{"id":272,"date":"2008-06-13T15:13:16","date_gmt":"2008-06-13T17:13:16","guid":{"rendered":"http:\/\/multiplot.wordpress.com\/?p=272"},"modified":"2008-06-13T15:13:16","modified_gmt":"2008-06-13T17:13:16","slug":"fale-com-ela-pedro-almodovar-2002","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/multiplotcinema.com.br\/antigo\/2008\/06\/13\/fale-com-ela-pedro-almodovar-2002\/","title":{"rendered":"Fale Com Ela (Pedro Almod\u00f3var, 2002)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.offoffoff.com\/film\/2002\/images\/talktoher.jpg\" alt=\"\" width=\"430\" height=\"355\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde o in\u00edcio de sua carreira, o cineasta espanhol Pedro Almod\u00f3var sempre teve o poder de n\u00e3o deixar o espectador indiferente a seus trabalhos, para o bem ou para o mal. Suas observa\u00e7\u00f5es mordazes sobre a luta entre indiv\u00edduo e sociedade e seu prazer pela transgress\u00e3o, apontando os paradoxos da condi\u00e7\u00e3o humana por meio da constru\u00e7\u00e3o de personagens t\u00e3o complexos quanto fascinantes, muitas vezes se faziam acompanhar de uma linguagem est\u00e9tica crua, agressiva e quase aberrante. Este gosto pelo bizarro (que havia se revelado no inteligente e divertido Mulheres \u00e0 Beira de um Ataque de Nervos, de 1988, e atingiu seu \u00e1pice no muito inferior Kika, de 1993) come\u00e7ou a ser depurado pelo pr\u00f3prio cineasta a partir do excelente Carne Tr\u00eamula, de 1997, sem que a ousadia narrativa ou o humor c\u00e1ustico e inteligente tenham sofrido qualquer preju\u00edzo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse not\u00e1vel amadurecimento do diretor se revelou de forma ainda mais intensa nos dois filmes que se seguiram, Tudo Sobre Minha M\u00e3e, de 1999, e este Fale com Ela, que consolidou o status de Almod\u00f3var no cen\u00e1rio internacional como um ex\u00edmio contador de est\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao contr\u00e1rio do que ocorre na maioria das suas obras anteriores, a perspectiva sobre a qual se desenvolve o filme \u00e9 predominantemente masculina. Na busca pelo entendimento com suas amadas, que n\u00e3o interagem com eles em raz\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, Marco (Dar\u00edo Grandinetti, num trabalho seguro e modulado, transmitindo firmeza e fragilidade alternadamente) e Benigno (o excepcional Javier C\u00e1mara, de L\u00facia e o Sexo, em uma interpreta\u00e7\u00e3o de verossimilhan\u00e7a imposs\u00edvel de ser expressa em palavras) ingressam numa jornada de espiritualidade e revis\u00e3o de seus pr\u00f3prios conceitos, com conseq\u00fc\u00eancias diferentes para ambos. Marco, saturado pela melancolia e por seus fracassos amorosos, emerge ferido desse per\u00edodo de convuls\u00f5es internas e questionamentos, por\u00e9m muito mais maduro; Benigno, v\u00edtima de uma vida n\u00e3o-vivida e completamente imerso em um mundo de ilus\u00e3o que, paradoxalmente, releva-se salutar para aqueles que o rodeiam e, ao mesmo tempo, leva \u00e0 sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o, sucumbe.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Apesar da complexidade do tema e da gravidade dos elementos morais de que trata, \u00e9 f\u00e1cil perceber que Fale com Ela, com sua linearidade narrativa e seus personagens que em momento algum apelam para o sentimentalismo ou a vulgaridade, \u00e9 um dos filmes mais acess\u00edveis de Almod\u00f3var. N\u00e3o obstante isso, os tra\u00e7os mais marcantes da obra do diretor se fazem presentes: os sentimentos contradit\u00f3rios e as dificuldades de se lidar com o verdadeiro eu (Marco revela sensibilidade a ponto de chorar copiosamente ao ver o espet\u00e1culo de Pina Bausch, mas se mostra incapaz de dar vaz\u00e3o aos seus sentimentos frente a uma Lydia em coma), o inconformismo para com os padr\u00f5es impostos pela sociedade (Lydia, naquela que poderia ser compreensivelmente qualificada como uma das mais masculinas entre as profiss\u00f5es, sente vergonha por revelar medo, uma fraqueza que ela pr\u00f3pria n\u00e3o se permite para n\u00e3o dar margem a mais preconceitos) e, principalmente, a necessidade de se colocar no lugar dos outros antes de fazer quaisquer julgamentos (o que afeta profundamente Benigno, que perde a luta contra a puni\u00e7\u00e3o pelo seu crime mesmo antes de ela come\u00e7ar).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O personagem de Javier C\u00e1mara \u00e9, inquestionavelmente, o centro afetivo do filme e \u00e9 sobre esse gelo fino, da pureza de car\u00e1ter confrontada com os atos vis que dele podem aflorar, que Almod\u00f3var caminha com uma coragem admir\u00e1vel. Muito do sucesso do filme se deve ao trabalho do ator, que veste Benigno como se fosse uma segunda pele. Grandinetti, Watling, Flores e Chaplin (que participa de uma cena, no terra\u00e7o do hospital, fundamental para a compreens\u00e3o do calv\u00e1rio e da reden\u00e7\u00e3o de Marco e Benigno) tamb\u00e9m dominam seus personagens com maestria, o que s\u00f3 dep\u00f5e em favor de Almod\u00f3var como excepcional diretor de atores.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nH\u00e1, em Fale com Ela, um sentido de urg\u00eancia e de proatividade que se revela j\u00e1 a partir de seu t\u00edtulo (que \u00e9 um verdadeiro comando mental, dotado de uma imperatividade que dispensa justificativas). Na concep\u00e7\u00e3o apresentada aqui as pessoas devem agir, sob pena de se esvair a oportunidade e o fracasso se tornar inevit\u00e1vel. A ina\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, como forma de a\u00e7\u00e3o, \u00e9 especialmente amarga para Marco, cuja incapacidade de quebrar seus pr\u00f3prios paradigmas s\u00f3 \u00e9 vencida ao final (\u201cperguntaram se voc\u00ea era meu namorado\u201d, diz Benigno, \u201cmas eu n\u00e3o tive seguran\u00e7a para dizer que sim\u201d; \u201ceu n\u00e3o me importo\u201d, responde um Marco completamente diferente daquele visto no in\u00edcio do filme). Numa excepcional demonstra\u00e7\u00e3o de respeito pelos personagens que ele mesmo criou, Almod\u00f3var n\u00e3o questiona suas atitudes, embora tenha o bom-senso de n\u00e3o minimizar suas conseq\u00fc\u00eancias. Por tais raz\u00f5es \u00e9 que o gosto amargo do final, concebido sem quaisquer concess\u00f5es, fica t\u00e3o forte na boca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esteticamente, o filme mant\u00e9m diversos conceitos que marcaram a carreira de seu diretor, ao mesmo tempo em que outros s\u00e3o revistos e aprimorados. As famosas cores de Almod\u00f3var n\u00e3o poderiam deixar de se fazer presentes, mas nunca brigam com os personagens ou retiram o foco do espectador sobre a dramaticidade da est\u00f3ria que \u00e9 contada. Da bel\u00edssima abertura com a dan\u00e7a-teatro da core\u00f3grafa alem\u00e3 Pina Bausch, passando pela trilha-sonora inspirada de Alberto Iglesias (que colaborou com Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel) e pelos enquadramentos que alternam suavidade e invas\u00e3o, ao sabor da est\u00f3ria, Fale com Ela \u00e9 um espet\u00e1culo elegante, aberto a m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es e, sobretudo, contado com firmeza mas sem esfor\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao final, em uma era onde a cultura do eu se mostra mais forte do que nunca e parece ser t\u00e3o dif\u00edcil para as pessoas abandonarem seus pr\u00f3prios pressupostos em benef\u00edcio da compreens\u00e3o de terceiros, a exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o que \u00e9 Fale com Ela se revela n\u00e3o s\u00f3 um grande exerc\u00edcio cinematogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m um b\u00e1lsamo para nossas consci\u00eancias.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPreste aten\u00e7\u00e3o: No filme dentro do filme Amante Menguante, que conta a est\u00f3ria de um sujeito que, ao tomar uma solu\u00e7\u00e3o para emagrecer, criada por sua namorada cientista (a \u00f3tima Paz Vega, de Espangl\u00eas), acaba encolhendo at\u00e9 atingir o tamanho suficiente&#8230; para entrar em uma vagina. Al\u00e9m de ser uma cena-chave para o despertar da sexualidade de Benigno, por meio dela Almod\u00f3var lembra aos homens, com muito humor e espirituosidade, que no sexo ou em qualquer outra rela\u00e7\u00e3o, a entrega deve ser por inteiro e n\u00e3o apenas com esta ou aquela parte do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que j\u00e1 se disse: Fale com Ela solidificou a posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio de Almod\u00f3var no cen\u00e1rio cinematogr\u00e1fico atual. Curiosamente, ao receber o pr\u00eamio da Academia de Artes e Ci\u00eancias Cinematogr\u00e1ficas de Melhor Roteiro Original, o diretor fez um apelo, t\u00e3o sutil e elegante quanto seu pr\u00f3prio filme, \u00e0 defesa da legalidade internacional, violada a partir da invas\u00e3o do Iraque feita por tropas americanas, inglesas e tamb\u00e9m espanholas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque n\u00e3o perder: Por ser um exemplo de ex\u00edmia constru\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de personagens; pela poesia, pelo lirismo ofuscante que brota do filme a todo o tempo; pela fotografia e trilha sonora inspiradas; por ser uma \u00f3tima oportunidade para se emocionar e (por que n\u00e3o?) chorar com uma est\u00f3ria que n\u00e3o parece ter sido em nenhum momento concebida ou distorcida apenas para produzir este efeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4\/4<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Am\u00edlcar Figueiredo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio de sua carreira, o cineasta espanhol Pedro Almod\u00f3var sempre teve o poder de n\u00e3o deixar o espectador indiferente a seus trabalhos, para o bem ou para o mal. 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