{"id":549,"date":"2008-07-09T21:07:09","date_gmt":"2008-07-09T23:07:09","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=549"},"modified":"2008-07-09T21:07:09","modified_gmt":"2008-07-09T23:07:09","slug":"spartacus-stanley-kubrick-1960","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/09\/spartacus-stanley-kubrick-1960\/","title":{"rendered":"Spartacus (Stanley Kubrick, 1960)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Spartacus foi a primeira grande produ\u00e7\u00e3o de Stanley Kubrick, trabalhando como diretor contratado de est\u00fadio, um emprego conseguido por Kirk Douglas, com quem havia feito o anterior Gl\u00f3ria Feita de Sangue. A experi\u00eancia, por\u00e9m, n\u00e3o foi bem vista por Kubrick, que depois de conclu\u00edda a p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o do filme decidiu nunca mais trabalhar para um est\u00fadio novamente. Quem fala sobre um dos grandes \u00e9picos do cinema \u00e9 Robson Galluci, no quinto filme deste especial.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm2.static.flickr.com\/1340\/1439637550_eaac5b8567.jpg?v=0\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Spartacus (Spartacus, 1960)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Spartacus foi o filme mais importante para a carreira de Stanley Kubrick.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes que o leitor fique indignado ao ver obras como 2001 ou Laranja Mec\u00e2nica preteridas em rela\u00e7\u00e3o a esse \u00e9pico, devo lembrar que h\u00e1 uma consider\u00e1vel diferen\u00e7a entre \u201cfilme mais importante da carreira\u201d e \u201cfilme mais importante para a carreira\u201d. Spartacus foi uma experi\u00eancia bastante traum\u00e1tica para Kubrick: contratado por Kirk Douglas, produtor executivo e ator principal do projeto, para substituir Anthony Mann, o diretor sentiu-se amarrado durante toda a produ\u00e7\u00e3o \u2014 suas id\u00e9ias raramente batiam com as de Douglas, que tinha a palavra final. Foi por causa de Spartacus, portanto, que Kubrick decidiu que nunca mais trabalharia como diretor contratado \u2014 garantiu que, dali em diante, s\u00f3 entraria em projetos nos quais tivesse liberdade criativa absoluta. E \u00e9 por esse motivo que considero o filme como o mais importante para a carreira do diretor; foi o estopim que permitiu a realiza\u00e7\u00e3o das posteriores obras-primas do cineasta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 um exerc\u00edcio interessante comparar Spartacus com os primeiros filmes de Kubrick, A Morte Passou por Perto e O Grande Golpe (Fear and Desire n\u00e3o conta, j\u00e1 que era renegado pelo pr\u00f3prio diretor e foi tirado de circula\u00e7\u00e3o): se nestes podemos perceber os primeiros tra\u00e7os de um jovem que um dia se revelaria um g\u00eanio, em Spartacus podemos ver o mesmo realizador de antes, j\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de fazer um filme brilhante (afinal, a obra anterior do cineasta fora o inesquec\u00edvel Gl\u00f3ria Feita de Sangue), mas n\u00e3o fazendo, por algum motivo. \u00c9 a diferen\u00e7a entre \u201cesse sujeito ainda vai filmar uma obra-prima\u201d e \u201cele poderia ter feito melhor dessa vez\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Isso n\u00e3o significa que Spartacus seja ruim ou med\u00edocre, pelo contr\u00e1rio. Embora n\u00e3o esteja \u00e0 altura das obras subseq\u00fcentes (com exce\u00e7\u00e3o de Lolita), o filme \u00e9 um \u00f3timo \u00e9pico, mesmo tendo vindo depois de Ben-Hur. E, apesar de tudo, n\u00e3o h\u00e1 como negar que foi dirigido por Stanley Kubrick: sua assinatura inconfund\u00edvel est\u00e1 l\u00e1, mesmo que um pouco apagada. Na beleza est\u00e9tica, podemos reconhecer o Kubrick que mais tarde nos presentearia com Barry Lyndon; no fundo pol\u00edtico da trama, o Kubrick que mais tarde faria Dr. Fant\u00e1stico e Laranja Mec\u00e2nica; na escala grandiosa do filme, o Kubrick que mais tarde mostraria ao mundo seu \u00e9pico peculiar, 2001: Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem mais delongas, um resumo do enredo: Spartacus \u00e9 um escravo tr\u00e1cio comprado por Lenulus Batiatus (Peter Ustinov, irrepreens\u00edvel), que possui uma escola onde treina gladiadores. Durante uma visita do general Marcus Licinius Crassus (Laurence Olivier), Batiatus \u00e9 persuadido a realizar dois combates que dever\u00e3o se estender at\u00e9 que um dos oponentes morra. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente traum\u00e1tica para os escravos, que se v\u00eaem obrigados a lutar at\u00e9 a morte contra um amigo. A conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 o in\u00edcio de uma rebeli\u00e3o na escola de gladiadores \u2014 rebeli\u00e3o que ganha aos poucos propor\u00e7\u00f5es \u00e9picas e se transforma no maior levante de escravos da hist\u00f3ria de Roma. Do outro lado, no Senado romano, est\u00e3o o pr\u00f3prio Crassus, que v\u00ea na revolta uma oportunidade para adquirir poder, e Gracchus (Charles Laughton), que procura a solu\u00e7\u00e3o que cause menos transtornos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um fator que diferencia Spartacus de outros \u00e9picos, e onde j\u00e1 se manifesta a marca de Kubrick, \u00e9 que o manique\u00edsmo aqui \u00e9 bem mais moderado. Todos os escravos s\u00e3o retratados como pessoas boas, simples, fazendo brincadeiras entre si, sem defeito algum, praticamente, mas o mesmo n\u00e3o ocorre no n\u00facleo romano da hist\u00f3ria (que, por sinal, \u00e9 o mais envolvente). Tomemos Gracchus como exemplo: simplificando as coisas, ele seria um dos mocinhos do filme, mas n\u00e3o \u00e9 mostrado em momento algum como algu\u00e9m perfeito ou completamente virtuoso \u2014 h\u00e1 inclusive um momento em que ele diz \u201cPol\u00edtica \u00e9 uma profiss\u00e3o pr\u00e1tica. Se o criminoso tem o que voc\u00ea quer, negocie com ele.\u201d, o que, infelizmente, n\u00e3o deixa de ser verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse fundo pol\u00edtico da trama, ali\u00e1s, \u00e9 um dos melhores aspectos de Spartacus, e mais um que traz a marca de seu diretor. (O filme foi acusado de ser comunista na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, e ainda trazia Dalton Trumbo, que estava na lista negra de Hollywood, nos cr\u00e9ditos.) \u00c9 extremamente interessante acompanhar as jogadas (n\u00e3o h\u00e1 outra maneira de defini-las) dos senadores romanos, que n\u00e3o pensam duas vezes antes de manipular algu\u00e9m ou se utilizar de uma orat\u00f3ria invej\u00e1vel com o objetivo de enfraquecer uma vis\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 sua. Usando mais uma vez Gracchus como exemplo: a certa altura do filme, ele indica Marcus Glabrus (John Dall), comandante da Guarda Romana e pupilo de Crassus, para ir ao encontro do ex\u00e9rcito de Spartacus e venc\u00ea-lo. O ponto \u00e9 que h\u00e1 uma grande chance de Glabrus perder o combate e voltar humilhado \u2014 e, assim, quem o substituiria seria o comandante provis\u00f3rio (que, por sua vez, \u00e9 pupilo de Gracchus). Outros momentos \u00f3timos s\u00e3o as estrat\u00e9gias e contra-estrat\u00e9gias de Gracchus e Crassus, das quais n\u00e3o vou falar aqui por ocorrerem j\u00e1 com o filme bastante avan\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E chegamos a Crassus, que pode ser definido como o vil\u00e3o da hist\u00f3ria\u2026 mas as coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples quanto parecem. Como dito acima, Spartacus \u00e9 um filme que foge do manique\u00edsmo em certo aspecto \u2014 e isso \u00e9 not\u00e1vel quando se trata do personagem do general. Embora o roteiro d\u00ea a oportunidade de retrat\u00e1-lo como um homem mal\u00e9fico e terr\u00edvel, Crassus se mostra como algu\u00e9m que simplesmente decidiu se adaptar ao seu meio \u2014 Roma, no caso. A cena em que ele diz ao seu criado que Roma domina o mundo inteiro, e que a \u00fanica escolha inteligente \u00e9 admir\u00e1-la e servi-la, revela bastante de sua personalidade. Crassus considera Roma um imp\u00e9rio indestrut\u00edvel, e vislumbra a chance de chegar ao poder. M\u00e9ritos para Kubrick e, principalmente, para Laurence Olivier, brilhante \u2014 houve momentos em que eu cheguei a torcer pelo general.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A dire\u00e7\u00e3o de Kubrick tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3tima, embora n\u00e3o t\u00e3o estupenda quanto a dos filmes que viriam a seguir, ou a de Gl\u00f3ria Feita de Sangue. As seq\u00fc\u00eancias de a\u00e7\u00e3o s\u00e3o incr\u00edveis, especialmente a batalha final entre os ex\u00e9rcitos de Spartacus e Crassus: antes de ela come\u00e7ar efetivamente, Kubrick gasta v\u00e1rios minutos acompanhando a movimenta\u00e7\u00e3o das tropas (em tomadas que certamente Peter Jackson viu), estabelecendo um clima de tens\u00e3o admir\u00e1vel. Lan\u00e7ar um \u00e9pico com cenas de a\u00e7\u00e3o marcantes apenas um ano depois de Ben-Hur e sua espetacular corrida de bigas \u00e9 coisa para poucos. E, antes que me esque\u00e7a, preciso citar aquela que considero a melhor cena do filme: aquela em que Antoninus recita um poema cujo tema \u00e9 o retorno para casa. \u00c9 l\u00edrica, espl\u00eandida\u2026 seria Kubrick ensaiando para 2001?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o h\u00e1 muito mais o que falar sobre Spartacus. Elogiar a fotografia, de Russell Metty, ou a bela seq\u00fc\u00eancia de abertura, do genial Saul Bass, e demais aspectos t\u00e9cnicos seria chover no molhado, repetir o \u00f3bvio. Ao contr\u00e1rio das obras posteriores de Kubrick, esse \u00e9pico (ou melhor, Kirk Douglas) nunca teve a inten\u00e7\u00e3o de dar margem a discuss\u00f5es complexas sobre o homem, a guerra ou a sociedade. Inclusive, quando decidi escrever sobre Spartacus, o fiz por imaginar que seria mais f\u00e1cil (fui pregui\u00e7oso, admito). Quase me arrependi da escolha, depois de rever o filme duas vezes em dois dias e contemplar o cursor piscando numa p\u00e1gina em branco durante v\u00e1rias horas. Acabei chegando a uma conclus\u00e3o: \u00e9 dif\u00edcil escrever sobre qualquer filme do diretor. Mas isso n\u00e3o deveria ser uma surpresa para mim; afinal, estamos falando de Stanley Kubrick.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Robson Galluci<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Spartacus foi a primeira grande produ\u00e7\u00e3o de Stanley Kubrick, trabalhando como diretor contratado de est\u00fadio, um emprego conseguido por Kirk Douglas, com quem havia feito o anterior Gl\u00f3ria Feita de Sangue. 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