{"id":598,"date":"2008-07-12T14:57:45","date_gmt":"2008-07-12T16:57:45","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=598"},"modified":"2008-07-12T14:57:45","modified_gmt":"2008-07-12T16:57:45","slug":"2001-uma-odisseia-no-espaco-stanley-kubrick-1968-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/12\/2001-uma-odisseia-no-espaco-stanley-kubrick-1968-2\/","title":{"rendered":"2001: Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o (Stanley Kubrick, 1968)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Um marco. Um divisor. Dos mais influentes, ousados e meticulosamente doentios ensaios cinematogr\u00e1ficos j\u00e1 compostos. O cinema n\u00e3o seria mais o mesmo depois que &#8220;Satanley&#8221; Kubrick (cortesia do nosso amigo\u00a0Fabio Santos, haha) propulsiona a experi\u00eancia de ir ao\u00a0cinema a n\u00edveis literalmente siderais. A cargo do nosso bondoso mestre Am\u00edlcar\u00a0Figueiredo, com voc\u00eas,\u00a0um dos textos mais esperados deste\u00a0especial:<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.dailygalaxy.com\/photos\/uncategorized\/2008\/05\/07\/ape_2.jpg\" alt=\"\" width=\"466\" height=\"211\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>2001: Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o (2001: A Space Odyssey, 1968)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria, a capacidade de olhar para o c\u00e9u e indagar seu significado \u00e9 um dos elementos que mais individualizam a esp\u00e9cie humana dos demais animais que habitam o planeta Terra. Todos n\u00f3s, mam\u00edferos, aves, invertebrados, bact\u00e9rias, temos invariavelmente as mesmas necessidades b\u00e1sicas: se alimentar, crescer, transmitir nossos genes, perpetuar a esp\u00e9cie. Mas a curiosidade, a reflex\u00e3o e o respeito pela imensid\u00e3o do infinito, que fazem t\u00e3o bem a qualquer ser senciente, est\u00e3o indubitavelmente entre nossos mais inspirados atributos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em contraponto, basta olhar ao redor para perceber como o ser humano vem se tornando cada vez mais inadaptado ao meio em que vive. A busca por novos alimentos para o corpo e para o esp\u00edrito levou, paradoxalmente, \u00e0 necessidade de uma artificializa\u00e7\u00e3o progressiva. \u00c0 medida que o homem invadia novos espa\u00e7os, precisava cada vez mais de artefatos para subsistir; n\u00e3o bastava conquistar o novo territ\u00f3rio, era preciso mant\u00ea-lo. E isso ele jamais poderia fazer tendo sua pr\u00f3pria carne como \u00fanico ve\u00edculo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que produziu essa aberra\u00e7\u00e3o que \u00e9 o ser humano? Por que isso aconteceu apenas conosco nesse planeta, e como? No final da d\u00e9cada de 60, Arthur C. Clarke e Stanley kubrick propuseram, sob a forma de sons e imagens em pel\u00edcula, uma resposta arrojada para tais perguntas: somos produto de uma interven\u00e7\u00e3o externa. Este \u00e9 o mote central de 2001: Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o (2001: A Space Odissey, 1968), um filme no qual o ciclo da vida, da morte e da transcend\u00eancia que lhes permeia \u00e9 retratado da pr\u00e9-hist\u00f3ria a um futuro que ficou no passado e que, por estas e outras raz\u00f5es, foi imortalizado para sempre em nossas consci\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O in\u00edcio de 2001 \u00e9 inteiramente dominado por um grupo de humanos, an\u00f4nimos, do tempo em que \u00e9ramos mais assemelhados aos demais s\u00edmios do que somos hoje. Os afazeres de ent\u00e3o, em sua ess\u00eancia, n\u00e3o mudaram muito ao longo dos s\u00e9culos: alimenta\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, seguran\u00e7a, conforto. O rompimento das preocupa\u00e7\u00f5es com as tarefas mundanas e a busca pelo significado da pr\u00f3pria exist\u00eancia s\u00e3o proporcionados por um mon\u00f3lito negro, a fagulha da auto-consci\u00eancia materializada em um objeto de formas e dimens\u00f5es perfeitas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em um sensacional salto no tempo, o osso que havia sido usado como arma h\u00e1 poucos segundos se transforma em uma esta\u00e7\u00e3o espacial, momento em que \u00e9 apresentada uma nova humanidade, mais proficiente tecnicamente por\u00e9m igualmente orgulhosa de si pr\u00f3pria e ainda apegada \u00e0s mesmas atividades mundanas. O mon\u00f3lito precisa agir mais uma vez e \u00e9 o que ele faz, apresentando-se na Cratera Raiada de Tycho, na Lua. Se antes ele havia sido a fa\u00edsca do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, agora ele desencadeia reflex\u00f5es de ordem filos\u00f3fica: Algu\u00e9m al\u00e9m de n\u00f3s fez isso. Quem? E por que? Para obter tais respostas a humanidade rompe novas barreiras f\u00edsicas e vai a J\u00fapiter a bordo da nave Discovery, em uma miss\u00e3o comandada por tr\u00eas seres. Dois deles s\u00e3o humanos, Dave Bowman (Kleir Dullea, excepcional) e Frank Poole (Gary Lockwood). O terceiro \u00e9 mec\u00e2nico: o supercomputador HAL 9000. Independentemente de serem compostos de carbono ou de sil\u00edcio, os tr\u00eas t\u00eam aspira\u00e7\u00f5es, desejos e medos, os quais invariavelmente colidir\u00e3o em eventos de propor\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na concep\u00e7\u00e3o de 2001, HAL \u00e9 t\u00e3o consciente e digno de considera\u00e7\u00e3o quanto os demais componentes da tripula\u00e7\u00e3o, pois tem mem\u00f3ria \u2013 o que lhe possibilita criar sentimentos \u2013, curiosidade e desejo de aprender. Um universo de m\u00e1quinas humanizadas e humanos mec\u00e2nicos, tecnologicamente dominantes por\u00e9m amarrados a paradigmas cartesianos, representa uma subvers\u00e3o t\u00e3o grande dos conceitos da humanidade sobre si pr\u00f3pria que n\u00e3o poderia ser apresentado de maneira superficial ou r\u00e1pida ao espectador. Por esta raz\u00e3o \u00e9 que Stanley Kubrick optou por uma estrutura narrativa que mais se assemelha a um bal\u00e9. Seu filme se desenvolve cadenciada e harmoniosamente, associando uma trilha sonora cl\u00e1ssica (tendo Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, como \u00edcone) a imagens de um apuro visual ainda hoje impressionante. Repletos de simbolismos, os po\u00e9ticos frames de 2001 parecem pinturas dispostas em seq\u00fc\u00eancia, acompanhados de uma m\u00fasica suave e contrastante com a brutalidade das id\u00e9ias apresentadas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O cl\u00edmax do filme \u00e9, em todos os aspectos, a seq\u00fc\u00eancia final na qual Dave Bowman, j\u00e1 pr\u00f3ximo a J\u00fapiter, parte numa expedi\u00e7\u00e3o extraveicular com o objetivo de salvar a miss\u00e3o e, em \u00faltimo grau, sua pr\u00f3pria sanidade. Dave vivencia o mesmo g\u00eanero de transi\u00e7\u00e3o que os humanos primitivos do in\u00edcio, por\u00e9m numa escala muito maior; na pr\u00e9-hist\u00f3ria, o mon\u00f3lito liberta a mente primeva das amarras de uma programa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica incompleta (o DNA) para desenvolver a tecnologia; no presente\/passado\/futuro de 2001, o mon\u00f3lito ajuda uma mente um pouco mais evolu\u00edda a libertar-se da pr\u00f3pria mat\u00e9ria. Caem as \u00faltimas barreiras, as da carne e de suas naturais limita\u00e7\u00f5es \u2013 o que nos remete ao in\u00edcio desse texto. Desta vez sem artefatos, a consci\u00eancia livra-se de sua pris\u00e3o corp\u00f3rea. Dave Bowman v\u00ea a si pr\u00f3prio e a sua hist\u00f3ria; Dave Bowman envelhece; Dave Bowman morre. Vida longa a Dave Bowman, agora renascido sobre a forma da crian\u00e7a-estrela: ontem um humano, hoje um cidad\u00e3o do universo. Toda a experi\u00eancia, retratada sob a forma de uma verdadeira apoteose de sons e imagens, tem diferentes significados para cada pessoa que a v\u00ea, mas o sentido final, de liberta\u00e7\u00e3o e transcend\u00eancia, \u00e9 acess\u00edvel a qualquer um de n\u00f3s. Assim como foi para Stanley Kubrick, cuja despedida de seu inv\u00f3lucro de carne n\u00e3o deve ter sido menos gloriosa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Am\u00edlcar Figueiredo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um marco. Um divisor. Dos mais influentes, ousados e meticulosamente doentios ensaios cinematogr\u00e1ficos j\u00e1 compostos. 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