{"id":478,"date":"2008-07-05T22:54:23","date_gmt":"2008-07-06T00:54:23","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=478"},"modified":"2008-07-05T22:54:23","modified_gmt":"2008-07-06T00:54:23","slug":"fear-and-desire-stanley-kubrick-1953-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/05\/fear-and-desire-stanley-kubrick-1953-2\/","title":{"rendered":"Fear and Desire (Stanley Kubrick, 1953)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.actiu.net\/art\/cinema\/stanleykubrick\/fearanddesire2_petit.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dono de uma filmografia extraordin\u00e1ria, pontuada em sua quase totalidade por obras que apresentavam estudos sociais do comportamento humano &#8211; muitas delas sob o pretexto da guerra -, Stanley Kubrick come\u00e7ou sua carreira fazendo pequenos document\u00e1rios em curta-metragem. Algum tempo depois ele realizou um filme que acabaria se revelando um bom exemplo sobre um dos mist\u00e9rios da humanidade: a evolu\u00e7\u00e3o do homem. N\u00e3o, n\u00e3o falo sobre 2001, Uma Odiss\u00e9ia no Espa\u00e7o. O exemplo aqui citado \u00e9 do primeiro filme em longa-metragem de Kubrick, o in\u00e9dito em circuito comercial Fear and Desire. Rodado com baixo or\u00e7amento (para realizar o filme, Kubrick contou com a ajuda do pai, que hipotecou a casa e investiu no projeto do filho), o filme narra o drama de 4 militares sobreviventes de um acidente a\u00e9reo que ficam perdidos em territ\u00f3rio inimigo e buscam serem salvos e levados de volta para sua base. A evolu\u00e7\u00e3o humana que foi citada logo acima n\u00e3o se refere propriamente \u00e0 narrativa da obra e sim a um contexto extra-campo, o do pr\u00f3prio diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Fear and Desire, muito mais que um trabalho prec\u00e1rio, \u00e9 um produto prim\u00e1rio e n\u00e3o \u00e9 de se espantar que o pr\u00f3prio Kubrick renegue a obra. A apar\u00eancia de ter sido feito nos fundos de casa (ou no caso, numa pequena faixa de &#8220;floresta&#8221;, talvez em um acostamento qualquer de estrada) \u00e9 fruto da falta de recursos e obviamente isso n\u00e3o seria motivos para criticar negativamente a obra; h\u00e1 de se louvar a iniciativa de levar adiante um projeto n\u00e3o bancado por nenhum grande est\u00fadio de Hollywood ou qualquer investidor de peso. Mas a quest\u00e3o a ser considerada \u00e9 que nada tinha a se dizer com este filme, uma esp\u00e9cie de narrativa pacifista (?) sobre um plano de fuga &#8211; ou busca &#8211; de soldados que tentam resgatar suas &#8220;ra\u00edzes&#8221; e ess\u00eancias, mas que no meio do percurso s\u00e3o supreendidos por elementos inesperados (uma mulher n\u00e3o pertencente a uma sociedade civilizada, a gradativa loucura de um dos soldados, a obsess\u00e3o por carnificina de outro, etc) que s\u00e3o incapazes de levar a qualquer conclus\u00e3o. \u00c9 not\u00f3rio que Kubrick nunca foi um expert, nem mesmo em seus filmes seguintes, em dirigir atores e \u00e9 bem poss\u00edvel que isso nunca tenha sido de seu interesse mais agudo, mas em Fear and Desire a teatraliza\u00e7\u00e3o e artificialidade com que o texto \u00e9 dito causam um desconforto desproposital. O pr\u00f3prio roteiro \u00e9 permeado por falas terrivelmente descritivas, sobre uma suposta condi\u00e7\u00e3o existencial, forjando uma profundidade pat\u00e9tica e inveros\u00edmil, ainda mais tendo em conta o n\u00e3o-desenvolvimento de nenhum dos personagens mais profundamente &#8211; e qualquer tentativa feita a respeito disto resultou em coisas ainda piores, falas do tipo &#8220;todo homem \u00e9 um ilha?&#8221;, &#8220;nenhum homem \u00e9 uma ilha&#8221; ou &#8220;ningu\u00e9m sou eu mesmo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas a grande surpresa que Fear and Desire reserva \u00e9 a falta de cuidado com a est\u00e9tica narrativa do filme, este sim um fator ao qual o diretor sempre deu o maior valor. Como um formando bobo de uma universidade de cinema, Kubrick utiliza closes desnecess\u00e1rios que possivelmente eram meros planos de cobertura, descortina um plano no outro e at\u00e9 remete a D.W. Griffith fazendo fus\u00f5es para demonstrar a perturba\u00e7\u00e3o de um personagem e montagem paralela para gerar uma pretensa tens\u00e3o em determinadas cenas. A diferen\u00e7a \u00e9 que Griffith inventou as t\u00e9cnicas nos prim\u00f3rdios do cinema, seja em O Nascimento de uma Na\u00e7\u00e3o, seja em Intoler\u00e2ncia. J\u00e1 Kubrick fazia isso sem nenhum tipo de contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, mais de 40 anos depois e de maneira ainda mais amadora. Al\u00e9m do mais, o esquema repetitivo de plano\/ contra-plano empregado em quase todo o filme \u00e9 inexpressivo e, muitas vezes, esquem\u00e1tico, tendo como pior momento uma quebra abismal de eixo da c\u00e2mera, uma das coisas mais b\u00e1sicas que se pode observar em cinema. A \u00fanica coisa realmente boa que se pode tirar deste filme \u00e9 que se at\u00e9 mesmo Stanley Kubrick j\u00e1 fez uma quebra de eixo inexplic\u00e1vel em seu primeiro filme, qualquer um tem o direito de errar e h\u00e1 esperan\u00e7as para (quase) todos. Med\u00edocres do mundo, se animem, pode estar reservada para voc\u00eas uma carreira muito promissora pela frente!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">1\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dono de uma filmografia extraordin\u00e1ria, pontuada em sua quase totalidade por obras que apresentavam estudos sociais do comportamento humano &#8211; muitas delas sob o pretexto da guerra -, Stanley Kubrick come\u00e7ou sua carreira fazendo pequenos document\u00e1rios em curta-metragem. 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