{"id":2868,"date":"2009-02-15T03:30:56","date_gmt":"2009-02-15T05:30:56","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=2868"},"modified":"2009-02-15T03:30:56","modified_gmt":"2009-02-15T05:30:56","slug":"quem-quer-ser-um-milionario-danny-boyle-2008","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2009\/02\/15\/quem-quer-ser-um-milionario-danny-boyle-2008\/","title":{"rendered":"Quem Quer Ser um Milion\u00e1rio? (Danny Boyle, 2008)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img240.imageshack.us\/img240\/3042\/milionrohi8.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><em>por Pedro Kerr<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em virtude do lan\u00e7amento desse filme (e o buzz que o cerca), fora a nova novela das 8, a \u00cdndia est\u00e1 mais em voga. Recebi recentemente duas correntes sobre o pa\u00eds. Uma reclamando que a novela plastificou a realidade\u00a0indiana (o que de fato acontece&#8230;), cheio de fotos sobre a mis\u00e9ria do lugar, a cultura de casamentos arranjados, deixar cad\u00e1veres ao ar livre apodrecendo, cagar em lugares a c\u00e9u aberto reservados a ficarem lotados de merda, entre outras bizarrices. A outra corrente era pornogr\u00e1fica, e logo vinha \u00e0 cabe\u00e7a: &#8220;existe algum povo t\u00e3o pitoresco quanto o indiano?&#8221;. Longe de mim qualquer julgamento \u00e9tnico, mas o pitoresco, em dois passos descamba pro bizarro. Algo como: &#8220;se existe um lugar pra sair bizarrice, essa \u00e9 a \u00cdndia&#8221;. Uma esp\u00e9cie de Brasil na \u00c1sia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com tais no\u00e7\u00f5es, imaginemos Bollywood, a segunda maior ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica do mundo. Eu nunca vi um filme bollywoodiano, nem conhe\u00e7o ningu\u00e9m que j\u00e1 tenho visto ao menos um. Fica ent\u00e3o s\u00f3 a campo de imaginar o que pode sair de um lugar com uma produ\u00e7\u00e3o t\u00e3o intensa quanto cercada aos seus dom\u00ednios. Talvez por conta da cultura e linguagem ex\u00f3tica, seja imposs\u00edvel promover um filme bollywoodiano fora da \u00cdndia. Ou talvez seja inefici\u00eancia mercadol\u00f3gica. Mas enfim, &#8220;Quem Quer Ser um Milion\u00e1rio&#8221; acaba por fazer uma esp\u00e9cie de ponte entre holly e bolly. A ingenuidade com que a narrativa \u00e9 levada contrasta com a realidade mais forte que o filme mostra (Cidade de Deus style, at\u00e9 na fotografia bem parecida). Temos Jamal, um favelado, que est\u00e1 no Show do Milh\u00e3o indiano, inacreditavelmente acertando todas as respostas, sem ter estudado, mas com o conhecimento de sua experi\u00eancia de vida sofrida. \u00c9 bem meio pra ingl\u00eas ver, especialmente alternado com a maneira com que ele encara o fator &#8220;money can&#8217;t buy me love&#8221; vs mis\u00e9ria punk, mas o Boyle consegue segurar as pontas com a edi\u00e7\u00e3o \u00e1gil. Embora seja irritante as vezes, e meio formulaico (o Silvio Santos da \u00cdndia faz a pergunta, corta pro flashback da inf\u00e2ncia de Jamal onde ele sabe a resposta).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um momento que \u00e9 bem interessante \u00e9 quando o apresentador lhe pergunta quem \u00e9 o astro do filme X, e depois vemos o pequeno Jamal encontrando o her\u00f3i e conseguindo um aut\u00f3grafo (numa cena que reflete tamb\u00e9m o lado camp que o filme toma, em que o garoto antes de encontrar com o \u00eddolo, teve que mergulhar no lugar onde as pessoas matriculavam o Robinho na nata\u00e7\u00e3o), e depois tratando tal peda\u00e7o de papel como ouro. \u00c9 ir\u00f4nico comparado ao clima de conto de fadas que o filme leva. Sim, porque apesar de toda a mis\u00e9ria, instabilidade, mortes e tudo mais, Jamal \u00e9 um jovem ing\u00eanuo e meio deslumbrado com um mundo \u00e0 sua volta, e o encara a partir de sua pr\u00f3pria inoc\u00eancia &#8211; quase num formato meio fuleiro de passar li\u00e7\u00f5es a n\u00f3s. O mundo \u00e9 c\u00e3o \u00e0 sua volta, o apresentador do programa desfere verdades desagrad\u00e1veis para Jamal (talvez preferia que dissesse &#8220;um milh\u00e3o em barras de ouro, que vale mais do que dinheiro a-hae!&#8221;), e ele segue impass\u00edvel, acreditando no Destino e no Amor. O filme \u00e9 aberto com uma pergunta ampla sobre o protagonista e suas desventuras, e d\u00e1 quatro alternativas para se encarar a vida sofrida no filme: sorte; trapa\u00e7a; geniosidade; destino. Quem assiste acaba ficando a merc\u00ea e participando de um programa de perguntas e respostas, e por ora \u00e9 meio estranho essa iniciativa de direcionar a interpreta\u00e7\u00e3o venha do pr\u00f3prio filme. Mas tamb\u00e9m, por ora, a narrativa te suga e voc\u00ea acaba aceitando de bom grado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8220;Quem Quer Ser um Milion\u00e1rio?&#8221; \u00e9 realmente interessante, mas a meu ver, o filme n\u00e3o envelhecer\u00e1 muito bem. \u00c9 simp\u00e1tico e tudo mais, mas poderia ficar nisso &#8211; elevar a patamares mais superiores como o hype anda fazendo far\u00e1 mal principalmente ao pr\u00f3prio filme (gerando uma certa antipatia ou sei l\u00e1). \u00c9 um que voc\u00ea olha e acaba gostando, mas que tem momentos que voc\u00ea n\u00e3o consegue levar a s\u00e9rio (a cena durante os cr\u00e9ditos finais&#8230;), tem (seus talvez, melhores) momentos em que se assume como uma f\u00e1bula e nada mais, tem momentos em que resolve ir pra um lado mais pesado, tem momentos de reflex\u00e3o canhestra de botequim. \u00c9 uma salada que o Boyle consegue misturar no ritmo de um videoclipe bem kitsch (bem a modo daqueles do Michael Jackson no Brasil).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\"><em>por Am\u00edlcar Figueiredo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Danny Boyle \u00e9 mesmo um camale\u00e3o. Ap\u00f3s realizar uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica extremamente sofisticada, de pendores filos\u00f3ficos (o criminosamente ignorado Sunshine \u2013 Alerta Solar), ele volta \u00e0s telas com um produto tipicamente para as massas. E que deve faturar o Oscar, ainda por cima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quem Quer Ser um Milion\u00e1rio conta a est\u00f3ria de Jamal (o ingl\u00eas Dev Patel), um rapaz pobre e iletrado de Mumbai, na \u00cdndia, que acaba de chegar \u00e0 etapa final de um programa televisivo de perguntas e respostas que, obviamente, pode torn\u00e1-lo um milion\u00e1rio da noite para o dia. O problema \u00e9 que n\u00e3o acreditam em Jamal, acham que ele est\u00e1 trapaceando e, por isso mesmo, o obrigam \u2013 por m\u00e9todos nada sutis \u2013 a explicar como ele sabia cada uma das respostas. Nesse processo conheceremos toda a vida do rapaz, inclusive o grande amor de sua vida, Latika (a indiana Freida Pinto).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O filme tem a estrutura de um conto de fadas contempor\u00e2neo, ou melhor, de um videogame, com sua narrativa epis\u00f3dica e fren\u00e9tica, apesar de bastante linear. O maior problema \u00e9 que Boyle, para acentuar o lado virtuoso de Jamal, demoniza toda a sociedade que o rodeia: pervertida, inescrupulosa, ego\u00edsta, amoral. Se, de um lado, tal expediente favorece a identifica\u00e7\u00e3o do espectador com o protagonista, de outro lado, reduz os demais personagens a pouco mais que caricaturas. O uso de chav\u00f5es e de di\u00e1logos nada naturais s\u00f3 piora as coisas, tornando Quem Quer Ser um Milion\u00e1rio uma cole\u00e7\u00e3o de clich\u00eas, na maior parte do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para nossa sorte, este n\u00e3o \u00e9 um diretor comum. Boyle entende n\u00e3o s\u00f3 a din\u00e2mica complexa dos personagens cuja saga conta, mas tamb\u00e9m o movimento da nossa pr\u00f3pria sociedade. Em seu ter\u00e7o final, Jamal sofre uma verdadeira metamorfose: de um tolo virtuoso, pelo qual ningu\u00e9m apostaria um n\u00edquel, a um s\u00edmbolo da perseveran\u00e7a contra todos os progn\u00f3sticos e as vicissitudes. Com ele, emoldurado por uma cinematografia de incr\u00edvel beleza, v\u00e3o as esperan\u00e7as de Mumbai e da \u00cdndia inteira. E as nossas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2\/4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 por Pedro Kerr Em virtude do lan\u00e7amento desse filme (e o buzz que o cerca), fora a nova novela das 8, a \u00cdndia est\u00e1 mais em voga. Recebi recentemente duas correntes sobre o pa\u00eds. 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