{"id":5262,"date":"2010-03-29T19:05:12","date_gmt":"2010-03-29T22:05:12","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=5262"},"modified":"2010-03-29T19:05:12","modified_gmt":"2010-03-29T22:05:12","slug":"the-great-flamarion-anthony-mann-1945","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2010\/03\/29\/the-great-flamarion-anthony-mann-1945\/","title":{"rendered":"The Great Flamarion (Anthony Mann, 1945)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5260 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/03\/o-grande-flamarion1.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5261 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/03\/o-grande-flamarion2.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5259 aligncenter\" style=\"margin-top:2px;margin-bottom:2px;border:2px solid black;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2010\/03\/o-grande-flamarion3.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O grande Flamarion \u00e9, antes de tudo, Erich Von Stroheim. Um rosto e um corpo retesado e conhecido (lembremos da deformidade desse corpo em\u00a0<em>A Grande Ilus\u00e3o<\/em>, de Renoir), um homem vivido de prop\u00f3sito ao culto da falha, ao rasp\u00e3o que empolga porque h\u00e1 outros corpos em perigo que n\u00e3o o dele \u2013 este corpo que coloca os outros \u00e0 merc\u00ea de sua habilidade para servir ao objetivo de sobreviver num mundo esquisitamente filmado por Anthony Mann, pois nesse mundo, no seu entorno, n\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada a n\u00e3o ser um olhar espectat\u00f3rio frio, de longe, l\u00e1 da plat\u00e9ia da trag\u00e9dia anunciada. Uma vis\u00e3o do rigor dif\u00edcil de romper a n\u00e3o ser, claro, a partir da a\u00e7\u00e3o modeladora de um outro rigor ainda maior \u2013 o de Mayer da MGM, ou o de Gloria Swanson em\u00a0<em>O Crep\u00fasculo dos Deuses<\/em>, o que quer dizer, nesta ordem, um sistema de produ\u00e7\u00e3o devastador e uma atriz decadente e maluca que precisa preservar sua imagem para sempre. O que destr\u00f3i este seu personagem, no filme de Anthony Mann que leva o seu nome, \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o de uma ditadura breve contra este rigor. \u00c9 um rigor ensaiado no acerto, em um doloroso\u00a0<em>no return. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta \u00e9 uma ditadura da inscri\u00e7\u00e3o do acerto no mundo de um personagem que \u00e9 acostumado a falhar sempre, se olhamos para a dimens\u00e3o do corpo humano como o eterno alvo em potencial de uma arma de fogo \u2013 os westerns est\u00e3o a\u00ed para fermentarem a ideia do corpo esburacado. Em\u00a0<em>O Grande Flamarion<\/em> s\u00f3 se \u00e9 poss\u00edvel falhar justamente naquilo que \u00e9 um acerto fatal: uma morte, incutida em Flamarion pela mente de outra pessoa (Connie, uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>femme fatale<\/em> ninfoman\u00edaca ou apenas uma interesseira sem tamanho e sem profundidade). O problema de Flamarion \u00e9 que sua fama adv\u00e9m de sua destreza ao falhar \u2013 seus disparos brincam com a ideia do perigo, ao mesmo tempo que acalmam a sede da plat\u00e9ia porque h\u00e1 sempre alvos a serem atingidos e destro\u00e7ados com certo humor de um ultra-c\u00eanico marido-homem tra\u00eddo (\u00e9 este o papel que Stroheim far\u00e1 dentro e fora do teatrinho de armas de fogo que sempre erram o seu verdadeiro alvo \u2013 Connie). A admira\u00e7\u00e3o do p\u00fablico que o olha n\u00e3o \u00e9 aquela que diz respeito \u00e0 quantidade de objetos em cena que s\u00e3o destru\u00eddos pelas suas armas e sim pela sua destreza aplicada ao erro constante, ao perigo do acerto. \u00c9 sempre Flamarion o homem que n\u00e3o mata outros homens e que, nisso, se revela um mestre do rigor de cena, do comportamento profissional cl\u00e1ssico, da rigidez da coreografia e do c\u00e1lculo do movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ent\u00e3o, temos mais uma vez (talvez a primeira) um conflito entre Anthony Mann e seu desejo de um cinema que traz de volta um olhar puro e transparente do espectador (a c\u00e2mera neutra, ali,\u00a0<em>t\u00e3o \u00e0 mostra que est\u00e1 escondida<\/em>), um \u201ccontra-a-tela\u201d, que se choca com um outro tipo de rigor, este outro que adv\u00e9m de Stroheim naturalmente, j\u00e1 que \u00e9 ele quem nutrir\u00e1 a trama e a far\u00e1 voltar para tr\u00e1s num flashback sempre pontuado em alguns retornos ao palco de sua morte. O cerne de\u00a0<em>O Grande Flamarion<\/em> \u00e9 observar como Mann encontra um rigor igual ao seu, mas oposto na forma de se revelar. Ele, n\u00e3o por acaso, estaciona como local principal do nascimento dram\u00e1tico um palco de teatro de variedades, e assim vai encerrar o filme, j\u00e1 no come\u00e7o, dentro de um, bem mal iluminado, mal produzido e bastante pobre de recursos. O rigor de Mann diz respeito \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do olhar barato e nulo do espectador: sua c\u00e2mera est\u00e1 ali, \u00e0 altura da trama, mas fora dela, numa posi\u00e7\u00e3o de neutralidade que n\u00e3o a redime de participar sempre de todos os acontecimentos (\u00e9 ela quem vai revelar, entre um corte e outro, o esconderijo de Flamarion-Stroheim acima do palco e isto \u00e9 um verdadeiro primor).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enquanto Mann observa, Stroheim simplesmente arma, constr\u00f3i, estrutura uma no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o e de comportamentos ensaiados na medida exata para a combina\u00e7\u00e3o do \u00eaxito do erro. A cenicidade de Stroheim o coloca como este mestre do rigor quase imbat\u00edvel, porque se conhece sua hist\u00f3ria e seu \u00eaxito no fracasso de\u00a0<em>Ouro e Maldi\u00e7\u00e3o<\/em> anos depois, por exemplo. Mann se coloca ali, numa altura em que nos faz pensar num retorno h\u00edbrido ao tempo em que as salas de cinema eram agora erigidas onde antes funcionavam teatros (e certamente, isso dar\u00e1 um texto futuro) e no quanto isso tamb\u00e9m se trata de um rigor impenetr\u00e1vel at\u00e9 pela ditadura do filme \u00e9pico (<em>El Cid<\/em>): h\u00e1, ainda assim, uma esp\u00e9cie de neutralidade que lhe cai bem. Assim como\u00a0<em>Almas em F\u00faria<\/em>, \u00e9 aqui que Mann coloca sua c\u00e2mera nos lugares corretos \u2013 principalmente como um espectador que n\u00e3o pede transforma\u00e7\u00e3o alguma (na cena em que Dan Dureya \u00e9 atingido, o olhar \u00e9 o da c\u00e2mera, apenas olhando como quem n\u00e3o espera nada) \u2013 para receber um personagem que est\u00e1 em todos os lugares corretos durante todo o filme \u2013 em\u00a0<em>Almas em F\u00faria<\/em>, este personagem seria o de Barbara Stanwyck, corrosiva na sua vontade de domar tudo e inclusive a trama \u2013 Mann a observa tanto, que perde de captar uma cena chocante, aquela da faca jogada na face de uma senhora. Corretos mesmo que sejam para elucidar o erro e a problem\u00e1tica do acerto c\u00eanico de se estar em todos os lugares certos (Cidade do M\u00e9xico, Las Vegas, San Francisco&#8230;) quase que ao mesmo tempo, ainda que O Grande Flamarion seja tamb\u00e9m sobre um esqueleto narrado do fracasso. Um fracasso jamais calculado por Mann, mas ensaiado, claro, por Stroheim, um corpo c\u00eanico sem destino.<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em><a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/equipe\/ranieri-brandao\/\">Ranieri Brand\u00e3o<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O grande Flamarion \u00e9, antes de tudo, Erich Von Stroheim. 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