{"id":289,"date":"2008-06-16T19:51:13","date_gmt":"2008-06-16T21:51:13","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=289"},"modified":"2008-06-16T19:51:13","modified_gmt":"2008-06-16T21:51:13","slug":"a-vila-m-night-shyamalan-2004","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/06\/16\/a-vila-m-night-shyamalan-2004\/","title":{"rendered":"A Vila (M. Night Shyamalan, 2004)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/a.media.abcfamily.go.com\/abcfamily\/Specials\/13-Nights\/Editions\/2007-10-19\/Schedule\/thevillage.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"270\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muito se disse sobre A Vila, sexto filme de M. Night Shyamalan, ser uma met\u00e1fora sobre a cultura do medo instaurada nos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de setembro, ou uma constata\u00e7\u00e3o sobre a impossibilidade de acabar com a viol\u00eancia, ou uma hist\u00f3ria sobre as verdades e mentiras dentro de uma fam\u00edlia, ou uma jun\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas temas e mais alguns. Mas, antes de \u2014 e mais importante que \u2014 ser tudo isso, A Vila \u00e9 uma esp\u00e9cie de revis\u00e3o, ou ainda desconstru\u00e7\u00e3o, que Shyamalan faz do seu pr\u00f3prio cinema (ao menos p\u00f3s-O Sexto Sentido).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nessa revis\u00e3o, o que norteia o diretor \u00e9 exatamente a no\u00e7\u00e3o de acreditar (em algo, sejam fantasmas, superpoderes ou milagres), que j\u00e1 era importante nos filmes anteriores; no entanto, o que diferencia A Vila de seus predecessores \u00e9 que aqui, pela primeira vez, Shyamalan coloca o espectador no centro da brincadeira. Antes, crer em alguma coisa era reservado apenas aos personagens; agora, quem assiste tamb\u00e9m \u00e9 chamado a tomar parte nisso, e o que o filme faz \u00e9 levar a quest\u00e3o at\u00e9 o limite, culminando na sua principal cena, em que a protagonista \u00e9 perseguida por uma criatura que, minutos antes, t\u00ednhamos descoberto que n\u00e3o existe. Tudo o mais, o enredo, os personagens, os subtextos (supostos ou n\u00e3o) n\u00e3o s\u00e3o mais que mero McGuffin para se chegar \u00e0quele momento na floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E isso torna A Vila n\u00e3o s\u00f3 um jogo com o estilo de Shyamalan, mas, al\u00e9m disso, com as bases \u2014 que tamb\u00e9m passam pela quest\u00e3o da cren\u00e7a \u2014 do cinema fant\u00e1stico: o espectador vai ver disposto a admitir o que quer que seja como poss\u00edvel, compra a id\u00e9ia das criaturas, para logo descobrir que n\u00e3o passam de uma farsa, e ent\u00e3o vem o confronto: a aceita\u00e7\u00e3o inicial da exist\u00eancia dos monstros contra a informa\u00e7\u00e3o dada pelo filme de que eles n\u00e3o existem. \u00d3bvio que a cena n\u00e3o funciona com muita gente \u2014 seja pelo tal confronto simplesmente n\u00e3o se concretizar (\u201cj\u00e1 falaram que n\u00e3o tem criatura nenhuma, que bosta \u00e9 essa?\u201d), por n\u00e3o envolver, ou por milhares de outras raz\u00f5es \u2014, mas deu certo comigo, e n\u00e3o s\u00f3 comigo. E s\u00f3 pela coragem, ou arrog\u00e2ncia, que seja, de ser p\u00f4r \u00e0 prova de tal maneira, tentando criar uma cena de suspense baseada num elemento descartado por ele pr\u00f3prio, e que fatalmente iria fracassar com parte do p\u00fablico, Shyamalan j\u00e1 mereceria elogios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A revela\u00e7\u00e3o da farsa, al\u00e9m de servir ao jogo que \u00e9 o centro do filme, tamb\u00e9m \u00e9 outra semi-piada que Shyamalan faz com o r\u00f3tulo que meio que lhe colaram, e ele meio que atraiu de ser o-diretor-dos-filmes-com-finais-surpresa \u2014 dessa vez a reviravolta vem com quarenta minutos ainda pela frente. Mas l\u00e1 vem outra surpresa depois, opa, tem mais uma reviravolta, essa sim no final, o que demonstra a habilidade de Shyamalan em mexer com as expectativas da plat\u00e9ia, e aqui de maneira ainda mais genial por se aproveitar da imagem que as pessoas criaram dos filmes dele, e por usar a desconstru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio estilo, antecipando a grande revela\u00e7\u00e3o, para reconstru\u00ed-lo depois, entregando outra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tamb\u00e9m \u00e9 natural que, dentro da proposta de revis\u00e3o, A Vila seja o filme do diretor em que mais se destaca a parte visual (fotografia genial de Roger Deakins), incluindo o talento na manipula\u00e7\u00e3o da c\u00e2mera (as constantes tomadas atrav\u00e9s de portas, janelas etc., a apari\u00e7\u00e3o das criaturas na vila, o esfaqueamento, toda a parte na floresta), e em que o suspense criado por Shyamalan mais mostre a influ\u00eancia hitchcockiana, com direito at\u00e9 troca brusca de protagonista, como em Psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No come\u00e7o, disse que, mais importante do que ser ou n\u00e3o um filme sobre todos os temas que atribu\u00edram a ele, era A Vila ser um filme em que o diretor revia o pr\u00f3prio estilo, zoava um pouco com ele, demolia e remontava em quest\u00e3o de minutos. No entanto, mais importante do que ser uma revis\u00e3o ou coisa do g\u00eanero, \u00e9 A Vila ser um belo exemplar do hoje meio em baixa cinema fant\u00e1stico. \u00c9 feito \u00e0s antigas, com confian\u00e7a total na disposi\u00e7\u00e3o do espectador de se deixar levar por uma hist\u00f3ria fora da realidade, sem medo de mandar as regras que regem o lado de c\u00e1 da tela ao escambau. E por isso \u00e9 t\u00e3o bom: \u00e9 como ler um conto do s\u00e9culo XIX numa daquelas velhas colet\u00e2neas, grossas, com as p\u00e1ginas amareladas e cheias de poeira, num dia de chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Robson Galluci<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se disse sobre A Vila, sexto filme de M. 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