{"id":358,"date":"2008-07-01T01:20:26","date_gmt":"2008-07-01T03:20:26","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=358"},"modified":"2008-07-01T01:20:26","modified_gmt":"2008-07-01T03:20:26","slug":"sabotagem-1936","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/07\/01\/sabotagem-1936\/","title":{"rendered":"Sabotagem, ou O Marido era o Culpado (Alfred Hitchcock, 1936)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.johndmorrison.com\/hitchcock\/sabotage2.gif\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"184\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aten\u00e7\u00e3o, este texto cont\u00e9m spoilers!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em primeiro lugar, vale esclarecer o seguinte: quando foi lan\u00e7ado originalmente no Brasil, essa obra recebeu o t\u00edtulo de O Marido era o Culpado. Mais recentemente, quando do lan\u00e7amento em DVD, o filme foi batizado de Sabotagem, tradu\u00e7\u00e3o literal do t\u00edtulo original, <em>Sabotage<\/em>. O que temos em Sabotagem \u00e9 uma est\u00f3ria de gato e rato, em que um policial disfar\u00e7ado tenta desmascarar um terrorista, envolvido este em um plano para detonar uma bomba em Londres. O terrorista \u00e9 casado, mas sua esposa n\u00e3o sabe sobre suas atividades ilegais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pertencente \u00e0 primeira fase inglesa da carreira de Hitch, Sabotagem poderia muito bem acabar sendo relegado ao grupo dos filmes menos not\u00e1veis do mestre. Temos aqui alguns vislumbres do talento do diretor para a composi\u00e7\u00e3o de ambientes e para a exposi\u00e7\u00e3o, quase ao n\u00edvel da disseca\u00e7\u00e3o, dos sentimentos de seus personagens. Entretanto, a est\u00f3ria em si n\u00e3o apresenta nada de particularmente inspirado, e o elenco \u00e9 possivelmente dos mais fracos com que Hitchcock j\u00e1 trabalhou.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que coloca Sabotagem no mapa, por assim dizer, se resume a uma seq\u00fc\u00eancia. O cunhado do terrorista, um garoto de n\u00e3o mais que dez anos, recebe a incumb\u00eancia de entregar um pacote. O espectador sabe se tratar da bomba, e que ela\u00a0ser\u00e1 ativada por um <em>timer<\/em>. Enquanto caminha pelas ruas de Londres, o garoto vai sofrendo contratempos, enquanto os minutos se passam e vida e morte lentamente se aproximam com o passar dos ponteiros de um rel\u00f3gio. Hitchcock consegue criar um crescendo de tens\u00e3o que atinge um n\u00edvel praticamente insuport\u00e1vel, antes de alcan\u00e7ar seu cl\u00edmax. E esse cl\u00edmax deixa a plat\u00e9ia com a sensa\u00e7\u00e3o de que algo realmente saiu errado, de que n\u00e3o era aquilo que deveria ter sido filmado. Trata-se, sem exagero, de uma das melhores cenas da carreira brilhante do diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas isso diz respeito \u00e0 forma. Algo mais a destacar essa cena \u00e9 o conte\u00fado. Em praticamente toda a obra de Hitchcock, a vida humana \u00e9 tratada com indiferen\u00e7a. Pessoas morrem, e isso serve apenas para motivar a\u00e7\u00f5es. Apenas em Sabotagem e, em menor grau, em Agente Secreto, Hitch reflete sobre o valor da vida e sobre o impacto da morte. Especialmente em Sabotagem, a perda de uma vida \u00e9 medida pelo impacto que ela causa sobre os vivos, trazendo a tona desespero, raiva, vergonha, frustra\u00e7\u00e3o. A morte n\u00e3o \u00e9 apenas um evento que prenuncia uma nova jornada para os personagens, \u00e9 um marco que coloca em xeque suas cren\u00e7as, e altera sua postura com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e com rela\u00e7\u00e3o aos demais personagens. Tanto que essa morte acaba sendo determinante para o desfecho de uma trama pol\u00edtica muito mais extensa do que a vida do personagem morto poderia influenciar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pr\u00f3prio Hitch comentou essa cena, classificando-a como \u201cum erro\u201d, em fun\u00e7\u00e3o da recep\u00e7\u00e3o negativa do p\u00fablico. Ex\u00edmio na arte de conduzir plat\u00e9ias, o diretor, nesse caso, as presenteou com algo que elas n\u00e3o queriam ver, e se arrependeu. Em seus trabalhos seguintes, ele n\u00e3o mais eliminou personagens destinados a ser estimados pelo p\u00fablico. A quest\u00e3o \u00e9 que, se esse foi um erro, foi talvez o erro mais bem sucedido da hist\u00f3ria do cinema, pois, por mais que o p\u00fablico possa ter desgostado, n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da arte oferecer sempre beleza e finais felizes. E o resultado final, em Sabotagem, dessa subvers\u00e3o da regra b\u00e1sica do filme popular \u00e9 de um valor art\u00edstico destacado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No fim das contas, Sabotagem acaba tornando-se praticamente uma li\u00e7\u00e3o de cinema, uma vez que mostra como uma cena, uma op\u00e7\u00e3o narrativa, pode transformar algo essencialmente simples em algo diferenciado, merecedor de aten\u00e7\u00e3o e de an\u00e1lise. Era Hitch fazendo hist\u00f3ria, antes mesmo de se tornar o maior.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Marcelo Dillenburg<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aten\u00e7\u00e3o, este texto cont\u00e9m spoilers! 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