{"id":3870,"date":"2009-06-12T15:44:20","date_gmt":"2009-06-12T18:44:20","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=3870"},"modified":"2009-06-12T15:44:20","modified_gmt":"2009-06-12T18:44:20","slug":"marcas-da-violencia-a-history-of-violence-david-cronemberg-2005","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2009\/06\/12\/marcas-da-violencia-a-history-of-violence-david-cronemberg-2005\/","title":{"rendered":"Marcas da Viol\u00eancia (A History Of Violence &#8211; David Cronenberg, 2005)"},"content":{"rendered":"<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3886\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2009\/06\/marcas_1.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3885\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2009\/06\/macas21.jpg\" alt=\"macas2\" width=\"495\" height=\"71\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3884\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/multiplot.files.wordpress.com\/2009\/06\/marcas12.jpg\" alt=\"marcas1\" width=\"495\" height=\"71\" \/><\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\">Logo no in\u00edcio do filme, quando Sarah, a filhinha de Tom, acorda gritando depois de um pesadelo, ela diz que: \u201chavia monstros aqui\u201d, e a cena que precede isso \u00e9 a qual dois assassinos fazem uma chacina em um desses hot\u00e9is de beira de estrada, como se esse fosse o pesadelo que ela teve, como se eles fossem os monstros. E <em>Marcas da Viol\u00eancia<\/em> \u00e9 isso, uma guerra sobre a lama, monstros matando monstros, e os respingos disso fazendo vitimas que n\u00e3o tenham nada a ver com a hist\u00f3ria. Na verdade o t\u00edtulo original \u201chistory of violence\u201d \u00e9 perfeito, j\u00e1 que tudo n\u00e3o passa de uma esp\u00e9cie de conto de fadas invertido, onde ao em vez de ser uma hist\u00f3ria para se contar para crian\u00e7as ninar, deveria ser lido por algum aspirante a bandido que esteja em alguma deten\u00e7\u00e3o infantil, como a Cinderela dos marginais. J\u00e1 que o protagonista, o \u201cher\u00f3i\u201d que \u00e9 nos dado para torcer, \u00e9 simplesmente o maior filho da puta do filme, e um dos melhores vil\u00f5es da filmografia do Cronenberg.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que h\u00e1 em <em>Marcas da Viol\u00eancia<\/em> \u00e9 um confronto entre o que parece ser e o que realmente \u00e9, Cronenberg cria uma m\u00edstica em torno de Tom Stall semelhante a que Clint Eastwood fez com Bill Munny, em Os Imperdo\u00e1veis. Ele torna um personagem comum, uma pessoa comum, dedicada a fam\u00edlia, amigos, trabalho, etc&#8230; Em um ser alien\u00edgena, de estudo, daqueles que olhamos com desconfian\u00e7a como se tivesse uma bazuca por de baixo da pele. Quando olhamos pra Tom enxergamos o tipo de cara que acorda no meio da noite para tranquilizar a filha depois de um pesadelo, que \u00e9 recebido na rua por quem quer que seja sempre com um sorriso no rosto e uma entusiasmada sauda\u00e7\u00e3o, que \u00e9 idolatrado pela fam\u00edlia como se fosse um her\u00f3i e etc&#8230; Cronenberg filma Tom assim, filma da forma que Tom gostaria de ter sido, e ao mesmo tempo, sugestiona algo totalmente diferente. Cronenberg nos mostra a ilus\u00e3o da vida perfeita, e depois nos lan\u00e7a para realidade violenta e podre. Ele torna Tom no her\u00f3i modelo a ser seguido, e depois, inesperadamente, destr\u00f3i toda a imagem que t\u00ednhamos criado at\u00e9 ali, nos dando apenas duas alternativas de como seguir o filme dessa hora em diante: torcer para que Tom se safe e continue com seu castelo ilus\u00f3rio que construiu at\u00e9 ali, ou que sofra as consequ\u00eancias por ser o que realmente \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tom n\u00e3o existe, apenas Joey. Torcer para ele \u00e9 como torcer para a impunidade. \u00c9 acreditar que um arrependimento moral (que n\u00e3o existiu tamb\u00e9m, apenas uma fuga covarde) seja o suficiente para livra-lo da pena de toda barb\u00e1rie que j\u00e1 tenha cometido. Quando sua esposa descobre toda a verdade, de que no passado tinha sido um assassino covarde no qual sentia prazer em eliminar suas vit\u00edmas, ele alega que essa pessoa n\u00e3o existe mais, que tinha ido at\u00e9 o deserto, passado anos, at\u00e9 conseguir fazer seu \u00faltimo assassinato, \u2013 simb\u00f3lico &#8211; de Joey. E isso na verdade cria v\u00e1rios paradoxos ideol\u00f3gicos para o personagem: Joey criou Tom para se dar uma nova chance, criou Tom para se livrar de Joey, dar o castigo que esse merece e continuar vivendo uma vida comum. Acontece que Tom foi criado para matar, e isso evid\u00eancia todo o comportamento violento do personagem. Ele cria um assassino para acabar com outro. Ele acaba com a mente de Joey, que usou aquele corpo para todo tipo de viol\u00eancia, e coloca no lugar uma igualmente mente assassina, se n\u00e3o fis\u00edca, pelo menos psicol\u00f3gica. N\u00e3o interessa se \u00e9 Tom ou Joey, ambos s\u00e3o igualmente assassinos e perturbados. E o fato de Tom (ou seja quem for) querer \u201cmatar\u201d Joey, \u00e9 equivalente a querer acabar com o remorso, o m\u00ednimo de castigo que ele deveria carregar consigo. O justo. Se o arrependimento fosse verdadeiro, o m\u00ednimo que poderia fazer \u00e9 viver sendo Joey, lamentando o que fez, acordar suado a noite com pesadelos sobre suas v\u00edtimas, com as fam\u00edlias que ele destruiu. Se n\u00e3o sofrer as consqu\u00eancias f\u00edsicas, pelo menos as psicol\u00f3gicas. O seu suposto arrependimento foi o suficiente para ele se dar uma nova chance, achar que tinha o direito de come\u00e7ar uma nova vida, com uma nova fam\u00edlia, e sair impune de qualquer ato que tenha cometido, e isso \u00e9 a principal prova de que n\u00e3o existiu arrependimento, existiu um desgaste, uma vontade de levar uma outra vida, ele decidiu ser bom da mesma forma que antes decidiu ser mal, foi uma escolha sem muitas reflex\u00f5es \u201cagora eu sou bom, n\u00e3o vou mais matar e quero levar uma vida comum\u201d. Acontece que n\u00e3o a volta depois que se puxa o gatilho, principalmente repetidas vezes. Ele merecia um castigo do qual se deu o luxo de esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando o passado surge a tona de novo, a fins de desmoronar toda a ilus\u00e3o de vida que ele havia criado, Joey surge imediatamente do nada. Ele volta a matar, adere ao seu antigo comportamento assassino, entende talvez que aquelas pessoas merecem morrer. Mas merecem morrer por serem o que ele j\u00e1 foi (ou \u00e9)? Isso n\u00e3o importa, e Joey decide convenientemente reviver Joey, pelo menos as habilidades assassinas dele. Ele mata quem julga merecer morrer, principalmente se esses ousarem desestruturarem a fam\u00edlia que ele levou tanto tempo para formar, a vida que lhe deu tanto trabalho para criar. Tom vira um alter ego e Joey uma identidade secreta, o homem para o trabalho sujo, e quando esse acaba, volta a ser novamente Tom livre dos remorsos e tudo mais. Acontece que Tom n\u00e3o existe, e quando ele deixa Joey tomar as red\u00e9as novamente, ele mesmo se da conta disso. A \u00faltima cena, do jantar, ele voltando pra casa, n\u00e3o \u00e9 apenas a melhor cena do filme \u2013 e que sintetisa o filme todo &#8211; mas sim a melhor da filmografia do Cronenberg, e uma das melhores do cinema. \u00c9 Joey entrando em casa pela primeira vez (ok, sempre entrou, mas agora concientemente) e tendo que encarar pela primeira vez sua fam\u00edlia sendo um assassino. E mais, tendo que encarar a fam\u00edlia de mais uma de suas v\u00edtimas, j\u00e1 que Joey criou Tom, e Joey, da mesma forma, matou Tom. Tom n\u00e3o existe mais. Ele mata o marido da sua pr\u00f3pria esposa e pai dos seus pr\u00f3prios filhos. Ele v\u00ea sua filha colocando um prato a mais na mesa para o assassino de seu pr\u00f3prio pai. Acaba com a fam\u00edlia das pessoas que mais ama, e a express\u00e3o dele diante disso (ali\u00e1s, o Viggo t\u00e1 um monstro aquela hora) \u00e9 de uma melancolia desesperadora.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Finalmente ele come\u00e7a a sofrer as consqu\u00eancias, e as coisas tentendo a melhorar devido a desgra\u00e7a interna que ele sofre. J\u00e1 que n\u00e3o poderia existir justi\u00e7a se n\u00e3o o sofrimento para ele. Ele \u00e9 t\u00e3o monstro quanto qualquer outro que tenha matado, e merece tudo aquilo, apenas se escondeu atr\u00e1s de uma fam\u00edlia convencional.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\">Thiago Duarte<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo no in\u00edcio do filme, quando Sarah, a filhinha de Tom, acorda gritando depois de um pesadelo, ela diz que: \u201chavia monstros aqui\u201d, e a cena que precede isso \u00e9 a qual dois assassinos fazem uma chacina em um desses &hellip; <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2009\/06\/12\/marcas-da-violencia-a-history-of-violence-david-cronemberg-2005\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[72,622,1397,2345,2449],"class_list":["post-3870","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comentarios","tag-a-history-of-violence","tag-david-cronenberg","tag-marcas-da-violencia","tag-tom-stall","tag-viggo-mortensen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3870"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3870\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}