{"id":5540,"date":"2010-04-14T04:28:18","date_gmt":"2010-04-14T07:28:18","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=5540"},"modified":"2010-04-14T04:28:18","modified_gmt":"2010-04-14T07:28:18","slug":"o-caminho-do-diabo-devil%e2%80%99s-doorway-anthony-mann-1950","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/04\/14\/o-caminho-do-diabo-devil%e2%80%99s-doorway-anthony-mann-1950\/","title":{"rendered":"O Caminho do Diabo (Devil\u2019s Doorway &#8211; Anthony Mann, 1950)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5541 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/0111.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5544 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/0211.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5545 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/0312.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Eles Vivem, de John Carpenter, entre brigas \u00e9picas com neg\u00f5es e envolvimento at\u00e9 o pesco\u00e7o num complexo esquema interplanet\u00e1rio onde as bundas de alguns extraterrestres terminam chutadas, nosso her\u00f3i John Nada consegue p\u00f4r as m\u00e3os em um par de \u00f3culos feito com lentes \u00fanicas, lentes que mostram o mundo como o mundo realmente \u00e9. Por tr\u00e1s do tecido da sociedade, das conven\u00e7\u00f5es, dos rostos, de cada situa\u00e7\u00e3o e cada conversa inofensiva numa esquina ou balc\u00e3o de bar. Pra quem n\u00e3o sabe, quem achou que se tratava de mero artigo de sci-fi barato sa\u00eddo da mente torcida por uns tragos de u\u00edsque de um velho demente, as lentes nos \u00f3culos de John Nada s\u00e3o verdade, e devem estar at\u00e9 hoje perdidas, jogadas em algum por\u00e3o, nas c\u00e2meras que Anthony Mann usou para filmar O Caminho do Diabo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eu comentava com o Dan esses dias como n\u00e3o sentia necessidade alguma de ver os filmes do Mann com legendas. N\u00e3o por minhas maravilhosas habilidades adquiridas no idioma dos gringos (meu vocabul\u00e1rio \u00e9 game over, go!, 99 rings e flawless victory). N\u00e3o. No cinema (seja a \u00e9poca, o pa\u00eds, o diabo que for), o idioma \u00e9 um s\u00f3, e s\u00f3 pode se chamar \u201ccineasta\u201d o cara que desvendou seus segredos e passeia livre por seus dom\u00ednios. Como toda arte, cinema \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 express\u00e3o, \u00e9 dizer com um quadro o que 1000 palavras n\u00e3o diriam.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em O Caminho do Diabo (caralho, vou come\u00e7ar a falar do filme no 3\u00ba par\u00e1grafo, eu t\u00f4 cada vez pior mesmo), Mann manipula as linhas, os \u00e2ngulos, os objetos e as pessoas em cena como quem rearranja letras num alfabeto, escrevendo o que devemos sentir e o que precisamos saber detr\u00e1s de cada conflito. O texto \u00e9 mero capricho, os di\u00e1logos s\u00e3o utilit\u00e1rios, est\u00e3o no filme pelo mesmo motivo que os homens usam chap\u00e9us e n\u00e3o bon\u00e9s da Texaco. Tudo que h\u00e1 para ser dito em O Caminho do Diabo \u00e9 dito pela c\u00e2mera, que como indicado inicialmente, atravessa a superf\u00edcie de cada situa\u00e7\u00e3o e penetra a um n\u00edvel de onisci\u00eancia, compartilhando com o espectador a sensa\u00e7\u00e3o pura e genu\u00edna de ler mentes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 assim que Mann vai construindo \u00f3dio e preconceito atrav\u00e9s daquela velha habilidade sobre-humana pra compor planos. Trazendo o p\u00fablico para a \u00f3ptica do \u00edndio em oposi\u00e7\u00e3o ao homem branco (o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 um verdadeiro evento no g\u00eanero), Mann capta todos os sinais de atrito racial e falhas de car\u00e1ter (talvez invis\u00edveis aos olhos de um branco) como manifesta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas em cena.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como da primeira vez que Lance entra no bar e \u00e9 observado pelo rancheiro em primeir\u00edssimo plano e j\u00e1 quase saindo do quadro, formando uma figura que \u00e9 mais silhueta do que forma distinta e que domina em absoluto a cena, oprimindo em tamanho e posi\u00e7\u00e3o os outros tr\u00eas personagens no final do balc\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ou na cena da briga, a melhor do filme, das coisas mais secas e en\u00e9rgicas do cinema. Primeiro a tens\u00e3o e a atmosfera de imin\u00eancia de trag\u00e9dia que se instala com aquela genial virada de c\u00e2mera \/ virada de face quando surgem o espelho do bar, a cara de espanto e raiva de Lance, o cartaz com \u201cno liquor allowed for indians\u201d, e os rel\u00e2mpagos da tempestade que desaba do lado de fora, tudo num mesmo quadro. \u00c9 quando a c\u00e2mera volta a se alojar naquele mesmo cantinho da cena anterior, onde o rancheiro e um homem conversam debochadamente sobre as novas leis do Estado e o descaso com os nativos. O que se segue \u00e9 uma coreografia de movimentos, de cortes exatos e ritmo sustentado na ponta dos dedos. Dois lutam no assoalho do bar enquanto os homens brancos observam impass\u00edveis, filmados como se fossem est\u00e1tuas ou entalhados em madeira, com um contraste valorizado, uma luz dura nas caras de fantasmas e cada pequena sali\u00eancia f\u00edsica explorada como se fossem sali\u00eancias de moral.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">*<em>cont\u00e9m spoilers<\/em> (apesar de que seria pura inoc\u00eancia imaginar qualquer coisa diferente)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mundo captado por Mann \u00e9 seco n\u00e3o por um trabalho de cria\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o de determinado universo dieg\u00e9tico, n\u00e3o h\u00e1 falsidade nas formas, e de certo modo, n\u00e3o h\u00e1 fic\u00e7\u00e3o. Por isso O Caminho do Diabo \u00e9 um filme frio, necessariamente duro e amargo como n\u00e3o poderia deixar de ser (caso contr\u00e1rio resultaria em simples desonestidade), e Mann usa o ritmo como forma de desenhar essa despedida &#8211; morte \/ assassinato de um povo pelo outro &#8211; ao de repente quebrar uma sequ\u00eancia euf\u00f3rica de explos\u00f5es e invas\u00e3o e cavalaria armada se dilacerando no campo de batalha para filmar um pequeno r\u00e9quiem. A c\u00e2mera pede licen\u00e7a \u00e0 a\u00e7\u00e3o para registrar o triste adeus de Lance \u00e0 sua amada (jamais ficariam juntos, como ele sempre soube) e acompanh\u00e1-lo num caminhar lento e evanescente pelas ru\u00ednas da sua ra\u00e7a, o acampamento despeda\u00e7ado, a poeira da guerra do lado de fora e um sol maci\u00e7o que atravessa com viol\u00eancia os buracos abertos na madeira. Mann emoldura Lance nesse cen\u00e1rio l\u00fagubre por alguns instantes, como quem emoldura um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas a esta altura os \u00faltimos passos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais os passos de um \u00edndio ou de um branco. N\u00e3o importa mais. A figura que marcha com dificuldade sobre a terra tem a pele escura, carrega um uniforme de militar no corpo e bate uma \u00faltima contin\u00eancia ao chegar ao oficial. Os \u00faltimos passos s\u00e3o de um homem, simplesmente; um ser humano sem estirpe. Porque ao matar o \u00edndio, o homem branco mata tamb\u00e9m uma parte de si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Where are the others?<br \/>\n&#8211; We\u2019re all gone.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E cai morto.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/equipe\/luis-henrique-boaventura\/\">Luis Henrique Boaventura<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Eles Vivem, de John Carpenter, entre brigas \u00e9picas com neg\u00f5es e envolvimento at\u00e9 o pesco\u00e7o num complexo esquema interplanet\u00e1rio onde as bundas de alguns extraterrestres terminam chutadas, nosso her\u00f3i John Nada consegue p\u00f4r as m\u00e3os em um par de &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/04\/14\/o-caminho-do-diabo-devil%e2%80%99s-doorway-anthony-mann-1950\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[219,2526,681,875,1616,2481],"class_list":["post-5540","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comentarios","tag-anthony-mann","tag-cinema","tag-devils-doorway","tag-filmes","tag-o-caminho-do-diabo","tag-western"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5540","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5540"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5540\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5540"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5540"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5540"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}