{"id":533,"date":"2008-07-08T20:56:34","date_gmt":"2008-07-08T22:56:34","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=533"},"modified":"2008-07-08T20:56:34","modified_gmt":"2008-07-08T22:56:34","slug":"gloria-feita-de-sangue-stanley-kubrick-1957-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/08\/gloria-feita-de-sangue-stanley-kubrick-1957-2\/","title":{"rendered":"Gl\u00f3ria Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Em 1957, Kubrick troca o universo aventuresco dos policiais para falar s\u00e9rio pela primeira &#8211; sem contar o desastroso discurso de Fear and Desire &#8211; vez. O resultado foi Gl\u00f3ria Feita de Sangue (Paths of Glory), pequeno cl\u00e1ssico dos filmes de guerra que conta com um dos mais fortes discursos anti-belicistas j\u00e1 filmados. Confira as impress\u00f5es do nosso maior f\u00e3 do filme, S\u00edlvio Tavares.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.timeout.com\/img\/39818\/image.jpg\" alt=\"\" width=\"468\" height=\"364\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>Gl\u00f3ria Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ser humano \u00e9 ser portador de um intenso conflito psicol\u00f3gico di\u00e1rio. Ao mesmo tempo que amamos de uma forma que nenhum outro animal que existe ou j\u00e1 existiu na Terra jamais foi ou seria capaz, somos individualistas, ego\u00edstas e cru\u00e9is como o mais terr\u00edvel dos dem\u00f4nios (e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a figura da pavorosa entidade representante das trevas possui caracter\u00edsticas f\u00edsicas t\u00e3o humanas, apesar das assimetrias inerentes a um ser sobrenatural).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E como titulares desse paradoxo de dif\u00edcil resolu\u00e7\u00e3o, institu\u00edmos normas para minimizar os efeitos danosos da segunda corrente acima descrita (note: minimizar e n\u00e3o aniquilar). \u00c9 ent\u00e3o que surgem as leis, o conv\u00edvio em sociedade e as puni\u00e7\u00f5es para os infratores de suas &#8220;cl\u00e1usulas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, por mais que tais condutas sejam logicamente indesej\u00e1veis, racionalmente degradantes, elas continuam intr\u00ednsecas \u00e0 nossa natureza. E, como tudo que \u00e9 lan\u00e7ado para debaixo do tapete por ser execr\u00e1vel pela voz da consci\u00eancia, quando surge uma oportunidade, esse componente m\u00f3rbido do pensamento humano se manifesta de forma muito mais forte, como uma rajada de balas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Alguns ambientes apresentam uma estrutura coerente com a manifesta\u00e7\u00e3o de tais \u00edndoles. L\u00e1 a voz da consci\u00eancia \u00e9 mascarada pela legitima\u00e7\u00e3o de regras de suposto comum acordo entre todos os homens, brechas do car\u00e1ter mais adequado \u00e0 vida em sociedade a fim de organizar uma defesa organizada em prol de algo que justifique qualquer meio para atingir o fim maior, seja qual ele for. Na obra de Kubrick, Gl\u00f3ria Feita de Sangue, esse fim encontra eco em dois pontos: na defesa de um terr\u00edt\u00f3rio conquistado por um povo e no maior de todos os bens: a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Falamos, \u00e9 claro, de guerra e das medidas dr\u00e1sticas adotadas em tais per\u00edodos. Da institui\u00e7\u00e3o legalizada de uma organiza\u00e7\u00e3o composta por entes hier\u00e1rquicos e que atribui maior poder a alguns humanos que outros &#8211; o ex\u00e9rcito. Em uma situa\u00e7\u00e3o em que vida, morte, crueldade, hierarquia e disciplina s\u00e3o apenas elementos necess\u00e1rios para a vit\u00f3ria (que representa a defesa do territ\u00f3rio e a destrui\u00e7\u00e3o do poderio do soldado inimigo). E pior: de, atrav\u00e9s de tais elementos t\u00e3o incoerentes com a vida em sociedade anteriormente desejada em \u00e9pocas comuns, serem sin\u00f4nimos de bravura, coragem e at\u00e9 mesmo induzindo a martiriza\u00e7\u00e3o dos propagadores de seus princ\u00edpios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De todos os elementos envolvidos, a obra de Kubrick escolhe o mais inquietante de todos para mostrar os absurdos da nossa tend\u00eancia autodestrutiva: o poder. Atrav\u00e9s dele e da legalidade do uso institu\u00eddo calmamente por nossas pr\u00f3prias regras, h\u00e1 vaz\u00e3o para abusos. \u00c9 por isso que grande parte das falas do General Mireau ou a estaticidade\/crueldade desesperadora de Broulard se tornam t\u00e3o imensamente plaus\u00edveis e assustadoras, quando analisadas em nosso contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para enfatizar e causar mais impacto ainda, Kubrick usa posturas explicitamente detest\u00e1veis dos personagens (beirando inclusive o c\u00f4mico, mas mais por sua natureza absurda que pela inten\u00e7\u00e3o em si ). Dentre v\u00e1rias cenas, a que mais me chama a aten\u00e7\u00e3o ocorre quando, em uma inspe\u00e7\u00e3o perante os homens sob seu dom\u00ednio, o General Mireau pergunta a v\u00e1rios dos soldados se estavam &#8220;prontos para matar alguns alem\u00e3es&#8221;. A frase \u00e9 t\u00e3o impactante quanto a frieza envolvida na resposta positiva desejada por sua figura autorit\u00e1ria. Diante de uma resposta indesej\u00e1vel de um dos membros da corpora\u00e7\u00e3o, portanto, os companheiros rapidamente correm a prontamente responder: &#8220;\u00e9 trauma de guerra&#8221;. A ira do General \u00e9 despertada de imediato. &#8220;N\u00e3o EXISTE trauma de guerra&#8221; &#8211; diz ele exaltado. Na verdade, para estar no ex\u00e9rcito \u00e9 necess\u00e1rio a falta de humanidade, homens duros e cru\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Naturalmente, muitos outros temas relativos a essa mudan\u00e7a do paradigma de conduta desejado s\u00e3o discutidos aqui e diante desse cen\u00e1rio in\u00f3spito, a obra \u00e9 simplesmente rica demais para analisar com palavras. Fatores como o protecionismo da institu\u00e7\u00e3o militar, a religiosidade e seu papel controverso diante de situa\u00e7\u00f5es horrendas (a rea\u00e7\u00e3o distinta dos personagens quando submetidos a concretiza\u00e7\u00e3o dos valores religiosos na figura dos padres), o car\u00e1ter &#8220;inquestion\u00e1vel&#8221; dos oficiais bem como a desumaniza\u00e7\u00e3o e os interesses particulares inerentes \u00e0 suas naturezas, enfim, &#8220;desculpas esfarrapadas&#8221; para falar de algo que ultrapassa aquelas barreiras e adquire cunho muito mais profundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Bel\u00edssima e complexa obra com uma cena final absolutamente fabulosa, confrontando nossa composi\u00e7\u00e3o controversa atrav\u00e9s das l\u00e1grimas de soldados emocionados segundos depois de uma postura animalesca e compulsiva refletida na cena do bar e na voz perturbada e amedrontada (mas de devastador impacto psicol\u00f3gico) presente na can\u00e7\u00e3o entoada por Christiane Kubrick.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>S\u00edlvio Tavares<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1957, Kubrick troca o universo aventuresco dos policiais para falar s\u00e9rio pela primeira &#8211; sem contar o desastroso discurso de Fear and Desire &#8211; vez. 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