{"id":5353,"date":"2010-04-03T11:07:48","date_gmt":"2010-04-03T14:07:48","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=5353"},"modified":"2010-04-03T11:07:48","modified_gmt":"2010-04-03T14:07:48","slug":"moeda-falsa-t-men-anthony-mann-1947","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/04\/03\/moeda-falsa-t-men-anthony-mann-1947\/","title":{"rendered":"Moeda Falsa (T-Men &#8211; Anthony Mann, 1947)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5355 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/011.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5356 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/021.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5354 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/04\/031.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todo bom\u00a0<em>noir<\/em> \u00e9 feito de ambig\u00fcidades. S\u00e3o amb\u00edguos os gestos, as vozes, as palavras, os sentimentos, os corpos, as luzes, as sombras, e em cada desdobramento oculto sob a superf\u00edcie aprofundam-se os m\u00e9ritos de um g\u00eanero escorregadio, incerto e necessariamente enganador. Anthony Mann, em sua longa fase dedicada ao\u00a0<em>noir<\/em> (a qual talvez nunca tenha abandonado at\u00e9 o fim da carreira), provou ser um cara que entendia as regras desse jogo como poucos, o que lhe permitiu experimentar diversos tipos de abordagens e estilos, seja com narrativas curtas ou mais dilatadas, com estruturas centrais \u00fanicas ou cheias de reviravoltas, abra\u00e7ando o g\u00eanero e marcando seu nome como um dos principais representantes dele. Mas talvez nunca ele tenha ido t\u00e3o longe como neste assombro que \u00e9\u00a0<em>Moeda Falsa<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Filme pautado pelo contorno do relato jornal\u00edstico \u2013 num tom documental que enfatiza a validade das informa\u00e7\u00f5es e dos nomes envolvidos \u2013 desde o in\u00edcio associa-se a uma tradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 em voga nos anos 30 (Hawks, Wyler, Curtiz&#8230;), mas dentro de um raro equil\u00edbrio com o ficcional, como se fizesse parte de toda uma contemporaneidade (Rouch, Kiarostami, Coutinho&#8230;) que reconhece no pr\u00f3prio discurso do cinema um ve\u00edculo amb\u00edguo e question\u00e1vel a ser explorado. Pois a impress\u00e3o que temos ao assistir\u00a0<em>Moeda Falsa, <\/em>\u00e9 que Mann desejava mais do que tudo, trilhar caminhos desconhecidos, ou pelo menos testar os limites dos que j\u00e1 existiam.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 preciso ser sincero. N\u00e3o estamos diante de um filme agrad\u00e1vel, e n\u00e3o posso recomend\u00e1-lo a quem estiver procurando um par de horas com divers\u00e3o e entretenimento. Podem acusar: falta drama, falta a\u00e7\u00e3o, faltam personagens marcantes e (o pior, claro) faltam mulheres. Eu mesmo acusei-o disso tudo no in\u00edcio. Mas est\u00e1 tudo l\u00e1, obtuso, oculto,\u00a0<em>amb\u00edguo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Poucas vezes se ver\u00e1 um\u00a0<em>noir<\/em> t\u00e3o homog\u00eaneo. O cinza, o sexo, os espa\u00e7os, as vestes, em tudo Mann imprime um\u00a0<em>mesmo<\/em> que torna dif\u00edcil distinguir a representa\u00e7\u00e3o da alteridade. Mas \u00e9 isso que possibilita o lugar do amb\u00edguo e faz do filme um tratamento \u00fanico ao\u00a0<em>noir<\/em>, dificultando uma associa\u00e7\u00e3o a qualquer outro filme, ainda que do pr\u00f3prio Mann. A homogeneiza\u00e7\u00e3o de todos os homens que povoam o filme, com seus ternos iguais, suas vozes, seus cigarros e comportamentos repetidos, s\u00e3o o que permitem aos \u2018Homens do Tesouro\u2019 (os\u00a0<em>T-Men<\/em>) infiltrarem-se no s\u00f3rdido mundo da falsifica\u00e7\u00e3o de dinheiro, onde n\u00e3o s\u00f3 as notas s\u00e3o falsas, mas cada um dos indiv\u00edduos. Uma das cenas mais visualmente emblem\u00e1ticas dessa realidade \u00e9 aquela onde um homem \u00e9 assassinado dentro de uma sauna, quando em meio ao vapor acinzentado e onipresente captamos apenas o debater das sombras, um desespero abstrato que termina por nos fazer ver tudo com maior clareza (em reverso ao recente e igualmente antol\u00f3gico Cronenberg de\u00a0<em>Eastern Promises, <\/em>que do expl\u00edcito extrai o n\u00e3o revelado).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A aridez das aparentes faltas (drama = a\u00e7\u00e3o = mulheres&#8230;) \u00e9 compensada por inquieta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o presentes nas menores coisas, seja nas l\u00e2mpadas que examinam as notas, nos espelhos que unem em mesmo reflexo e consequentemente diluem o bem e o mau dos protagonistas, ou na l\u00e1grima derramada com a breve apari\u00e7\u00e3o da esposa de um dos infiltrados, que chora a dor de se saber negada por um bem maior, falsificada pelo dever da lei e da justi\u00e7a. Somente sob os contornos do falso este falso universo poder\u00e1 ser abalado, e a justeza de Mann est\u00e1 em corromper o pr\u00f3prio\u00a0<em>noir<\/em>, relembrando sempre que todo bom cinema \u00e9 feito de falsidades.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/equipe\/fernando-mendonca\/\">Fernando Mendon\u00e7a<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo bom\u00a0noir \u00e9 feito de ambig\u00fcidades. 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