{"id":2773,"date":"2009-02-03T17:44:28","date_gmt":"2009-02-03T19:44:28","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=2773"},"modified":"2009-02-03T17:44:28","modified_gmt":"2009-02-03T19:44:28","slug":"foi-apenas-um-sonho-sam-mendes-2008-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2009\/02\/03\/foi-apenas-um-sonho-sam-mendes-2008-2\/","title":{"rendered":"Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes, 2008)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/img89.imageshack.us\/img89\/8508\/rev01pl8.jpg\" alt=\"\" \/><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/img24.imageshack.us\/img24\/5862\/rev03qt6.jpg\" alt=\"\" \/><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" style=\"border:black 2px solid;margin:2px 1px;\" src=\"http:\/\/img261.imageshack.us\/img261\/5140\/rev02zn3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em campos metaf\u00f3ricos as barreiras existenciais podem ser exemplificadas em celul\u00f3ide das mais diversas maneiras, j\u00e1 que met\u00e1fora n\u00e3o segue um m\u00e9todo de opera\u00e7\u00e3o e nem cabe em generaliza\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 poss\u00edvel se generalizar que as barreiras colocadas nas vidas dos mais diversos personagens, nos mais diversos filmes, tendem a fugir do que \u00e9 claramente palp\u00e1vel, buscam atingir um n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o que venha a enriquecer a leitura da tal situa\u00e7\u00e3o limitante. As \u201cpris\u00f5es imagin\u00e1rias\u201d, com grades e carcereiros n\u00e3o necessariamente concretos, buscam enveredar em uma busca por uma fuga real, em contraponto com as barras abstratas. Num exemplo recente, Karim A\u00efnouiz fez de sua personagem em O C\u00e9u de Suely um t\u00edpico personagem preso em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o necessariamente prendem \u2013 e muito menos s\u00e3o logicamente explicadas -, mas buscando uma liberta\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, o que a fez agir de modo dr\u00e1stico (a conclus\u00e3o b\u00e1sica para esse tipo de situa\u00e7\u00e3o). No filme, A\u00efnouiz prop\u00f4s uma compreens\u00e3o imag\u00e9tica da limita\u00e7\u00e3o da personagem, n\u00e3o buscando explicar os motivos de seu n\u00e3o-pertencimento, apenas mostrando na tela o mundo e levando o p\u00fablico\u00a0a \u201cser\u201d a personagem. O resultado \u00e9 riqu\u00edssimo e primoroso, um dos raros casos em que a narrativa em si fica subjugada em seu pr\u00f3prio contexto por um vi\u00e9s maior, a da compreens\u00e3o do indiv\u00edduo. N\u00e3o \u00e9 nenhuma surpresa assistir a Revolutionary Road, novo filme de Sam Mendes, e se deparar com um casal preso nas tais celas existenciais, buscando um modo de fuga e liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 somente uma surpresa \u2013 e incr\u00edvel decep\u00e7\u00e3o \u2013 perceber que Mendes \u00e9 incapaz de deixar de lado um quase fetiche em tornar tudo palp\u00e1vel, expl\u00edcito e did\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Frank e April, infelizes e imposs\u00edveis em suas vidas equivocadamente divididas, se apegam \u00e0 uma luz para que possam encontrar a felicidade, quase que utopicamente. A quest\u00e3o \u00e9 que Mendes barra qualquer possibilidade de conex\u00e3o com a dor deles, ele sempre faz quest\u00e3o de deixar tudo muito claro e dito, se for poss\u00edvel. April e Frank agem de modo \u201chumano\u201d mas pensam de modo racional demais, como se fossem eles mesmos espectadores da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 momento em que Mendes hesita em n\u00e3o colocar na boca de seus personagens a imagem clara da situa\u00e7\u00e3o que se colocou, do momento que eles est\u00e3o vivendo e do futuro que se anuncia. \u00c9 imposs\u00edvel levar \u00e0 frente qualquer pensamento de interpreta\u00e7\u00e3o, por parte do telespectador, no filme, j\u00e1 que mais que depressa a coisa se d\u00e1, se mostra, se esfrega na cara de quem est\u00e1 atento ou n\u00e3o \u00e0 narrativa. E para aqueles que n\u00e3o est\u00e3o, Mendes lan\u00e7a m\u00e3o de Michael Shannon, interpretando um louco cheio de raz\u00e3o (que como \u00e9 dito no pr\u00f3prio filme, pode saber muito mais que os outros), capaz de dizer todas as verdades que os outros se negam a enxergar (se negam mesmo?), muito mais pelo artif\u00edcio da explica\u00e7\u00e3o muito bem explicadinha, para aquela senhora do fundo da sala que metia a m\u00e3o no balde de pipoca e perdeu\u00a0o eminente fiasco daquelas vidas. \u00c9 Shannon, \u00e9 a infidelidade velada, \u00e9 o abuso de trilha, \u00e9 o evidente desempenho de Leonardo Di Caprio, alto quando pode ser alto, baixo quando deve se conter e aceitar a realidade. O que espanta mesmo no filme \u00e9 o fato de Kate Winslet sobreviver estoicamente a todas as tentativas de destrui\u00e7\u00e3o de sua personagem. Em cena, Winslet tem total dom\u00ednio do caos interno de April e se sai bem at\u00e9 mesmo quando fala barbaridades desnecess\u00e1rias; as palavras sa\u00eddas da boca da atriz s\u00e3o renegadas ao lixo, j\u00e1 que sua inseguran\u00e7a \u00e9 plena em cada tra\u00e7o de seu rosto e nos olhares calculadamente naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E caso tudo n\u00e3o tivesse sido destru\u00eddo na tentativa de realizar o abstrato, Mendes ainda consegue fazer com que o trabalho fotogr\u00e1fico de Roger Deakins pare\u00e7a \u00f3bvio demais, em seu momento mais pretensamente bom. A luz artificial sobre as cabe\u00e7as de Frank e April cessam assim que a perdi\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada de modo completo: na cena da fuga de April pela mata, tudo parece luz natural, a c\u00e2mera perde sua estabilidade, a fotografia assina e berra o que o diretor quer. Como uma crian\u00e7a incapaz de demonstrar com um l\u00e1pis e papel os desenhos de sua mente, Sam Mendes se vale de canetinhas, giz de cera, l\u00e1pis n\u00e9on, luz fluorescente, HMIs ultra-potentes, para que tudo possa mesmo ser visto e entendido, pois parece que o cinema precisa mesmo se explicar e se esgotar. Depois ele pega o desenho e joga no lixo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">1\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Thiago Mac\u00eado Correia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">ou: <a href=\"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2009\/01\/31\/foi-apenas-um-sonho-sam-mendes-2008\/\">Foi Apenas um Sonho<\/a> (Sam Mendes, 2008) &#8211; Adney Silva &#8211; 2\/4<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em campos metaf\u00f3ricos as barreiras existenciais podem ser exemplificadas em celul\u00f3ide das mais diversas maneiras, j\u00e1 que met\u00e1fora n\u00e3o segue um m\u00e9todo de opera\u00e7\u00e3o e nem cabe em generaliza\u00e7\u00f5es. 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