t\u00e1bula rasa e todas as nossas impress\u00f5es s\u00e3o frutos das conviv\u00eancias terrenas. Sabiamente, as elites \u2013 captando a ess\u00eancia do recado de Rousseau \u2013 fizeram e fazem a quest\u00e3o de deixarem pobres cidad\u00e3os com sua mente ainda rasa. Kubrick foi al\u00e9m de Rousseau e previu a cat\u00e1strofe que viver\u00edamos e vivemos, permeada de enfadonhos \u201cl\u00edderes\u201d apontando o dedo para outros, enquanto a grande massa vive deixada de lado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que ocorre se h\u00e1 tantas desigualdades e aus\u00eancia de um bem-estar \u00edntimo, estratificadas em bens de consumo? H\u00e1 aqueles descontra\u00eddos que arranjam um novo jeito; e deste grupo faz Alex, um \u201cproduto subversivo\u201d de erros daqueles que se v\u00eaem l\u00e1 em cima por longos e longos tempos. O filme seria apenas um tiroteio, sem gra\u00e7a, por\u00e9m se n\u00e3o tivesse a for\u00e7a dos dotes e dons vision\u00e1rios de seu autor, dignos de estarem como clich\u00ea b\u00e1sico em cada coment\u00e1rio. A partir da narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa, nada \u00e9 previs\u00edvel; mas nada \u00e9 irreal, vindo de um del\u00edrio. Kubrick convida o espectador a um passeio com Alex DeLarge e seu modo de vida; neste passeio, encontrando em cada part\u00edcula da sociedade, uma fonte de cr\u00edtica (e por que n\u00e3o ridiculariza\u00e7\u00e3o?). Entra aqui a fun\u00e7\u00e3o primordial de Malcolm McDowell, na atua\u00e7\u00e3o mais pol\u00eamica, c\u00ednica, bizarra e digna de destrinchar cada frame, cada aspecto de sua personagem e a estrutura externa que a comp\u00f5e. MacDowell permite que n\u00f3s entremos com ele, e assim, ficamos em uma situa\u00e7\u00e3o esquisita \u2013 para quem estiver passando pela sala, enquanto voc\u00ea v\u00ea o filme \u2013 rindo do ataque a \u201cpiroscadas\u201d ou de um velho irland\u00eas sendo chutado. Entra aqui um cerne muito particular e digno de levantar pessoas \u201ctradicionais\u201d ao absurdo: o exagero, a caricatura da viol\u00eancia. Provavelmente, quem deixar de assistir \u00e0 obra at\u00e9 seu final ficar\u00e1 com uma vis\u00e3o errada de que o filme incita a viol\u00eancia: na realidade, Kubrick quis deix\u00e1-la de uma maneira mais realista e convidativa poss\u00edvel para o seu final. Neste ponto, o narrador em off de primeira pessoa, d\u00e1 um banho, porque seu estilo provocativo leva-nos \u00e0 torcida e \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o dos valores sociais; culminando no \u00e1pice da tristeza, com o retorno de Alex para a casa \u2013 e a reclusa de seus pais a ele. Al\u00e9m de conter uma narrativa encaix\u00e1vel apenas \u00e0 sua obra (hipnotizadora e clar\u00edssima para o entendimento da obra), a leitura do filme \u00e9 complementada com a l\u00edngua nadsat \u2013 um misto de russo, ingl\u00eas e g\u00edrias inventadas por Burgess \u2013 que apesar de ser exagerada e dificultar o andamento do livro, ressoa singular e linda no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Passado o deleite de termos Alex em sua fase gloriosa, ele \u00e9 preso e, por determina\u00e7\u00e3o, arrojo e coragem, acaba por participar de um ousado tratamento financiado pelo governo: o tratamento Ludovico. Nele, o paciente \u00e9 condicionado a uma s\u00e9rie de exibi\u00e7\u00f5es de pequenos filmes com cenas de viol\u00eancia e sexo. O intuito: tirar o sadismo e a sede por aqueles pecados do criminoso, por meio de uma rea\u00e7\u00e3o anulat\u00f3ria. Depois disso, \u00e9 que come\u00e7a o show de porqu\u00eas e comos, capaz de propiciar uma sensa\u00e7\u00e3o ecstasiante, jamais vista numa sess\u00e3o de cinema. Alex (e, subentenda-se, os jovens marginais como ele) \u00e9 apontado como o culpado, o errado, o vil\u00e3o por todas as perf\u00eddias existentes em um pa\u00eds de tend\u00eancias pol\u00edticas. Mas at\u00e9 onde vai o erro de Alex? Ou melhor, onde come\u00e7a o erro dele? Quando acaba o dos elitistas poderosos e soberanos \u2013 se \u00e9 que eles acabam? Por que os dedos virados para um cidad\u00e3o que pegou aquela poeira toda em que vivia e fez dela apenas o que achava poss\u00edvel? Voltando ao tratamento, quem disse que ele curava? A partir do momento em que deixamos de poder reagir, podemos ser considerados \u201cbons\u201d ou apenas figurinhas marcadas? Cabe a cada um julgar ardentemente as propostas que o filme apresenta-nos e agir perante o que se foi evidenciado. Aplicar no presente, o que o passado j\u00e1 dizia sobre o futuro. Procurar a \u201ccura\u201d &#8211; que tal, encontr\u00e1-la numa trag\u00e9dia? Aqui a dire\u00e7\u00e3o de Kubrick \u00e9 t\u00e3o fundamental, por n\u00e3o tomar partido ou tornar influente seu ponto de vista, que qualquer \u00e1urea, qualquer pr\u00eamio que lhe fosse dado seria incapaz de coroar a divindade que se assinalou durante este seu trabalho \u2013 e, de um modo geral, sobre sua carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que eu mais valorizo em Laranja Mec\u00e2nica, contudo, n\u00e3o s\u00e3o suas discuss\u00f5es primordiais; mas sim, detalhes que cortam e cutucam levemente cada peda\u00e7o da insignific\u00e2ncia de perfis humanos tra\u00e7ados como normais e integrados a um jeito de vida comum, que \u2013 quando afrontados diante do \u201cperigo\u201d DeLarge \u2013 mostram-se almofadinhas. A come\u00e7ar pelos pr\u00f3prios pais de Alex: como teriam eles relev\u00e2ncia para o garoto, se n\u00e3o se importam com ele; n\u00e3o o educam da maneira que podem e, ao inv\u00e9s de tentar ajudar o filho no seu momento de sofrimento, preferem esquec\u00ea-lo e voltar \u00e0s vidinhas toscas, com trocas de perucas e caf\u00e9s da manh\u00e3&#8230; Procuram-no apenas quando a ferida interior fala mais alto que seus desejos mesquinhos de ter um quarto alugado para um novo filho. Ora, n\u00e3o diz a B\u00edblia que devemos celebrar a volta do filho pr\u00f3digo? \u201c\u00c9 uma forma de mostrar o meu agradecimento ao Senhor\u201d, deve ter pensado Stanley ao desenvolver a cena com os esp\u00edritos celestes circundando-o. E, se voc\u00ea pensa que Alex era um incompetente tamb\u00e9m e que nada podia reclamar, aguarde a cena mais triste da obra, no retorno \u00e0 casa e o rejeito de seus pais perante um desconsolo de algu\u00e9m que sofreu, sofreu, sofreu para&#8230; sofrer. Novamente, vale ressaltar a import\u00e2ncia do diretor em colocar numa \u00fanica cena todo o resumo doloroso de sua obra, sem ultrajes ou imposturas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A \u00fanica coisa substancial para avaliar Alex feita por seus pais \u00e9 contratar um assistente terap\u00eautico \u2013 Deltoid \u2013, por falta de um termo melhor, interpretado magistralmente por Aubrey Morris: uma figura rid\u00edcula, egoc\u00eantrica e nojenta (\u201cFa\u00e7a por mim, menino Alex\u201d) que, ao olhar para seu paciente, nosso her\u00f3i, enxerga-o como um \u201ccarimbo preto\u201d (a mais ou a menos) e tem seus atos constru\u00eddos na base do bel-prazer e da satisfa\u00e7\u00e3o pessoal. Seu risinho provido de muito \u00f3dio e seu cuspe na cara de Alex comprovam a for\u00e7a de Morris e a reinterpreta\u00e7\u00e3o de pessoas como Deltoid. Na delegacia, por sinal, encontramos a figura de uma pol\u00edcia autorit\u00e1ria por debaixo dos panos, que age mais sanguinariamente que os encarcerados. O aparato da pris\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o funciona, porque nele os criminosos aprendem novas t\u00e9cnicas e pr\u00e1ticas mal\u00e9volas. Outro destaque fica para Michael Bates, o guarda com palavras e a\u00e7\u00f5es conduzidas \u2013 pelo imagin\u00e1rio \u2013 a um oficial fascista, inclusive a maquiagem dele \u00e9 semelhante ao estilo germ\u00e2nico nazista. \u00c9 nesta pris\u00e3o que aparecer\u00e1 o Ministro do Interior (Anthony Sharp, falarei mais adiante), com uma nova t\u00e1tica para com a erradica\u00e7\u00e3o de falhas no sistema social em que se baseia sua pol\u00edtica: a inser\u00e7\u00e3o do Tratamento Ludovico. Aqui, \u00e9 obrigat\u00f3rio abrir um par\u00eantese a fim de lembrar o jeito rend\u00e1vel com que Kubrick trabalha a pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Laranja Mec\u00e2nica foi al\u00e9m dos paradigmas espa\u00e7o-temporais e tamb\u00e9m na sua cultura politico-econ\u00f4mica. Vigorava, naqueles tempos, a j\u00e1 comentada Guerra Fria. Assim sendo, seria totalmente errada uma atitude de inserir aquela sociedade num regime espec\u00edfico e explicito. Kubrick mostra que o erros est\u00e1 em tudo e todos, desde aos pr\u00f3prios ideais da Guera Fria (voltada para a corrida armamentista e espacial: \u201cMen In The Moon\u201d, diz o irland\u00eas espancado, enquanto \u201cAqui, na Terra, os jovens batem nos velhos sem qualquer d\u00f3\u201d) quanto \u00e0s formas de regime: o autoritarismo \u2013 ao qual fica claro pela atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia nos bastidores e ao rumo final do Partido do Ministro do Interior \u2013 referente aos sovi\u00e9ticos e o capitalismo \u2013 refletido pela concorr\u00eancia, jornais livres e desigualdades sociais. Mas h\u00e1 el\u00edpticos fatores que elevam, ainda mais, o conceito sobre a obra: quando, no seu final, a estrutura pol\u00edtica \u00e9 determinada por uma via absolutista (dita pelo Mr. Alexander, o escritor) capitalista (inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, como o pr\u00f3prio Tratamento Ludovico e a, cada vez maior, diferencia\u00e7\u00e3o de camadas \u2013 o grupo de velhinhos tem um n\u00famero consider\u00e1vel agora), que de certa forma foi uma aposta certa \u2013 implantado, inclusive em nosso Brasil. Se parecemos livres de um regime fechado, basta (re)assistir Laranja Mec\u00e2nica e olhar para o pr\u00f3prio umbigo que veremos: n\u00e3o faz tanto tempo assim, nem estamos t\u00e3o distantes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes de comentar sobre a parte mais caudalosa e deliciosa destes detalhes triunfais, que s\u00e3o os referentes \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es, a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es da \u201ccura\u201d promovida pelo Dr. Brodsky e sua turma; pequeninas curiosidades e aspectos relevantes que fazem de Laranja Mec\u00e2nica a obra completa, como mencionei l\u00e1 no come\u00e7o, mais completa da hist\u00f3ria humana. Quando passeia pela loja de discos, Alex encontra um disco de vinil de 2001 \u2013 apenas uma coincid\u00eancia? Talvez; mas acredito que Kubrick tivesse colocado uma amostra da influ\u00eancia que suas obras exerceram e exercem, tanto entre si, como para o futuro\/presente. A dire\u00e7\u00e3o de arte tamb\u00e9m \u00e9 perfeita por tornar aliados os elementos futur\u00edsticos (tem certeza de que n\u00e3o viu? Perceba os objetos e o enquadramento novamente), nada exagerados, com locais rudimentares e decadentes de Londres, novamente sem exagerar com locais \u00f3bvios que poderiam desprover o filme do fator identifica\u00e7\u00e3o. A maquiagem tem seu valor subestimado demais: minha prima, que deu uma olhada no pr\u00f3logo do filme, n\u00e3o acreditou quando eu disse que aquele rapaz sorridente era o mesmo que come\u00e7ara de forma sinistra tomando leite-com. Por fim, h\u00e1 aqueles detalhes providenciais que mexem com qualquer obra: ao saber que McDowell temia cobras, Kubrick fez quest\u00e3o de coloc\u00e1-la como amiga; McDowell entregou-se tanto e Kubrick estimulou-o tanto que o ator arranhou a c\u00f3rnea (ficando temporariamente cego), quebrou as costelas e quase morre afogado, por causa de um problema no aparelho de respira\u00e7\u00e3o sub-aqu\u00e1tico. Um aprova da dedica\u00e7\u00e3o inenarr\u00e1vel e entregue a Deus. E chegamos ao encontro dos dois maiores g\u00eanios em suas respectivas \u00e1reas: Ludwig Van Beethoven e Stanley Kubrick. Apenas esta jun\u00e7\u00e3o, inimagin\u00e1vel, vale rever, e rever, e rever, e rever, e rever Laranja Mec\u00e2nica. Comente-se que foi uma id\u00e9ia pr\u00f3pria do diretor, uma vez que no livro Alex era f\u00e3 de m\u00fasicas cl\u00e1ssicas em geral, por\u00e9m, apenas um Beethoven tem um valor equivalente a um Kubrick, certo?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Chegamos ao ponto sumo do filme. Chegamos a um ponto em que qualquer opini\u00e3o ser\u00e1 subjetiva. Apesar disso, n\u00e3o poderia deixar passar esta chance para colocar as inter-liga\u00e7\u00f5es que mexem e radicalizam a forma de se encerrar uma obra-prima. Voltando tr\u00eas par\u00e1grafos, parara no Ministro do Interior \u2013 Frederick &#8211; e Anthony Sharp, que nos brinda com a atua\u00e7\u00e3o mais \u201cverdadeira\u201d de toda a obra. Seu Ministro \u00e9 uma pessoa boazinha de apar\u00eancia, mas manipuladora na ess\u00eancia, rege todos como bonecos e marionetes (inclusive, a seq\u00fc\u00eancia cl\u00e1ssica da exibi\u00e7\u00e3o de um \u201cnovo Alex\u201d introduzida pelo pr\u00f3prio Fred conta com uma teatraliza\u00e7\u00e3o, ideal para os seus valores, na dire\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o). Costurando com o Dr. Brodsky, o m\u00e9dico criador da experi\u00eancia, uma chance de deixar ainda mais escondidas as falhas de sua sociedade, de seu governo \u2013 que se diz revolucion\u00e1rio, e que volta a encobertar da popula\u00e7\u00e3o a realidade (s\u00f3 que, desta vez, evidenciando algo). E este algo \u00e9 o tramamento mais contradit\u00f3rio, que deixar\u00e1 ainda mais abertas as veias entupidas e paradas, im\u00f3veis daquele pa\u00eds \u2013 ou melhor, do nosso Planeta. Come\u00e7ando pela pr\u00f3pria teoria \u2013 no papel \u2013 do Tratamento Ludovico: seus defensores diziam que o Estado fazia errado em prender, tratando a viol\u00eancia com a viol\u00eancia. Estavam certos at\u00e9 a\u00ed. Ocorre que eles pr\u00f3prios rendem-se \u00e0 viol\u00eancia psicol\u00f3gica; ainda mais severa que a viol\u00eancia dos druguis nas ruas. Naquele mesmo show, o que tem atitudes manique\u00edstas para com Alex \u00e9 aplaudido, numa invers\u00e3o alucin\u00f3gena de aspectos. O erro fica mais claro, por\u00e9m, quando Alex sai da cadeia e recebe a viol\u00eancia, sofrendo ainda mais: os \u00f3rg\u00e3os estatais s\u00e3o burocr\u00e1ticos e empregam os ex-comparsas de Alex, em troca de uma suposta garantia em desestimular as atrocidades. Mas, como bem sabemos no Brasil, a pol\u00edcia consegue superar os bandidos no quesito \u201cfalta de carinho\u201d. N\u00e3o apenas por bater, como j\u00e1 batia desde o come\u00e7o da obra, mas tamb\u00e9m ser incompetente na escolha de seus funcion\u00e1rios e no pagamento. O que era infeliz vira tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A outra pol\u00eamica envolvida em Laranja Mec\u00e2nica \u00e9 o sexo, a nudez, novamente relida de maneira chocante por Kubrick. Reaparecem os que dizem que o filme incita a tal pr\u00e1tica; e com eles, as novas quest\u00f5es crucias de Kubrick. A sociedade culpava Alex por maltratar as mulheres e jovens, al\u00e9m de adorar o velho in-out-in-out. S\u00f3 que faltava voltar-se para si, e a situa\u00e7\u00e3o de como ele \u2013 sexo \u2013 estava enraizado fica exibida pela te\u00f3rica \u201cv\u00edtima sofrida\u201d, a mulher dos gatos, que conta com objetos e quadros obscenos e indulgentes por toda a sua casa. O pr\u00f3prio guarda da pris\u00e3o, de estilo fascista, era contrariado \u00e0s exibi\u00e7\u00f5es do tratamento Ludovico at\u00e9 a apari\u00e7\u00e3o de uma mulher nua \u2013 recaindo-se em aplausos loucos e incessantes. O desfecho triunfal na an\u00e1lise de Laranja Mec\u00e2nica vem com o autor de livros, Patrick Magee como o Mr. Alexander, na mais estonteante interpreta\u00e7\u00e3o do cinema (inenarr\u00e1vel a loucura f\u00edsica a que ele se mostra quando ouve Alex cantando Singin&#8217; in the Rain \u2013 outra id\u00e9ia kubrickiana). A personagem \u00e9 t\u00e3o rica que constr\u00f3i em torno de si outra perspectiva completa: primeiro, ele \u00e9 a v\u00edtima, depois torna-se amig\u00e1vel e mostra afei\u00e7\u00e3o a Alex (por n\u00e3o reconhec\u00ea-lo) e pretende corroborar sua tese de farsa e esc\u00e2ndalo por tr\u00e1s dos sorrisinhos amarelos de Frederick e sua turma. At\u00e9 ele se ver diametralmente oposto, ou seja, o grande e odiado vil\u00e3o da hist\u00f3ria. Uma constru\u00e7\u00e3o paralelamente inversa \u00e0 de Alex, que come\u00e7a como um en\u00e9rgico safado para se redimir e virar m\u00e1rtir daquilo tudo. Alexander tenta apenas se vingar, esquece suas manifesta\u00e7\u00f5es, para procurar na morte alheia o reconforto de uma vida transtornada por ruas err\u00f4neas. Manifestando os louv\u00e1veis valores divino e dando a Deus um prazer maior, o \u00fanico contestador \u2013 al\u00e9m do Alex \u2013 foi o padre da Igreja. \u00c9 verdade que a Igreja tem seus erros e Kubrick tamb\u00e9m prova isto, n\u00e3o se isola ou teme em pecar. Por\u00e9m, deixa como questionador o padre \u2013 e qual seria a forma de corrigir nossos erros (?), ele pergunta. Que cada um procure a sua melhor maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Concluindo, temos a Laranja Mec\u00e2nica. Esta obra-m\u00e1xima n\u00e3o \u00e9 para qualquer um; apesar de ser sobre todos. Pode-se, agora, tentar interpretar o t\u00edtulo: seria a forma como o tratamento Ludovico e os crit\u00e9rios morais eram aplicados, tornando os homens (laranjas) em rob\u00f4s (mec\u00e2nicas)? Ou isto se aplica a todos n\u00f3s que assistimos ao filme? Al\u00e9m: no livro de Burgess, toma-se conhecimento que o livro escrito por Alexander era Laranja Mec\u00e2nica. Ora, Alexander criticava o tratamento, havendo assim uma rea\u00e7\u00e3o profunda entre tudo o que rege Laranja Mec\u00e2nica. Kubrick promoveu um espet\u00e1culo de cores, m\u00fasica e muita repugn\u00e2ncia, muito desconforto; aproximando, entretanto, isto ao vazio do espectador e preenchendo o seu espa\u00e7o vazio, atingindo-o, provocando-o e desafiando-o. Al\u00e9m disso, deixou de maneira mais aberta e calorosa seu filme ao cortar o final do livro, um trunfo origin\u00e1rio, unicamente, de um milagre ou de um g\u00eanio. Melhor: foi a jun\u00e7\u00e3o das duas coisas. Uma vez topado mergulhar no filme, prepare-se para ficar submerso por dias, semanas e flutuando por todo o resto de sua vida. Uma prova concreta dos encontros e desencontros do filme foi a rela\u00e7\u00e3o de Kubrick com a Inglaterra: nela, o diretor encontrou ref\u00fagio e paz; por\u00e9m foi aquele mesmo pa\u00eds a ser colocado como ponto de partida para os desafios de Laranja Mec\u00e2nica. As rea\u00e7\u00f5es, com muito chilique, da cr\u00edtica inglesa fizeram com que o diretor e roteirista retirasse o filme do pa\u00eds at\u00e9 a sua morte. Foi repudiado, mas hoje atingiu o auge; e deve estar sorrindo com Beethoven e Deus. Quando o filme terminou, de meus olhos ca\u00edam l\u00e1grimas pela beleza est\u00e9tica e emocional da obra; nos ouvidos, ecos da melhor trilha sonora adaptada em todo o caminho cinematogr\u00e1fico tra\u00e7ado at\u00e9 o presente dia; no est\u00f4mago, uma sensa\u00e7\u00e3o de dor e vazio; e uma mente que deixava de ser rasa para, finalmente, construir algo. Eu estava realmente curado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Cassius Abreu<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo domingo \u00e9 domingo de praticar um pouco de ultraviol\u00eancia e do bom e velho in-out-in-out, por que n\u00e3o&#8230; A bel\u00edssima ode \u00e0 viol\u00eancia de Stanley Kubrick n\u00e3o apenas se conserva intocada como protagoniza um verdadeiro fen\u00f4meno nestes \u00faltimos tempos. &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/13\/laranja-mecanica-stanley-kubrick-1971\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[50,150,218,306,2526,1272,1290,1389,2174,2365,2392],"class_list":["post-607","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenhas","tag-a-clockwork-orange","tag-alex-delarge","tag-anthony-burgess","tag-beethoven","tag-cinema","tag-kubrick","tag-laranja-mecanica","tag-malcolm-mcdowell","tag-stanley-kubrick","tag-tratamento-ludovico","tag-ultraviolencia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=607"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/607\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}