{"id":5279,"date":"2010-03-30T13:40:38","date_gmt":"2010-03-30T16:40:38","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=5279"},"modified":"2010-03-30T13:40:38","modified_gmt":"2010-03-30T16:40:38","slug":"two-oclock-courage-anthony-mann-1945","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/03\/30\/two-oclock-courage-anthony-mann-1945\/","title":{"rendered":"Two O&#8217;Clock Courage (Anthony Mann, 1945)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5281 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/03\/0118.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5282 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/03\/0221.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5280 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/03\/0319.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Num mesmo movimento seguimos um homem perambulando tr\u00f4pego pela cal\u00e7ada. \u00c9 noite. Ningu\u00e9m mais ao derredor. Ap\u00f3ia-se num poste. Subimos at\u00e9 as placas que nomeiam as ruas. Voltamos ao homem. E quando ele vira o rosto vemos o sangue escorrendo pela face de algu\u00e9m que n\u00e3o tem nome, mem\u00f3ria ou passado. O pr\u00f3logo de\u00a0<em>Two o\u2019clock Courage<\/em> poderia facilmente figurar num rol de \u2018melhores aberturas do cinema\u2019, pela densidade, dura\u00e7\u00e3o e sobriedade com que somos inseridos na experi\u00eancia f\u00edlmica. A c\u00e2mera de Mann, habitualmente oculta (como de fato se tornar\u00e1 no decorrer deste filme), permite-se aqui um dos mais belos f\u00f4legos do per\u00edodo negro do diretor. \u00c9 por ela que percebemos estar diante de uma situa\u00e7\u00e3o incomum, embriagada, de um on\u00edrico palp\u00e1vel ao ponto de ser real. Por ela a sugest\u00e3o do mundo atinge um estado quase metaf\u00edsico, que apesar de brevemente dilacerado pela intromiss\u00e3o de outros personagens, n\u00e3o deixar\u00e1 de sugerir-se at\u00e9 o fim do enredo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O\u00a0<em>homem sem nome<\/em> (Tom Conway), acometido por um surto de amn\u00e9sia, descobrir\u00e1 estar envolvido em um crime do qual pode carregar a culpa, e em pouco mais de 60 minutos de filme (CARAMBA! Como \u00e9 que Mann conseguia fazer tanto em t\u00e3o pouco tempo?), veremos o ac\u00famulo de pistas, descobertas e perip\u00e9cias que o far\u00e3o adotar diversas identidades, ora levando-o ao lugar de assassino, ora inocentando-o. \u00c9 muito dif\u00edcil n\u00e3o nos lembrarmos da condi\u00e7\u00e3o hitchcockiana do\u00a0<em>falso culpado<\/em>, n\u00e3o somente pelo \u00f3bvio mote central, como pela dire\u00e7\u00e3o a que Mann se permite, seja com a abertura not\u00e1vel ao humor (especialmente na brilhante participa\u00e7\u00e3o de Ann Rutherford) como pela manifesta\u00e7\u00e3o do suspense e o metaf\u00edsico n\u00facleo motor que lhe move. Ali\u00e1s, tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o enxergar em tudo isso um ensaio do que Mann faria em outros filmes seus, como\u00a0<em>The Naked Spur<\/em>, quando em mais uma de suas geniais aberturas (talvez minha favorita), vemos um\u00a0<em>homem sem corpo<\/em> escondido atr\u00e1s de uma montanha causando furor em seus perseguidores. \u00c9 padr\u00e3o que no universo de Mann os homens sejam incompletos, que lhes falte um nome, um corpo, um car\u00e1ter, para que o desenvolver do filme lhes restabele\u00e7a uma plenitude que dependa do movimento instaurado (eis o lugar onde o car\u00e1ter tr\u00e1gico do cinema de Mann pode come\u00e7ar a ser pensado, mas isso fica para outro momento).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E se aqui temos o movimento num grau din\u00e2mico que extrai da postura narrativa \u2013 o contar da hist\u00f3ria \u2013 o m\u00e1ximo de vigor e flu\u00eancia, tamb\u00e9m vemos a constru\u00e7\u00e3o desse movimento como um ponto de cria\u00e7\u00e3o, de nascimento das id\u00e9ias e das formas que constituem o material final do filme. Isso porque o roteiro dentro do filme (hom\u00f4nimo ao mesmo) al\u00e9m de surgir como o McGuffin da trama, sugere o processo de escritura ao qual Mann nos convida a participar. Vemos nomes serem atribu\u00eddos ao protagonista e eles mudam todo o tempo; a cada cena ele se transforma exatamente como se estivesse ainda sendo delineado pela mente imaginativa de um roteirista, e o vigor com que Mann nos oferece essa co-autoria \u00e9 o que faz de seu filme, mais do que um ato de coragem, um ato de humildade e descontra\u00e7\u00e3o que elevam o potencial do entretenimento a uma auto-reflex\u00e3o genu\u00edna. E se ele faz isso t\u00e3o bem num emaranhado de personagens e nomes que se tornariam armadilha nas m\u00e3os de cineastas desavisados, prova que j\u00e1 aqui possu\u00eda um apurado senso daquilo que coordena o existir de um filme, apto para jogar com as pe\u00e7as e nos convidar a isso, disposto a imprimir em cada reviravolta um sorriso enorme, pois \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o perceber como Mann se divertia em contar uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/equipe\/fernando-mendonca\/\">Fernando Mendon\u00e7a<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num mesmo movimento seguimos um homem perambulando tr\u00f4pego pela cal\u00e7ada. \u00c9 noite. Ningu\u00e9m mais ao derredor. Ap\u00f3ia-se num poste. Subimos at\u00e9 as placas que nomeiam as ruas. Voltamos ao homem. 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