{"id":5820,"date":"2010-05-12T00:15:33","date_gmt":"2010-05-12T03:15:33","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=5820"},"modified":"2010-05-12T00:15:33","modified_gmt":"2010-05-12T03:15:33","slug":"o-ultimo-tragico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/05\/12\/o-ultimo-tragico\/","title":{"rendered":"O \u00daltimo Tr\u00e1gico (Especial Anthony Mann)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5821 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/05\/nandoetct.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"361\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muito bem, depois da admir\u00e1vel reflex\u00e3o do amigo Ranieri sobre o retorno formal a que Anthony Mann se prop\u00f4s em sua carreira, ao dialogar n\u00e3o s\u00f3 com os princ\u00edpios dos pr\u00e9-cinemas e da pr\u00f3pria encena\u00e7\u00e3o teatral, n\u00e3o posso deixar de trazer \u00e0 tona um aspecto que ressaltei v\u00e1rias vezes nos textos do Especial: o retorno de Mann ao Tr\u00e1gico. At\u00e9 porque perceberemos a\u00ed, uma esp\u00e9cie de linha que comprova ser o retorno tamb\u00e9m uma evolu\u00e7\u00e3o, uma ousadia que exige muito mais tato e consci\u00eancia para que atinja m\u00e9rito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Lembrando que o g\u00eanero tr\u00e1gico \u00e9 a \u00fanica forma narrativa da Antiguidade essencialmente mantida no decorrer da hist\u00f3ria \u2013 a despeito dos inevit\u00e1veis rearranjos de contexto sociais \u2013, encontramos na obra de Anthony Mann uma continuidade exata das bases presentes nessa modalidade, que, pela pertin\u00eancia dos tempos modernos, resulta numa intensidade de maiores possibilidades e conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Talvez nenhum outro cineasta tenha seguido, como Mann, a cartilha padr\u00e3o da Trag\u00e9dia greco-romana t\u00e3o fielmente, a exemplo de seu percurso pelo noir na d\u00e9cada de 40. \u00c9 in\u00fatil pescar refer\u00eancias ou exemplos particulares de filmes, se toda sua filmografia daquela d\u00e9cada reflete inequivocamente o esp\u00edrito do que a Po\u00e9tica de Arist\u00f3teles definiu quase 4 s\u00e9culos a.C. Todos por aqui j\u00e1 est\u00e3o devidamente situados sobre as condi\u00e7\u00f5es existenciais dos personagens de Mann em seus filmes noir; assim como a Trag\u00e9dia dita o destino, todos eles sobrevivem como regidos por um fio manipulador que distancia as chances de o subjetivo manifestar-se. N\u00e3o h\u00e1 noir de Mann (e porque n\u00e3o compreender o mesmo para o pr\u00f3prio noir, se Mann foi um dos definidores de sua grafia b\u00e1sica) que n\u00e3o priorize o deslocamento de seu protagonista\/her\u00f3i arrancando-o de um ponto pac\u00edfico, que n\u00e3o se baseie num princ\u00edpio da crise, da instaura\u00e7\u00e3o do caos, surgido habitualmente por banalidades do cotidiano, por perip\u00e9cias do dia-a-dia que porventura empurram toda uma vida \u00e0 beira de um abismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c0 solid\u00e3o a que esses personagens s\u00e3o confinados acrescente-se o signo da falta, a potencialidade de uma aus\u00eancia que percorre cada um dos filmes de Anthony Mann \u2013 onde j\u00e1 inclu\u00edmos a fase p\u00f3s-50. Seja um nome, um amor, uma fam\u00edlia, um territ\u00f3rio, uma fortuna, uma arma, uma mem\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 enredo em que Mann n\u00e3o parta de um vazio agenciador do estado solit\u00e1rio do indiv\u00edduo. E \u00e9 na solid\u00e3o que o Tr\u00e1gico se configura; dela vem \u00e0 luz a plenitude do l\u00edrico, \u00fanica alternativa discursivo-est\u00e9tica que o homem moderno encontra para permanecer tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O rigor de Mann no acompanhamento aristot\u00e9lico pode ainda ser percebido em detalhes m\u00ednimos, como por exemplo, a dura\u00e7\u00e3o de seus filmes. Assim como o fil\u00f3sofo afirmou que a dura\u00e7\u00e3o da Trag\u00e9dia deve ser concentrada ao m\u00e1ximo, em pe\u00e7as que n\u00e3o excedam uma hora, todos sabemos da habilidade de Mann em narrar as mais complexas tramas na menor dura\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, seja por op\u00e7\u00e3o criativa, seja por limita\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa, o que conta \u00e9 a feliz coincid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tamb\u00e9m poderemos compreender melhor sob o vi\u00e9s tr\u00e1gico de Mann a ambig\u00fcidade com que ele trabalhou seus dois g\u00eaneros principais: o noir e o western. Assim como os gregos foram pautados pela homogeneidade do mundo\/das formas, em Anthony Mann teremos um am\u00e1lgama dos dois ambientes cl\u00e1ssicos por excel\u00eancia ao cinema americano, num equil\u00edbrio quase indiscern\u00edvel de t\u00e3o sutil. Apesar de seu lugar hist\u00f3rico e cultural (Hollywood) n\u00e3o permitir maiores arroubos de vanguarda, Anthony Mann n\u00e3o se deixou calar, chegando a abrir uma ferida nessas conven\u00e7\u00f5es. Ali\u00e1s, eis uma de suas caracter\u00edsticas maiores: transgredir pelo conservador. O rompimento nos limites dos g\u00eaneros, algo que s\u00f3 encontraria destaque nos cinemas novos p\u00f3s-60, \u00e9 prioridade de Mann a cada filme realizado; da\u00ed encontrarmos saloons e desertos nos becos sujos dos ambientes urbanos, assim como expressividade de sombras e formas na abertura das paisagens do velho oeste.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Finalmente, o preceito da transforma\u00e7\u00e3o a ser vivido pelo her\u00f3i tr\u00e1gico, a mudan\u00e7a necess\u00e1ria de seu destino, \u00e9 um \u00faltimo ponto que levanto dentro do universo de Anthony Mann (ainda h\u00e1 outros, mas estou tentando ser aristotelicamente conciso). Se em alguns casos temos her\u00f3is que se transformam de assassinos em redentores, tamb\u00e9m encontraremos o extremo oposto disso; o que importa \u00e9 que sempre, sem exce\u00e7\u00e3o, as situa\u00e7\u00f5es narrativas de Mann se resolver\u00e3o dramaticamente, com personagens transformados em outros, sem que jamais se perca a individualidade original.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed onde podemos aplicar ao pr\u00f3prio lugar alcan\u00e7ado por Anthony Mann no registro cinematogr\u00e1fico cl\u00e1ssico, uma configura\u00e7\u00e3o primeira de cinema tr\u00e1gico, ou seja, em crise, solit\u00e1rio, concentrado, l\u00edrico, e profundamente transformador. Um cinema conscientemente ancorado numa tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas da imagem em movimento, mas de toda uma dimens\u00e3o humana da representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, capaz de atualizar inquieta\u00e7\u00f5es das mais antigas ao homem enquanto se presta a uma renova\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo utilizado. Fazer isso, convenhamos, \u00e9 o mais her\u00f3ico dos atos.<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/equipe\/fernando-mendonca\/\">Fernando Mendon\u00e7a<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito bem, depois da admir\u00e1vel reflex\u00e3o do amigo Ranieri sobre o retorno formal a que Anthony Mann se prop\u00f4s em sua carreira, ao dialogar n\u00e3o s\u00f3 com os princ\u00edpios dos pr\u00e9-cinemas e da pr\u00f3pria encena\u00e7\u00e3o teatral, n\u00e3o posso deixar de &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/05\/12\/o-ultimo-tragico\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,5],"tags":[219,2526,875],"class_list":["post-5820","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-comentarios","tag-anthony-mann","tag-cinema","tag-filmes"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5820"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5820\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}