{"id":5598,"date":"2010-04-19T13:05:11","date_gmt":"2010-04-19T16:05:11","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=5598"},"modified":"2010-04-19T13:05:11","modified_gmt":"2010-04-19T16:05:11","slug":"musica-e-lagrimas-the-glenn-miller-story-%e2%80%93-anthony-mann-1953","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/04\/19\/musica-e-lagrimas-the-glenn-miller-story-%e2%80%93-anthony-mann-1953\/","title":{"rendered":"M\u00fasica e L\u00e1grimas (The Glenn Miller Story \u2013 Anthony Mann, 1953)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5599 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/0115.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5600 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/0215.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5601 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/0317.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A rigor, a cinebiografia parece obedecer \u00e0s regras da neutralidade. Geralmente, em produ\u00e7\u00f5es desse tipo, n\u00e3o h\u00e1 senso de dire\u00e7\u00e3o, de constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, da acumula\u00e7\u00e3o de fatos, porque parece que toda a hist\u00f3ria humana do biografado deve sobreviver a qualquer \u201cinterfer\u00eancia\u201d do diretor ou de quem quer que seja \u2013 ela \u00e9 bem maior do que um filme, porque o cinema \u00e9 a m\u00e1quina de reproduzir in\u00fatil. O erro, claro, sempre reside a\u00ed \u2013 \u00e9 o que nos mostra um filme como\u00a0<em>N\u00e3o Estou L\u00e1<\/em> (2007), de Todd Haynes, uma biografia de ideias e n\u00e3o somente uma cinebiografia sem alma. Logo, perde-se totalmente o sentido de dimens\u00f5es, de espa\u00e7os, de locais mais humanos ainda a se adentrar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Isso acontece bem em\u00a0<em>M\u00fasica e L\u00e1grimas<\/em>, quando se podia pensar que Anthony Mann seria o nome ideal para estar no comando do filme. A ideia atrai: Mann, com seu senso de dire\u00e7\u00e3o neutra, com sua discreta habilidade t\u00e9cnica (aqui completamente engessada, morta, nula, porque nunca h\u00e1 um momento certo para demonstr\u00e1-la), seria o respons\u00e1vel perfeito por encenar a hist\u00f3ria de um homem comum que se transforma no m\u00fasico dos discos mais vendidos, um tipo de s\u00edmbolo mal explorado pelo drama. Por parcelas, Mann poderia dar conta da metade conformada do personagem de James Stewart, o biografado Glenn Miller, quando ele simplesmente s\u00f3 tem a si mesmo como dificuldade para encontrar o talento que lhe \u00e9 nato, colocando-o como o centro das aten\u00e7\u00f5es naquela sua falta de iniciativa j\u00e1 conhecida ao explorar muito pouco (ou nada) o dinheiro da produ\u00e7\u00e3o gasto na constru\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios (que praticamente, para Mann, parecem fazer parte do presente, tamanho seu desinteresse caracter\u00edstico por eles). Entretanto, esta forma chapada de contar a hist\u00f3ria j\u00e1 me parece ser imposs\u00edvel de colocar de lado pelo pr\u00f3prio peso morto da figura principal, anterior ao filme. Haver\u00e3o momentos que Mann n\u00e3o dar\u00e1 conta. \u00c9 neutralidade demais, vinda de dois lados \u2013 do biografado e do pr\u00f3prio diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o h\u00e1 conflitos, n\u00e3o h\u00e1 de fato um problema sequer, nem quando Miller vai para a II Guerra. Talvez o que coloque o filme numa situa\u00e7\u00e3o verdadeiramente delicada (e por isso instigante) \u00e9 perceber que Mann n\u00e3o era o homem certo para conduzi-lo &#8211; e isso n\u00e3o \u00e9 safar sua cara, de forma alguma: o filme \u00e9 de uma falta de puls\u00e3o fort\u00edssima, de um equil\u00edbrio viciado e grande parte disso vem da inabilidade de Mann ao n\u00e3o se colocar no filme. Isso porque ele precisa sempre de um drama para construir, fazendo crer que n\u00e3o h\u00e1 edifica\u00e7\u00e3o alguma \u00e0 vista a n\u00e3o ser aquela esperada (o Stewart de\u00a0<em>O Pre\u00e7o de um Homem<\/em> \u00e9 a prova disso, quase um maluco se metamorfoseando ao vivo), a surpresa \u00e9 sempre esta, o estouro. Ele necessita que, por exemplo, o James Stewart de\u00a0<em>Winchester 73<\/em> ganhe a arma para perd\u00ea-la para o irm\u00e3o que assassinou o pai de ambos. H\u00e1 uma obsess\u00e3o a gerar e rapidamente a gerir. Da\u00ed que os filmes de Mann funcionem melhor com a c\u00e2mera no ch\u00e3o, excutando movimentos r\u00e1pidos, do que em gruas, com movimentos lentos, discretos e mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>M\u00fasica e L\u00e1grimas<\/em>, pelo contr\u00e1rio, com um movimento quase impercept\u00edvel de grua, insere o j\u00e1 obsessivo e pobre Glenn Miller e sua situa\u00e7\u00e3o arquitetada para ser destru\u00edda e mudada. Aparece ent\u00e3o um problema: Miller, antes de qualquer coisa, tem uma vida individual, que n\u00e3o diz respeito ao filme. Ele j\u00e1 come\u00e7a vivo, ao contr\u00e1rio do que se v\u00ea nos westerns que Mann fez, em que a vida dos personagens s\u00f3 se d\u00e1 na consci\u00eancia de uma grande raiva.<em>M\u00fasica e L\u00e1grimas<\/em> \u00e9 o encontro do diretor que n\u00e3o consegue conduzir com emo\u00e7\u00e3o um mundo de emo\u00e7\u00f5es pr\u00e9-concebido e pr\u00e9-tra\u00e7ado, com um personagem completo, decidido e j\u00e1 vivido, que n\u00e3o se op\u00f5e a aparecer em todas as cenas e n\u00e3o demonstra um prazer percept\u00edvel de ser o protagonista, tal sua impossibilidade de decalque e de criar situa\u00e7\u00f5es realmente interessantes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mais curioso \u00e9 que tanto Stewart quanto Mann compartilham dessa ideia de mostrar tudo, at\u00e9 o final \u2013 que ironicamente n\u00e3o mostra nada. Sendo uma biografia, campo de omiss\u00e3o s\u00f3 do necess\u00e1rio para que n\u00e3o se suje o centro de tudo (o biografado), acaba-se por tratar de um exagero imenso dentro do cinema de Mann, diretor acostumado a fazer filmes em que as situa\u00e7\u00f5es encerravam um mundo com come\u00e7o, meio, fim e contendo todos os personagens essenciais ou n\u00e3o poss\u00edveis \u00e0 trama. Lembremos do filme do ano anterior,\u00a0<em>E o Sangue Semeou a Terra<\/em>, que os \u00edndios aparecem antes de terem sua imagem em cena, e onde mineradores mal encarados s\u00e3o postos para entupir a tela \u2013 ou entupir aquelas montanhas \u2013 de gente. Aqui, h\u00e1 muitas situa\u00e7\u00f5es sem profundidade dram\u00e1tica ou c\u00eanica, sem crise. Uma dessas sequ\u00eancias expressa bem como esse desejo de mostrar o que for poss\u00edvel se degenerou. Nela pode-se ver Louis Armstrong numa sensacional sess\u00e3o de jazz, iluminada pelos mais variados filtros da fotografia \u2013 um al\u00edvio psicod\u00e9lico, totalmente deslocado, mal filmado e curioso como pe\u00e7a alien\u00edgena que \u00e9. Ao mesmo tempo que a neutralidade de Mann, a princ\u00edp\u00edo, coloca Miller no local ideal para se olhar, com o passar do tempo essa sua mesma caracter\u00edstica de realizador tranquilo, constr\u00f3i um muro. \u00c9 com dificuldade que se v\u00ea atrav\u00e9s dele. \u00c9 muito dif\u00edcil enxergar.<\/p>\n<p>1\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/equipe\/ranieri-brandao\/\">Ranieri Brand\u00e3o<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rigor, a cinebiografia parece obedecer \u00e0s regras da neutralidade. 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