{"id":567,"date":"2008-07-10T15:27:44","date_gmt":"2008-07-10T17:27:44","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=567"},"modified":"2008-07-10T15:27:44","modified_gmt":"2008-07-10T17:27:44","slug":"lolita-stanley-kubrick-1962-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/10\/lolita-stanley-kubrick-1962-2\/","title":{"rendered":"Lolita (Stanley Kubrick, 1962)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Lan\u00e7ado em 1962, Lolita \u00e9 o sexto longa da carreira de Stanley Kubrick. Ap\u00f3s sua experi\u00eancia em Spartacus, tendo que brigar com Kirk Douglas por controle criativo, Kubrick decidiu que produziria seus pr\u00f3prios filmes. Lolita foi o primeiro, e nesse contexto, ganha import\u00e2ncia por ser o primeiro passo do diretor em dire\u00e7\u00e3o ao ideal de criar o seu pr\u00f3prio cinema. \u00c9 interessante ainda destacar que houve problemas no roteiro, na sele\u00e7\u00e3o do elenco e na edi\u00e7\u00e3o, tudo em fun\u00e7\u00e3o do tema pol\u00eamico (Cary Grant teria recusado indignado a oferta do papel principal). E \u00e9 ainda em Lolita que se encontram pela primeira vez dois g\u00eanios, Kubrick e Peter Sellers, que juntos criariam, dois anos mais tarde, talvez a maior atua\u00e7\u00e3o do cinema. Sem mais delongas, com voc\u00eas, Lolita:<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/farm2.static.flickr.com\/1197\/1460278103_a0929a7adb.jpg?v=0\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Lolita (Lolita, 1962)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Stanley Kubrick dizia gostar de adaptar livros med\u00edocres, pois eles rendiam bons filmes. Assim sendo, n\u00e3o chega a surpreender a ironia de que o livro mais c\u00e9lebre adaptado para o cinema pelo diretor tenha resultado em sua obra de menor prest\u00edgio \u2013 com as poss\u00edveis exce\u00e7\u00f5es de Fear and Desire e A Morte Passou por Perto, obras do in\u00edcio da carreira do diretor. Trata-se da adapta\u00e7\u00e3o do romance Lolita, escrito pelo russo Vladmir Nabokov, narrando a est\u00f3ria do professor Humpert Humpert, que se apaixona pela personagem t\u00edtulo, uma menina de apenas 14 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro passo para analisar Lolita deve ser, ent\u00e3o, buscar raz\u00f5es com que se possa justificar o motivo de ser essa a obra que menos agrada o p\u00fablico. O motivo mais \u00f3bvio \u00e9 o tema, bastante indigesto. Afinal, todo ser humano tem um limite de toler\u00e2ncia para com a torpeza da vida e da humanidade, e o sofrimento de crian\u00e7as e jovens, em especial por motivos sexuais, excede esse limite para muita gente. Isso pode ser especialmente verdadeiro para espectadores conservadores e para pais e m\u00e3es que vejam na menina Lolita suas pr\u00f3prias crian\u00e7as. Com rela\u00e7\u00e3o aos cin\u00e9filos, em especial os f\u00e3s do diretor, o motivo anterior perde for\u00e7a, e o que provavelmente mais pesa contra Lolita \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o com os outros filmes de Kubrick. \u00c9 prov\u00e1vel que, ao assistir a esse filme, se tenha em mente a ousadia narrativa e visual dos cl\u00e1ssicos 2001 \u2013 Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o e Laranja Mec\u00e2nica, e Lolita, bem menos ousado e inovador, sai perdendo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o obstante, nada disso significa tratar-se de uma obra pequena ou med\u00edocre. \u00c9 poss\u00edvel notar a m\u00e3o talentosa de Kubrick em diversas seq\u00fc\u00eancias. Tomem-se como exemplos a conversa entre Humpert e o psic\u00f3logo da escola de Lolita, o encontro de Humpert e de Clare Quilty na varanda do hotel e a persegui\u00e7\u00e3o na auto-estrada, todas elas realizadas com maestria, criando tens\u00e3o de uma forma que poucos diretores conseguiriam extrair de seq\u00fc\u00eancias t\u00e3o \u201csimples\u201d. As duas primeiras cenas citadas acontecem em ambientes escuros e claustrof\u00f3bicos, e contrap\u00f5em os personagens de maneira que o resultado \u00e9 o que mais perto se poderia chegar de um duelo de faroeste expressionista. A seq\u00fc\u00eancia da persegui\u00e7\u00e3o de carros, al\u00e9m de tecnicamente excelente, \u00e9 tamb\u00e9m emblem\u00e1tica, pois marca o ponto a partir do qual o pouco controle que ainda restava a Humpert sobre sua vida termina. A partir dali, os acontecimentos o carregam, sem que ele consiga impedi-los, at\u00e9 que o personagem chegue a seu tr\u00e1gico destino.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mais interessante do que os m\u00e9ritos t\u00e9cnicos, por\u00e9m, s\u00e3o os questionamentos que a obra levanta e os temas que ela aborda. A segunda vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica para o romance d\u00e1 especial aten\u00e7\u00e3o para o motivo pelo qual Humpert se apaixona por Lolita \u2013 havia tido, na juventude, uma namoradinha que faleceu. A vers\u00e3o de Kubrick n\u00e3o perde tempo justificando os motivos do personagem. O que importa \u00e9 o comportamento obsessivo de Humpert, sua degrada\u00e7\u00e3o mental, a perda do seu car\u00e1ter, e eventualmente, a maneira como a obsess\u00e3o de Humpert destr\u00f3i todos os que entram em contato com ela. Kubrick transforma uma vaga no\u00e7\u00e3o de amor que o personagem teria pela menina, e o arremessa em um redemoinho que inicialmente, por ser muito amplo, n\u00e3o d\u00e1 a impress\u00e3o de estar puxando Humpert para o fundo. Pois o amor tem mesmo uma faceta obsessiva, que obviamente n\u00e3o se manifesta em todos na forma corrosiva que destr\u00f3i Humpert, mas que \u00e9 capaz de, em alguns momentos, trazer \u00e0 tona o pior de cada pessoa. Quando o amor \u00e9 sadio, por\u00e9m, essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 seguida de compreens\u00e3o e o que termina por ficar \u00e0 superf\u00edcie mesmo \u00e9 o que cada um tem de melhor. Isso n\u00e3o ocorre com o personagem principal de Lolita por dois motivos. O primeiro \u00e9 \u00f3bvio, sua pr\u00f3pria natureza inst\u00e1vel. O segundo se refere a sua amada, e ao comportamento dela em rela\u00e7\u00e3o a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E surge disso um outro questionamento essencial da obra: at\u00e9 que ponto existe mesmo a tal inoc\u00eancia da juventude. A personagem t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 exatamente uma crian\u00e7a, mas para a \u00e9poca em que o romance foi escrito, ainda deveria estar na idade da inoc\u00eancia. N\u00e3o obstante, ela manipula e engana Humpert seguidamente. Seria apenas um reflexo da presen\u00e7a negativa dele e da proximidade entre os dois? Teria ela consci\u00eancia das regras que infringia \u2013 n\u00e3o apenas leis, mas tamb\u00e9m regras sociais? Considerando que h\u00e1 um debate sempre acirrado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da maioridade penal no Brasil, Lolita \u00e9 uma obra que, mesmo ap\u00f3s mais de quatro d\u00e9cadas, n\u00e3o deixa de ser atual. Pois se no filme o catalisador da \u201cmaldade\u201d da personagem \u00e9 o sexo, na vida real s\u00e3o a mis\u00e9ria e o crime, mas que diferen\u00e7a existe mesmo entre Lolita e os menores envolvidos no tr\u00e1fico de drogas? Seria poss\u00edvel evitar a virada deles para o caminho do crime apenas retirando a presen\u00e7a negativa que os cerca? E se sim, por que \u00e9 que jovens de classe m\u00e9dia tamb\u00e9m se envolvem com o mundo do crime?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, quando se pensa n\u00e3o apenas no car\u00e1ter atemporal de sentimentos como amor e obsess\u00e3o, mas na criminalidade infantil e nos casos de pedofilia, envolvendo at\u00e9 membros do clero, percebe-se que \u00e9 pouco prov\u00e1vel que Lolita deixe de ser uma obra atual. E isso \u00e9 provavelmente a maior conquista a que uma obra de arte pode almejar, pois cr\u00edticos e opini\u00f5es v\u00eam e v\u00e3o, mas quem d\u00e1 a \u00faltima palavra \u00e9 sempre o tempo. A \u00fanica maneira digna de terminar essa resenha \u00e9 lembrar a memor\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o de Peter Sellers (ou mais uma delas) e dizer que, apesar de ser um dos filmes menos prestigiados do diretor, Lolita tem um mundo a oferecer ao espectador, se ele tiver est\u00f4mago para embarcar na jornada. Em uma palavra, \u00e9 Kubrick.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Marcelo Dillenburg<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7ado em 1962, Lolita \u00e9 o sexto longa da carreira de Stanley Kubrick. Ap\u00f3s sua experi\u00eancia em Spartacus, tendo que brigar com Kirk Douglas por controle criativo, Kubrick decidiu que produziria seus pr\u00f3prios filmes. 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