{"id":508,"date":"2008-07-06T19:53:57","date_gmt":"2008-07-06T21:53:57","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=508"},"modified":"2008-07-06T19:53:57","modified_gmt":"2008-07-06T21:53:57","slug":"a-morte-passou-por-perto-stanley-kubrick-1955-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/06\/a-morte-passou-por-perto-stanley-kubrick-1955-2\/","title":{"rendered":"A Morte Passou por Perto (Stanley Kubrick, 1955)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Primeiro filme comercial de Kubrick, A Morte Passou por Perto (Killer&#8217;s Kiss) teve import\u00e2nica fundamental na carreira do diretor. Ap\u00f3s levantar um or\u00e7amento extremamente limitado de apenas 40 mil d\u00f3lares (os di\u00e1logos precisaram ser gravados posteriormente pela precariedade dos equipamentos), o jovem diretor (e produtor, e roteirista, e fot\u00f3grafo, e editor) de 26 anos venderia seu filme a MGM por US$ 70 mil e abriria algumas portas para uma carreira inigual\u00e1vel. Por Daniel Dalpizzolo, o segundo texto do Especial Stanley Kubrick:<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/blogs.elcomercio.com.pe\/lasoga\/KubrickKillerKiss.jpg\" alt=\"\" width=\"435\" height=\"342\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><strong>A Morte Passou por Perto (Killer&#8217;s Kiss, 1955)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A Morte Passou Por Perto \u00e9 um esbo\u00e7o de muitos dos elementos caracter\u00edsticos e que marcariam os filmes seguintes de Kubrick, sob forma de um pequeno &#8211; em todos os sentidos &#8211; filme-B. Narra\u00e7\u00e3o em off, uso do flash-back, experimenta\u00e7\u00f5es de enquadramento e montagem de planos, travellings laterais, fotografia carregada e rebuscada, ilumina\u00e7\u00e3o dura e com luzes estourando na tela e composi\u00e7\u00f5es visuais detalhadas s\u00e3o lembradas constantemente como algumas das principais marcas visuais do diretor, e vez por outra surgem para fazer deste seu primeiro trabalho um ensaio particular e charmoso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo fazendo parte da filmografia de um dos mais autorais realizadores da segunda metade do s\u00e9culo passado, tudo n\u00e3o passa de um filme t\u00edpico da \u00e9poca, marcada dentre outras coisas pelo auge de um dos mais deliciosos movimentos cinematogr\u00e1ficos da velha Hollywood, o noir &#8211; o filme inclusive se assemelha em certos aspectos \u00e0s produ\u00e7\u00f5es de Joseph Lewis, sem querer compar\u00e1-las porque Lewis estava anos luz \u00e0 frente e fazia obras-primas &#8211; utilizando muito bem os elementos b\u00e1sicos do estilo: fotografia escura, ambientes decadentes, retrato do submundo noturno e a femme fatalle, mulher cuja principal fun\u00e7\u00e3o vital \u00e9 causar problemas ao protagonista. Kubrick balanceia tudo isso e entrega um produto bem eficiente dentro de suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Limita\u00e7\u00f5es que s\u00e3o percept\u00edveis no decorrer do filme, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 das mais baratas, independente e feita ao custo de U$ 40 mil, o que faz com que seja recheada de problemas t\u00e9cnicos. Os efeitos sonoros e di\u00e1logos, por exemplo, tiveram de ser gravados em est\u00fadio depois das filmagens j\u00e1 que Kubrick n\u00e3o tinha dinheiro suficiente para capt\u00e1-los ao mesmo tempo que as imagens. \u00c9 por isso que constantemente h\u00e1 falta de sincronia entre o que se v\u00ea e o que se ouve, sem contar a pouca profundidade no som &#8211; e embora coisas inadmiss\u00edveis \u00e0 carreira de um perfeccionista como Stanley, acabam superando a defeituosidade e se estabelecendo como uma curiosidade a mais para a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas Kubrick ainda encontra algumas formas de driblar as adversidades. Ainda muito jovem, o diretor (apenas 26 anos na \u00e9poca), que tamb\u00e9m assinava roteiro, produ\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o de fotografia e edi\u00e7\u00e3o de som e imagem, faz de alguns momentos os respons\u00e1veis por evitar um distanciamento t\u00e3o sens\u00edvel deste filme em rela\u00e7\u00e3o aos outros filmes menores &#8211; ou menos bons &#8211; de sua filmografia, acrescentando atrav\u00e9s da c\u00e2mera bem pensada um charme \u00e0 banalidade da estrutura narrativa e da trama.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tr\u00eas seq\u00fc\u00eancia s\u00e3o fundamentais para ver A Morte Passou Por Perto como um pequeno exerc\u00edcio de aprimoramento: a primeira \u00e9 a j\u00e1 famosa cena da luta de boxe, que impressiona pela agilidade e versatilidade no posicionamento da c\u00e2mera ao longo da luta, deixando inicualmente as lentes receosas a entrarem no rigue e acompanhando toda a movimenta\u00e7\u00e3o por detr\u00e1s das cordas, a imagem tr\u00eamula e direcionando o olhar especialmente \u00e0 regi\u00e3o peitoral, onde eram disparados os socos mais fortes. Com o aumento da intensidade da luta a c\u00e2mera passa a interagir com a briga, encontrando espa\u00e7o em meio aos atletas e inclusive, em certo momento, tomando o lugar de um deles, subjetivando as imagens numa cena de nocaute.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A segunda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o expl\u00edcita nem complexa, e deve normalmente passar despercebida, mas representa muito bem a classe de Kubrick no do preenchimento do espa\u00e7o de tela dispon\u00edvel: a seq\u00fc\u00eancia em que o boxeador fala com o tio ao telefone. \u00c9 incr\u00edvel o n\u00famero de informa\u00e7\u00f5es passadas em dimens\u00f5es e tempo t\u00e3o pequenos. Em primeiro plano vemos Davey com o telefone, de costas a um espelho, e ao fundo, atrav\u00e9s do reflexo, pode-se ver a movimenta\u00e7\u00e3o no apartamento da dan\u00e7arina, fazendo da imagem um painel de tr\u00eas camadas &#8211; a primeira composta pelo boxeador e todos os objetos existentes ao seu redor, a segunda pelos reflexos do boxeador e dos objetos e por fim a terceira, da qual fazem parte a garota e o seu apartamento. Tudo isso em uma tela letterbox.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 a terceira seq\u00fc\u00eancia, na realidade, \u00e9 o terceiro ato por completo, tenso e muito bem coreografado ao estilo inconfund\u00edvel dos filmes policiais da \u00e9poca, mas com um tremendo diferencial: outra vez Kubrick merece grande destaque por suas escolhas no que diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, conferindo um realismo irrepreens\u00edvel \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o que envolve o cafet\u00e3o e o boxeador &#8211; em especial nos momentos sobre o telhado do edif\u00edcio, quando utiliza apenas os sons dos passos como trilha sonora e, assim, deixa um longo sil\u00eancio pontuar o ritmo da cena.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tamb\u00e9m \u00e9 no terceiro ato que se localiza a cena mais popular de A Morte Passou Por Perto, a briga entre os dois em uma sala recheada de manequins. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 fotografada com precis\u00e3o &#8211; a c\u00e2mera de m\u00e3o pode ser um recurso batido, mas normalmente funciona quando bem empregado &#8211; e encerra de maneira excitante um filme que, embora irregular, \u00e9 fundamental por abrir as portas do cinema ao que viria a ser um dos nomes mais populares de sua hist\u00f3ria recente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Daniel Dalpizzolo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeiro filme comercial de Kubrick, A Morte Passou por Perto (Killer&#8217;s Kiss) teve import\u00e2nica fundamental na carreira do diretor. 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