{"id":273,"date":"2008-06-13T15:19:44","date_gmt":"2008-06-13T17:19:44","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=273"},"modified":"2008-06-13T15:19:44","modified_gmt":"2008-06-13T17:19:44","slug":"blow-up-depois-daquele-beijo-michelangelo-antonioni-1966","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/06\/13\/blow-up-depois-daquele-beijo-michelangelo-antonioni-1966\/","title":{"rendered":"Blow up &#8211; Depois Daquele Beijo (Michelangelo Antonioni, 1966)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/i10.photobucket.com\/albums\/a150\/tuesdayweld\/blowup1.jpg\" alt=\"\" width=\"369\" height=\"442\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cAlgumas vezes, a realidade \u00e9 a mais estranha de todas as fantasias\u201d, afirma o narrador do teaser de Depois Daquele Beijo (Blowup), o primeiro filme do diretor italiano Michelangelo Antonioni em ingl\u00eas. Filmado e ambientado na \u201cSwinging London\u201d da D\u00e9cada de 60, Blowup vai muito al\u00e9m da dicotomia verossimilhan\u00e7a\/fantasia: coloca em xeque o processo de apreens\u00e3o da realidade que \u00e9 a imagem \u2013 a fotografia e o pr\u00f3prio cinema, em \u00faltima inst\u00e2ncia \u2013 e subverte a tradicional no\u00e7\u00e3o de passividade do espectador frente ao trabalho do artista. O filme, um dos mais analisados em toda a hist\u00f3ria do cinema, n\u00e3o oferece respostas ou conclus\u00f5es \u00f3bvias para sua trama enganosamente simples, nem requer que seu p\u00fablico o fa\u00e7a \u2013 \u00e9 na din\u00e2mica da vida e seu retrato por meio de imagens que se encontra o seu verdadeiro cerne.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Blowup conta a est\u00f3ria de Thomas (David Hemmings, memor\u00e1vel), um fot\u00f3grafo de moda entediado com o vazio de sua profiss\u00e3o. Amoral, arrogante, insens\u00edvel e obcecado por seu trabalho, Thomas tem um senso est\u00e9tico extraordin\u00e1rio que, a despeito de ser fundamental em seu of\u00edcio, n\u00e3o lhe preenche. A vida passa por Thomas \u2013 como os merrymakers do in\u00edcio, m\u00edmicos de simbolismo crucial para a apreens\u00e3o das inten\u00e7\u00f5es de Antonioni \u2013 em verdadeiros espasmos, surtos de cor e movimento (que podem ser prosaicos como a h\u00e9lice de um navio, \u00e0 venda em um antiqu\u00e1rio) captados com precis\u00e3o por sua c\u00e2mera, mas n\u00e3o lhe toca. Esta insensibilidade para o significado das imagens \u00e9 posta \u00e0 prova quando, ap\u00f3s ser fotografada, de forma n\u00e3o-consensual, aos beijos com um homem num parque, Jane (Vanessa Redgrave), j\u00e1 sozinha, insiste para que ele lhe d\u00ea o filme e n\u00e3o \u00e9 atendida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A imagem, ao contr\u00e1rio das pessoas que ele descarta t\u00e3o facilmente, \u00e9 a grande paix\u00e3o de Thomas, seu pathos. Mas a desimport\u00e2ncia que ele atribui \u00e0quele epis\u00f3dio aparentemente casual, ignorando o pedido de Jane para que n\u00e3o revelasse as fotos, demonstra qu\u00e3o desprovida de conte\u00fado \u00e9 sua estrutura interior. Thomas inconscientemente busca por significados no transcorrer de toda a proje\u00e7\u00e3o e eles surgem a partir da descoberta de um poss\u00edvel assassinato no parque, quando o negativo do filme \u00e9 revelado e uma das fotografias \u00e9 sucessivamente ampliada (de onde vem o t\u00edtulo original do filme &#8211; to blow up). Uma imagem isolada \u00e9 destitu\u00edda de significado; o conjunto formado por v\u00e1rias delas, formando uma seq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica, adquire a relev\u00e2ncia que o artista tanto procura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A quem pertence a imagem? \u00c0quele que \u00e9 retratado ou \u00e0 pessoa que a v\u00ea? Thomas tenta encontrar os significados ocultos de suas fotos tendo como refer\u00eancia a identifica\u00e7\u00e3o da express\u00e3o apreensiva de Jane em uma delas. Numa seq\u00fc\u00eancia visualmente espetacular \u2013 e arrepiante, com pouqu\u00edssimos cortes e sem som &#8211; a perspectiva do outro finalmente se torna relevante para ele, pass\u00edvel de vir a ser um ponto de partida. As imagens n\u00e3o existem mais para exclusivo deleite de Thomas, elas passam ter import\u00e2ncia em raz\u00e3o de seu significado intr\u00ednseco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antonioni v\u00ea muito de si pr\u00f3prio em Thomas. Seu alter ego \u00e9 retratado sem concess\u00f5es: materialista, f\u00fatil, sexista e moralmente repreens\u00edvel. Mas o extraordin\u00e1rio gosto do diretor pela beleza se revela nos enquadramentos magn\u00edficos, nos movimentos secos, por\u00e9m precisos, da c\u00e2mera, na seq\u00fc\u00eancia em que ele, o Antonioni mestre na arte do cinema, fotografa Thomas fotografando Veruschka \u2013 dois fot\u00f3grafos em um s\u00f3, ambos em cont\u00ednua busca pelo enquadramento perfeito e apaixonados por seu of\u00edcio. As reais inten\u00e7\u00f5es de Antonioni, no entanto, s\u00e3o muito mais profundas, pois a cr\u00edtica que ele faz a seu protagonista e a si mesmo \u00e9 ampliada &#8211; em outro blow up, desta vez sociol\u00f3gico e moral &#8211; para a pr\u00f3pria sociedade em que vivemos. De Thomas para Londres, e de Londres para o mundo. Em Blowup, as pessoas s\u00e3o retradadas est\u00e1ticas e alheias aos significados das coisas, como s\u00e3o as modelos e os espectadores, r\u00edgidos como manequins, do show dos Yardbirds (Jimmy Page e Jeff Beck ao palco). Antonioni clama para que n\u00f3s rejeitemos nossa pr\u00f3pria in\u00e9rcia ideol\u00f3gica, que deixemos de adotar uma postura passiva no filme e em nossas pr\u00f3prias vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse \u00e9, finalmente, o aspecto nodal da est\u00e9tica de Blowup. Toda obra de arte tem seu ponto crucial, o momento em que as verdades de seu criador s\u00e3o postas \u00e0 prova, sujeitas ao exame de seus destinat\u00e1rios. Esse \u00e9 um momento cujo risco \u00e9 proporcional \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es do artista, e no caso de Blowup, elas n\u00e3o poderiam ser maiores. Ao final, a partir da extrema relativiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do assassinato no filme, Antonioni subverte as no\u00e7\u00f5es de autoria e significa\u00e7\u00e3o das imagens de uma maneira tal que entrega seu pr\u00f3prio filme ao espectador. N\u00e3o h\u00e1 mais Blowup, de Michelangelo Antonioni, mas sim um filme cuja ess\u00eancia, beleza e significado est\u00e3o nos olhos de quem o v\u00ea \u2013 e que corre o risco de se extinguir se esse processo n\u00e3o for continuamente renovado, tal qual se extingue, de uma forma maravilhosamente l\u00edrica, a imagem do pr\u00f3prio Thomas no \u00faltimo plano do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Preste aten\u00e7\u00e3o: na intera\u00e7\u00e3o entre os m\u00edmicos e Thomas, no in\u00edcio e ao final de Blowup. Num primeiro momento o fot\u00f3grafo se diverte e aprecia o trabalho dos m\u00edmicos, mas passa ao largo de sua verdadeira arte; ao final, ap\u00f3s uma experi\u00eancia extenuante (que dura pouco mais de dois dias no filme) ele n\u00e3o s\u00f3 se comove com uma partida de t\u00eanis com bolas invis\u00edveis \u2013 ele as ouve e as v\u00ea. A magia do cinema, de ter contato com uma realidade que se sabe ser artificial, mas que toca nossos cora\u00e7\u00f5es ainda assim, \u00e9 retratada em Blowup em todo o seu esplendor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque n\u00e3o perder: pelo processo de desnudamento do diretor atr\u00e1s das c\u00e2meras, o que se reflete em seu avatar, Thomas; pelos belos planos e contraplanos, esteticamente arrojados (cortesia de Carlo di Palma); por ser um excepcional exemplo de um filme que nos conta sobre o of\u00edcio de fazer filmes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Am\u00edlcar Figueiredo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAlgumas vezes, a realidade \u00e9 a mais estranha de todas as fantasias\u201d, afirma o narrador do teaser de Depois Daquele Beijo (Blowup), o primeiro filme do diretor italiano Michelangelo Antonioni em ingl\u00eas. 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